Reinaldo Moraes faz ‘playground maluco’ de sexo e drogas no novo ‘Noitada’

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Reinaldo Moraes faz ‘playground maluco’ de sexo e drogas no novo ‘Noitada’


Um homem com mais de 50 anos e uma mulher que se aproxima dos 40, sua ex-namorada, entram em um táxi num domingo à noite, saindo de um bar em direção a um apartamento na avenida Higienópolis, onde uma jovem atriz os espera acompanhada de uma terceira mulher misteriosa.

É junho de 2013 e as ruas que ligam o centro de São Paulo ao destino estão paradas por causa das manifestações que incendiavam a cidade naquelas semanas. Uma viagem que não deveria durar mais de dez minutos se estende pelas cem primeiras páginas de “Noitada”, que Reinaldo Moraes lança pela Todavia na Feira do Livro.

Moraes, que brinca ser acometido por uma grafomania patológica, encarou “Noitada” como um desafio. “Ninguém teria saco de ler tantas páginas de um táxi parado no trânsito, então me desafiei a fazer com que uma situação inercial tivesse movimento literário.”

Cada detalhe da noite do protagonista Kabeto, escritor habitué da farra paulistana, cria uma constelação de significados ao decorrer do romance, que vem sendo anunciado pelo autor desde 2018 como continuação de “Maior que o Mundo”.

Com quase toda sua obra publicada na Companhia das Letras, Moraes migra o aguardado romance para a nova editora depois de mais de dez anos retrabalhando seus personagens e intrigas.

A história nasce em 2013, quando em uma mesa de bar o cineasta Beto Marquez pediu ao autor uma narrativa para um filme. Sua ideia inicial era adaptar “Pornopopeia”, obra elogiada por críticos à altura de Roberto Schwarz, mas os direitos já tinham sido vendidos para Rodrigo Teixeira, produtor de “Ainda Estou Aqui”.

Quando o amigo pediu por um “Pornopopeia 2”, Moraes foi até o banheiro e voltou com a história de um escritor que está há mais de 20 anos em bloqueio criativo e encontra em uma caçamba o diário de um anão, que decide plagiar. “Ficou um roteiro imenso, de mais de 300 páginas, que ele enxugou até caber em 90 minutos”. O resultado foi o filme “Maior que o Mundo”, de 2022.

Marquez ficou com os direitos para o cinema e Moraes manteve os direitos editoriais. “Pensei: vou desentortar esse texto, tirar da forma de roteiro e em no máximo três meses publico como livro”, conta o autor.

Quando chegou a escrever 600 páginas, após três anos dedicando-se à história de Kabeto, Moraes decidiu fazer dela uma trilogia, anunciada no momento do lançamento de seu primeiro volume.

“Depois percebi que com mais um livro dava para matar a história e comecei a divulgar a ideia de ser uma trilogia em dois volumes, uma inovação em matéria de trilogia”, Moraes ri da própria piada.

Quando o segundo volume bateu as mil páginas, o autor decidiu dividir o romance em dois, este “Noitada” e uma obra ainda em produção. “Eu perdi a piada da trilogia de dois volumes porque a maior parte do novo livro já está escrita.”

Quando a antiga editora sugeriu muitas mudanças em um romance que para o autor já estava bom demais, ele decidiu encaminhar o manuscrito para a Todavia. “Porque literatura é que nem sexo: você faz o que quer e o que pode. Nessa eu resolvi mandar para o Flávio Moura [editor da Todavia], que em uma semana fechou o livro. Foi inclusive um alívio para a Companhia.”

Mudança de editora não significa mudança de estilo, e “Noitada” segue a mesma lógica formal que consagrou Moraes como um dos mais celebrados autores brasileiros contemporâneos: falar em sexo e drogas com o mais alto grau de refinamento literário. Ou, nas palavras de Schwarz, uma impressionante “combinação de registro chulo com escrita elaborada e inventiva”.

Depois da viagem pelo centro de São Paulo, Kabeto e Mina desembarcam no edifício Bretagne, de Artacho Jurado, para uma noite regada a espumante francês e o que Kabeto chama de ” farinha mágica dos Andes”, que ele recusa, mais afeito à maconha. Um “belo combo junky-erótico-etílico”, diz o personagem.

Por mais que cada detalhe, devaneio e sentimento descrito ao longo daquelas páginas aponte para a situação erótica, para Moraes é evidente que sua intenção não é despertar os brilhos sexuais do leitor.

“Sempre achei cenas de sexo em literatura constrangedoras, porque ou é de um assepticismo lírico ou é muito grossa, coisa que nem se lê em textos que são considerados literatura. Por que não tratar sexo como comédia?”

Ele se inspira no poeta e romancista Charles Bukowski —de quem traduziu “Mulheres” para a L&PM— para construir uma experiência sexual realista pela via cômica. “O sexo é um território de desencontros, desenganos e mal-entendidos que costumo escrever no registro de comédia. Acaba saindo assim da minha cabeça meio ferrada.”

Assim como o protagonista de “Mulheres”, Henry Chinaski, Kabeto nutre relações complexas com as mulheres ao seu redor, frequentemente acusado de misoginia em uma variedade impressionante de termos usados pela ex-namorada. “Ele tem um perfil alienado, o cara que não está nem aí para o curso da história”, diz Moraes.

No táxi, os personagens da classe média artística paulistana se irritam com o trânsito sem entender muito bem o significado das Jornadas de Junho, que servem de contraponto narrativo às vidas privadas que levam entre o bar e o apartamento.

Moraes optou por comentar o reacionarismo que crescia na sociedade brasileira naquele momento, antecipando o processo político que culminou na eleição de Jair Bolsonaro, apenas “por alto, para não virar o centro de discussão” do romance.

Mas temas sociais despontam no tecido da narrativa, como quando, refletindo sobre seu livro, Kabeto pensa: “Talvez anão de circo não seja mesmo o tipo de personagem literário mais da hora no Brasil de hoje. E que tipo de personagem seria? Certamente alguém enfrentando preconceitos e condições sociais adversas”.

Mas, ao contrário de Chinaski e Bukowski, Kabeto não é espelho de Reinaldo Moraes. Para ele, a literatura “é um epifenômeno da realidade”.

“Estamos num momento de afirmação racial e de gênero. As pessoas saíram do armário e junto com elas, saiu a linguagem, a vontade de falar das experiências.” Ele lembra de sua amizade com Caio Fernando Abreu e, mais recentemente, com Amara Moira e elogia a obra de Eliana Alves Cruz. “Para mim não existe literatura queer ou literatura negra: é literatura.”

Ao alternar entre as vozes da primeira e da terceira pessoa, inventar palavras-valise sem alça e forçar os limites da moral e da literatura com humor, Reinaldo Moraes define seu novo livro como “uma espécie de playground maluco” do espaço literário contemporâneo.



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