Artista Iole de Freitas faz esculturas inspiradas no amanhecer em exposição

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Artista Iole de Freitas faz esculturas inspiradas no amanhecer em exposição


Na linha do horizonte, ao alcance dos olhos, formas coloridas serpenteiam sobre a parede branca. Com cores intensas que vão do vermelho ao ultravioleta, as estruturas se expandem em direção ao espaço e à própria parede. Em um lance de luz e sombra, as esculturas de Iole de Freitas incorporam a vibração da cor ao movimento do olhar.

Em cartaz na Galeria Raquel Arnaud, na zona oeste de São Paulo, a mostra “Noturno Sem Pé e Cabeça” reúne uma série inédita em aço inox pintado a outros trabalhos recentes da artista.

Aos 80 anos, Iole de Freitas diz ter encontrado no amanhecer o ponto de partida para os novos trabalhos. Há alguns anos, passou a acordar antes do nascer do sol e a observar diariamente a transformação gradual da luz. “Existe uma espera antes de a luz surgir”, afirma. “E junto dela vem uma espécie de agenda cromática, que vai do violeta ao magenta, ao laranja, ao vermelho.”

A observação insistente desse intervalo entre noite e dia levou ao surgimento das esculturas da série “Noturnos”, estruturas curvas e retorcidas que ocupam horizontalmente a principal parede da galeria. Iole as chama de “descabeladas”, por se assemelharem a mechas, enrolarem e se expandirem.

A artista afirma que o interesse pelo amanhecer também a levou a pensar mais diretamente sobre o tempo e a duração das coisas. “Aos 80 anos, as pessoas insistem em perguntar sobre a sua vida, sobre o seu percurso. Você não se livra dessa instância da temporalidade e, junto a ela, da finitude.”

Embora a cor apareça pontualmente em sua trajetória, normalmente associada à cor dos materiais, como o cobre, desta vez ela ocupa o centro da exposição. Os tons intensos aplicados sobre o aço inox aproximam as esculturas de uma experiência atmosférica e luminosa, derivando da vontade de Iole de transformar essa percepção em linguagem plástica.

A decisão de instalar os trabalhos na parede, na altura dos olhos, e não no chão, também surgiu dessa observação do horizonte. “Quando você quer olhar longe, quer olhar o amanhecer, você não olha para o chão. Você olha para a linha do horizonte”, diz.

Além das esculturas coloridas, a exposição reúne grandes “Mantos” feitos com papel glassine, areia e cola, alguns suspensos na parede, outros espalhados pelo chão da galeria. Os volumes dobrados evocam tecidos, peles ou corpos encobertos, caem em despencamentos e retomam uma dimensão barroca presente em diferentes momentos da produção da artista.

As peças, inauguradas no ano passado em uma mostra no Paço Imperial, chegam agora a São Paulo e passam a integrar o conjunto apresentado na Galeria Raquel Arnaud.

Ao falar do barroco —que já foi referência para outros de seus trabalhos, como os “Barrocões” dos anos 1990, feitos de telas, fios de latão, cobre, ferro, aço e outros metais, com dobras e cortes em grandes proporções—, Iole rejeita a ideia de excesso frequentemente associada ao termo. “Excesso em relação a quê?”, pergunta. “Aquilo é a tradução, dentro de uma linguagem visual e plástica, de uma pulsão, de um abastecimento constante de uma fala no ar e no espaço.”

A mostra também marca um momento de renovação da produção da artista. “Não faz sentido fazer uma exposição sem trazer algo novo para o trabalho”, diz, reforçando o paralelo entre arte e invenção.

Ao comentar o cenário artístico brasileiro, Iole assinala certo ressentimento de algumas alas no circuito e defende a ampliação do espaço institucional para produções indígenas, negras e periféricas. “Estamos devendo. É para abrir espaço, sim”, afirma. Para ela, embora “não possa nivelar”, já que a arte envolve “um processo de individuação”, é preciso reconhecer a urgência histórica dessa abertura.

Iole também pontua que essa produção é a que mais tem lhe interessado —daí a escolha por realizar parcerias com artistas indígenas de Escolas Vivas na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, onde conduz encontros de reflexão e experimentação plástica há mais de duas décadas. As Escolas Vivas, ligadas à organização não governamental Selvagem, apoiam projetos indígenas voltados à transmissão de saberes tradicionais por meio de práticas artísticas e pedagógicas.

Além da exposição na Galeria Raquel Arnaud, que fica em cartaz até 30 de maio, Iole de Freitas apresentará, também no fim do mês, um painel de 14 metros na ArPa. Em 2027, a artista terá ainda uma mostra panorâmica de sua trajetória na Casa Roberto Marinho, no Rio de Janeiro, com curadoria de Sônia Salzstein.



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