Pedro Almodóvar ainda é fascinado pelo mistério da criação. É o que ele mesmo diz, aos 76 anos e com quase meio século de carreira. Reconhecido como um dos cineastas mais influentes de sua geração, o espanhol busca entender a ligação entre a inspiração e a vida em seu novo filme, “Natal Amargo“, que chega aos cinemas nesta quinta-feira (29), após estrear no Festival de Cannes.
O longa acompanha duas histórias paralelas. Uma é real; a outra é inventada pelo diretor de cinema Raúl, que vive uma crise criativa. Ele começa, então, a inserir em seu novo roteiro fatos que acontecem na vida de pessoas ao seu redor, alguns deles muito doloridos. Sua personagem inventada, Elsa, faz o mesmo e volta a escrever depois de anos, motivada pelo sofrimento de duas amigas, ao mesmo tempo em que tenta superar a perda da própria mãe.
O luto atravessa todos os personagens de “Natal Amargo”. Tanto Raúl, que sofre pelo fim da própria criatividade, quanto as amigas de Elsa —Patrícia, que enfrenta o fim de um longo relacionamento, e Natália, que perdeu o filho pequeno em um acidente. O conflito se instala em dose dupla quando as pessoas ao redor de Raúl, e também aquelas da vida de Elsa, descobrem que suas dores viraram roteiros.
“A natureza do escritor é egoísta. É quase impossível, quando se encontra uma ideia fértil, renunciar a ela. Nesse momento, a ideia em si é mais forte, porque é misteriosa e extraordinária”, diz Almodóvar, por videochamada. Atrás dele, uma estante de livros em madeira guarda uma estatueta dourada do Oscar e um Leão de Ouro do Festival de Veneza, alguns dos prêmios mais prestigiados do cinema.
Seu novo filme parece analisar o quanto a criação pode impactar a vida real, e vice-versa. É um tema em alta nestes tempos, com a popularização da autoficção na literatura por autores como Annie Ernaux e Édouard Louis, que contam partes de suas biografias por meio de histórias ficcionais.
A mãe de Emmanuel Carrère, outro francês renomado no campo da autoficção, passou dois anos sem falar com o filho depois de ele publicar “Um Romance Russo”, livro no qual ele próprio era protagonista e decupava as raízes da própria família no país gélido.
“É um debate moral, o uso que se pode fazer da vida dos outros. Vai de acordo com a sensibilidade moral de cada pessoa”, diz Almodóvar. Para si próprio, ele adotou como limite o risco de machucar outra pessoa, mas afirma que nunca ultrapassou esse sinal vermelho. Quando se inspira em algo que o rodeia, dedica-se a mesclar o fato com outros elementos para que ninguém consiga identificá-lo.
“Natal Amargo” explora como a arte pode servir para expurgar dores profundas, mas também seu potencial de ferir. Almodóvar diz que também queria meditar sobre o sofrimento. “A dor é uma experiência necessária, porque a nossa natureza nos condena a isso, de um modo ou de outro. É preciso saber vivê-la”, afirma. Nesse sentido, a arte pode ser um dos jeitos de torná-la mais leve.
Em entrevistas sobre seu longa anterior, “No Quarto ao Lado“, o primeiro gravado totalmente em inglês, Almodóvar disse que a vida precisa da ficção para se tornar suportável e que ele não se imaginava contando histórias sobre pessoas absolutamente felizes. Agora, com “Natal Amargo”, afirma não ter certeza se encontrou um caminho para tornar o sofrimento mais vivível.
Ele próprio vem temperando suas narrativas com experiências pessoais, que deram um sabor intenso a filmes como “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”, “Tudo Sobre Minha Mãe” e “Volver”. Depois da morte da mãe do diretor, em 1999, a maternidade se tornou um assunto recorrente em suas produções.
O mais autobiográfico de seus filmes foi “Dor e Glória”, de 2019, estrelado por Antonio Banderas, que vive um diretor em decadência e relembra sua vida desde a infância, passando pela relação com a mãe e as primeiras paixões por outros homens.
“Desde menino entendi que meu lugar era atrás de uma câmera. Não nasci na família ou no lugar adequado para fazer filmes, mas aquela foi a paixão mais forte que senti na minha vida”, disse Almodóvar para jornalistas em entrevista coletiva em Cannes. A chama continua acesa quase 50 anos depois de seu primeiro filme, afirma, e o sentimento ficou até mais dramático.
Além da estética exuberante de seus filmes, que virou marca registrada de seu olhar, o espanhol também foi vanguardista ao preencher suas produções com protagonistas mulheres e queer. Em Cannes, apadrinhou seus compatriotas Javier Ambrossi e Javier Calvo, coroados melhores diretores no festival por “La Bola Negra“, mesmo prêmio vencido por Almodóvar em 1999 por “Tudo Sobre Minha Mãe”.
“La Bola Negra” é um drama gay ambientado na Guerra Civil Espanhola que reflete sobre como narrativas LGBTQIA+ foram soterradas pela história e sobre a resistência da arte em regimes autoritários. Almodóvar foi um dos produtores do longa por meio de sua empresa, a El Deseo. O filme tem ainda Penélope Cruz, uma das musas do cineasta veterano, como uma performer de cabaré.
Em tempos de expansão do uso da inteligência artificial na indústria cinematográfica, “Natal Amargo” parece um manifesto de que a criação depende de sentimentos. “A autenticidade é um rastro absolutamente humano. A tecnologia pode criar só sobre algo que já foi feito”, diz.
“Além disso, o processo criativo também é feito de casualidade. Depende do que você vê, das pessoas com quem fala. A tecnologia não tem o contato emocional que um humano tem com tudo isso.” Um roteiro seu às vezes leva anos para se solidificar, conta, tempo que a tecnologia não se dá. O espanhol também se incomoda com o bombardeamento de imagens na era digital e diz preferir não ter redes sociais.
Em Cannes, debater o poder da criação também ganhou contornos políticos. Questionado sobre a importância da arte diante da censura de governos conservadores e de um mundo mais intolerante à polarização de ideias, Almodóvar afirmou que um artista precisa falar da sociedade em que vive.
“Me parece um dever moral. Não julgo quem não faz isso, mas o silêncio e o medo são sintomas bárbaros de esvaziamento da democracia. O criador deve falar do pior que está acontecendo, e estão acontecendo muitas coisas terríveis todos os dias”, disse, usando um broche com a inscrição “Palestina livre”, em conversa com jornalistas na Croisette depois da exibição de “Natal Amargo”.
A Guerra Israel-Hamas, as retaliações a artistas que declaram apoio à Palestina e a polarização de ideias foram os temas mais quentes do festival. Almodóvar chamou ainda Donald Trump, Binyamin Netanyahu e Vladimir Putin de monstros.
Seu próximo filme, porém, deve ser mais leve, de humor ácido. Além disso, o diretor diz que adoraria gravar um filme no Brasil. “Eu adoro a exuberância do Brasil”, afirma. “O trabalho de dirigir, eu o vivo apaixonadamente. Não sei até quando essa paixão vai durar”, completa. Mas, ao que tudo indica, esta é uma chama inesgotável.











