Da Bienal de Veneza ao festival Eurovision, passando por Hollywood e grandes shows, a cultura se intensificou, nos últimos anos, como o palco de uma série de cancelamentos detonados pela guerra Israel-Hamas e pelos conflitos no Irã e no Líbano.
De um lado, artistas têm sofrido ameaças e retaliações por se posicionarem contra o governo israelense, pressionados por grupos políticos que julgam como antissemita a crítica ao Estado judeu. De outro, a presença de Israel em importantes eventos despertou uma onda de aversão e boicotes a nomes ligados ao país.
Um dos episódios mais recentes envolveu a renúncia do júri da Bienal de Veneza após o colegiado anunciar que não premiaria artistas de países com líderes acusados de crimes contra a humanidade, uma indireta à Rússia e a Israel. Em repúdio à participação dos países, cerca de 20 nações fecharam seus pavilhões.
Críticos ao cancelamento de Israel viram uma discriminação, já que muitos artistas saíram em defesa de Khaled Sabsabi, representante da Austrália, acusado de supostamente exaltar o Hezbollah num trabalho antigo.
Já o escultor israelense Belu-Simion Fainaru, representante do país, celebrou a renúncia do júri. “Sou um artista e tenho os mesmos direitos, e não posso ser julgado por pertencer a um país ou raça”, disse ao jornal The New York Times. Foi um comportamento diferente do de sua conterrânea Ruth Patir, que, há dois anos, condicionou a abertura do pavilhão nacional a um cessar-fogo em Gaza.
Na última semana, foi a vez de Espanha, Islândia, Irlanda, Países Baixos e Eslovênia se retirarem da 70ª edição do Eurovision, em protesto contra a participação de Israel. Sobre a decisão, o premiê espanhol Pedro Sánchez disse ter convicção de que seu país está “do lado certo da história”.
Para Carlos Reiss, diretor do Museu do Holocausto de Curitiba, a estratégia é injusta. “O boicote é uma forma de responsabilização coletiva, o que reforça o apagamento de diferenças internas e normaliza preconceitos”, afirma.
Esse estado de alerta fermenta há pelo menos quatro anos. Em 2022, um episódio emblemático foi a remoção de um painel do coletivo Taring Padi, acusado de antissemitismo na Documenta de Kassel por representações estereotipadas. O caso levou à criação de códigos de conduta que agora são usados para monitorar e, em alguns casos, restringir trabalhos críticos a Israel no meio.
Naquele ano, o artista judeu David Reeb teve uma pintura sua removida de uma exposição coletiva em Israel, sob acusação de antissemitismo. Segundo a curadora brasileira Daniela Labra, hoje em Berlim, os casos pioraram com o início da guerra em Gaza, em outubro de 2023. “Jamais que você posta alguma coisa de apoio à causa Palestina, porque corre o risco de perder os fundos [privados]”, ela afirma.
No mês seguinte ao início do conflito, a artista judia sul-africana Candice Breitz teve uma exposição cancelada na Alemanha. Já no fronte hollywoodiano, a mexicana Melissa Barrera foi demitida do elenco de “Pânico 7” após publicar mensagens pró-Palestina.
Em março de 2024, o debate foi amplificado no Oscar, quando o cineasta Jonathan Glazer foi premiado por “Zona de Interesse”, sobre o cotidiano de uma família nazista que vive vizinha a um campo de extermínio.
“Estamos aqui como pessoas que refutam que o seu judaísmo e o Holocausto sejam sequestrados por uma ocupação que levou muitas pessoas inocentes ao conflito, sejam os israelenses vítimas do 7 de outubro ou [os palestinos] do ataque em Gaza”, afirmou —e foi execrado por grupos pró-Israel.
O caso ecoou a cerimônia de 1978, quando Vanessa Redgrave foi repreendida por produzir o documentário “The Palestinian”. Na época, a organização radical Liga de Defesa Judaica impediu sessões do filme em cinemas e pressionou para que Redgrave fosse demitida pela Fox.
