No congresso, a cantora britânica foi interpretada por uma psiquiatra em uma mesa que transformou o palco do evento em um consultório terapêutico
Cinthya Leite
Publicado em 06/06/2026 às 9:25
| Atualizado em 06/06/2026 às 10:00
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PORTO ALEGRE – Amy Winehouse entrou no consultório do terapeuta carregando culpa. A cantora britânica trouxe questões relacionadas ao relacionamento conturbado com Blake Fielder-Civil, ao uso de álcool e drogas, ao medo de ser abandonada e ao sofrimento.
A cena aconteceu na sexta-feira (5), no Brain Congress, em Porto Alegre. Amy não estava realmente ali. Ela morreu em 2011, aos 27 anos. No congresso, a cantora britânica foi interpretada pela psiquiatra Carla Bicca, especialista em dependência química. A mesa-redonda do evento foi transformada em um consultório terapêutico ao vivo. Para interpretar Amy, Carla Bicca recebeu um treinamento do ator João Castanha e do diretor de teatro Marcus Alvisi.
A partir desse caso fictício, três especialistas demonstraram estratégias utilizadas na prática clínica para lidar com alguns dos desafios mais complexos da psicoterapia.
A proposta era simples e provocadora: se Amy procurasse ajuda hoje, como diferentes terapeutas trabalhariam seu sofrimento? A resposta revelou muito menos sobre a celebridade e muito mais sobre a condição humana.
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Ao longo das interpretações em cena de consultório, os psiquiatras Carlos Alberto Iglesias Salgado e Irismar Reis de Oliveira, ao lado da psicóloga Aline Kristensen mostraram que, por trás dos excessos que tornaram Winehouse conhecida mundialmente, poderiam existir conflitos familiares, medo da rejeição, sentimentos de inadequação e uma dificuldade profunda de se enxergar com compaixão.
Um dos conceitos discutidos foi a ambivalência, que é aquela sensação de querer mudar e, ao mesmo tempo, não conseguir. Segundo os especialistas, muitas pessoas chegam à terapia exatamente assim: uma parte quer abandonar relacionamentos destrutivos, padrões de dependência ou comportamentos que geram sofrimento. Outra parte, porém, teme o desconhecido e se agarra ao que já conhece, mesmo que isso machuque.

Amy foi interpretada por uma atriz em uma mesa-redonda que transformou o palco em consultório – LM7/Divulgação
Para ilustrar esse processo, Carlos Salgado apresentou o que chamou de “comitê interno” de Amy Winehouse. De um lado, a artista que desejava amor, reconhecimento e expressão por meio da música; de outro, a mulher marcada por sentimentos de inadequação, abandono e pela busca de alívio emocional imediato por meio das drogas.
Segundo o psiquiatra, a ambivalência surge justamente desse embate entre desejos, medos e necessidades contraditórias. Em vez de confrontar a resistência do paciente, a proposta da entrevista motivacional é compreender essas forças em conflito e ajudá-lo a encontrar razões próprias para a mudança.
Em outro momento, a discussão se voltou para a culpa. Ao analisar a história da cantora, os terapeutas propuseram uma pergunta incômoda: até que ponto Amy era realmente responsável por tudo o que deu errado?
A reflexão levou a uma distinção importante entre culpa e vergonha. A culpa está relacionada ao comportamento. É a sensação de ter feito algo errado. A vergonha é mais profunda. Ela não diz “eu errei”. Ela diz “eu sou um erro”.
Para os especialistas, muitas pessoas vivem aprisionadas não pela culpa em si, mas pela crença de que existe algo fundamentalmente defeituoso em quem elas são.
A mesa também explorou um dos temas mais delicados da prática clínica: as rupturas na relação entre paciente e terapeuta.
Desconfiança, medo de rejeição e expectativa de abandono frequentemente, como os sentimentos retratados por Amy, aparecem dentro do próprio consultório. Nesses momentos, explicaram os profissionais, a mudança não acontece apenas pela compreensão racional dos problemas.
Ela acontece quando o paciente vive uma experiência diferente daquela que aprendeu ao longo da vida: quando espera julgamento e encontra acolhimento, quando espera abandono e encontra permanência ou quando espera ser reduzido aos seus erros e encontra alguém disposto a enxergar sua história inteira.
Ao final, a impressão que ficou para a plateia foi curiosa, pois a encenação terapêutica mostrou que a sessão no Brain não foi apenas uma discussão sobre Amy Winehouse. Foi uma representação sobre qualquer pessoa que já permaneceu tempo demais em uma relação que a fazia sofrer, sobre quem carrega culpas que talvez não sejam inteiramente suas e sobre o fato de que mudar nem sempre significa encontrar respostas, mas aprender a fazer perguntas diferentes sobre si mesmo.
*A jornalista faz a cobertura do Brain a convite da organização do congresso.