Ao agradecer o Oscar por “Julia”, a atriz criticou “grupos de sionistas raivosos”. Na hora, ela foi repreendida pelo roteirista Paddy Chayefsky, ovacionado pela plateia; nos anos seguintes, sofreu rejeição de produtores.
O episódio é lembrado em “Hollywood and Israel”, livro no qual o acadêmico britânico Tony Shaw e o israelense Giora Goodman analisam como Hollywood ajudou a criar uma imagem positiva de Israel. O movimento aconteceu nas telas e também nos bastidores, com pressões políticas e relações diplomáticas informais.
“A influência de executivos pró-Israel e diplomatas israelenses, por vezes trabalhando em harmonia, tem um papel importante na criação de filmes e programas de TV em Hollywood sobre Israel, sionismo e árabes ao longo das décadas”, afirma Tony Shaw. O assunto é delicado, lembra o especialista, e é preciso ter cuidado para não cair no discurso antissemita e em teorias conspiratórias.
“Países e comunidades árabes também querem influenciar a mídia e Hollywood, mas não têm a mesma associação histórica”, diz Shaw, lembrando que a fundação da maioria dos grandes estúdios se deveu a imigrantes judeus, nas décadas de 1910 e 1920.
“Grupos pró-Israel são parte de uma história maior. Devemos explorar abertamente as associações dos judeus americanos com Israel, sem afirmar que todos os judeus apoiam Israel”, diz o autor.
No ano passado, rappers do grupo irlandês Kneecap tiveram seus vistos americanos revogados após criticarem a crise na Palestina no palco do Coachella. Meses depois, foi a vez do festival de música Sónar, em Barcelona, sofrer boicotes por ter envolvimento com a empresa de investimentos KKR, que financia companhias israelenses de segurança digital e fábricas de armamentos.
Ações como essas são coordenadas pelo movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções, o BDS, que visa pressionar a desocupação de territórios palestinos. A campanha afirma não discriminar indivíduos, a menos que sejam representantes oficiais do Estado, mas o cenário gera situações nebulosas. Mesmo cineastas críticos ao governo podem ser barrados em festivais se utilizarem verba do país em suas produções.
“Nunca conseguiria financiar o meu filme com dinheiro israelense hoje”, afirma Netalie Braun, diretora de “Shooting”, sobre os bastidores das propagandas de guerra do Exército israelense. O documentário teve sessões atacadas por grupos de direita na Universidade de Tel Aviv.
Outro caso envolveu o cineasta israelense Nadav Lapid. Criticado pelo ministro da Cultura de Israel por seu filme mais recente “Yes”, de 2025, ele não deve mais conseguir financiamento do país. “Nos meus filmes, eu sacudo a consciência dos israelenses, até que não consigam mais desviar o olhar”, diz o diretor. “Tenho sorte de fazer filmes com o dinheiro europeu. O problema é o medo das instituições de lá.”
Em fevereiro deste ano, a diretora do Festival de Berlim, Tricia Tuttle, quase foi demitida pelo ministro da Cultura alemão por suposto antissemitismo —isso porque apareceu, numa foto, com a equipe de um filme palestino, ainda que ela tenha defendido uma posição de neutralidade no evento.
Já no início de maio, o premiê do Reino Unido, Keir Starmer, acusou o Conselho de Artes britânico de financiar artistas que supostamente promovem o ódio contra judeus.
Uma pesquisa do ano passado da PEN America indicou que doadores e membros de conselhos pressionam diretores de museus americanos a evitarem conteúdos relacionados à Palestina. A aquisição de uma obra de Nan Goldin pela Galeria de Arte de Ontário, no Canadá, foi barrada, em janeiro, pelo conselho devido ao ativismo da fotógrafa.
Especialistas têm alertado para a instrumentalização do antissemitismo. “O problema é que críticas radicais a Israel não podem ser feitas sob risco de serem tratadas como antissemitismo”, diz Michel Gherman, coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Fernando Lottenberg, advogado e conselheiro da Organização dos Estados Americanos, vê exceções. “Quando se transforma em algo que nega o direito de Israel de existir como um Estado, que nega o direito dos judeus de se autodeterminarem como um povo, que exige que Israel se comporte como um padrão que não é exigido de nenhum outro país”, diz.
Gherman, porém, alerta que o processo de criação de Israel tem suas próprias especificidades, e, por isso, diz ser natural que sejam feitas exigências diferentes.
A discussão reverbera em Brasília. Neste ano, a deputada federal Tabata Amaral, do PSB, propôs um projeto de lei que pretende criminalizar discursos contrários à existência do Estado de Israel ou que o comparam com regimes de apartheid.
Nos Estados Unidos, esse mecanismo já existe, devido a um decreto de Donald Trump que incluiu o antissemitismo nas proteções dos direitos civis, proibindo a discriminação com base em raça, cor ou origem nacional em programas que recebam recursos federais.
A lei usa a definição de antissemitismo elaborada pela Aliança Internacional para a Memória do Holocausto, a IHRA. O grupo condena manifestações que tratam Israel como um empreendimento racista ou que comparam as políticas israelenses às de regimes fascistas.
“É uma pena que a discussão sobre a IHRA esteja desvirtuada. A definição não quer classificar ou criminalizar ações e manifestações pontuais como antissemitas, ou seja, tornar-se vinculante juridicamente. Para isso, existe um arcabouço legal”, afirma Carlos Reiss, do Museu do Holocausto de Curitiba.
Organizações que monitoram a liberdade de imprensa também mostraram preocupação, em abril, com a compra da Warner pela Paramount, que tornaria David Ellison um dos maiores empresários de mídia no país —seu pai, Larry, é próximo de Binyamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel.
Em meio a esse debate, chamou a atenção o silêncio sobre temas políticos no palco do Oscar deste ano, conforme a premiação ocorria em meio ao estouro da guerra de Israel e Estados Unidos contra o Irã.
“Cineastas ‘sérios’ sabem quando ficar em silêncio. Essa prudência aumenta conforme o cinema se torna um campo mais vulnerável”, diz Nadav Lapid. “Não entendo quando decidiram odiar a ideia de debater. E que exista apenas uma versão e que essas pessoas são anjos e os outros, demônios. Artisticamente, é um desastre.”
Polêmicas nos últimos anos
2023
- Roger Waters, ex-Pink Floyd, tem shows cancelados na Alemanha após críticas a Israel no palco
- Melissa Barrera é demitida do elenco de ‘Pânico 7’ por apoiar a Palestina
- Museu alemão cancela mostra da artista judia sul-africana Candice Breitz por ‘declarações controversas’ sobre Gaza
2024
2025
- Rappers do Kneecap têm vistos americanos revogados após criticarem Israel no festival Coachella
- Banda Sophia Chablau e uma Enorme Perda de Tempo tem show interrompido após mostrar a bandeira palestina no palco
- Shows do israelense Dudu Tassa com Jonny Greenwood são cancelados por pressão de grupos pró-Palestina após anúncio de passagem por Tel Aviv
2026
- Javier Bardem, Susan Saradon e a atriz judia Hannah Einbinder dizem ter dificuldades em Hollywood após se manifestarem pela Palestina
- Diretora do Festival de Berlim quase é demitida por suposto antissemitismo
- Mubi perde assinantes por envolvimento com fundo associado a investimentos em empresas de Israel
- Na Bienal de Veneza, o júri renuncia em protesto contra Rússia e Israel, e cerca de 20 países fecham os seus pavilhões
- Países como Espanha e Irlanda deixam o festival Eurovision em boicote a Israel






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