Ferramenta criada por pesquisadores brasileiros analisa padrões em prontuários e alerta profissionais de saúde sobre sinais de violência contra mulher
Raphael Guerra
Publicado em 15/05/2026 às 11:28
| Atualizado em 15/05/2026 às 11:43
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Nem sempre as marcas da violência estão expostas no corpo. Sinais como depressão, dores de cabeça e a procura frequente por unidades de saúde podem indicar que algo está errado, sobretudo com as mulheres. De forma pioneira, uma ferramenta de inteligência artificial capaz de identificar padrões e comportamentos associados a vítimas de violência doméstica começou a ser usada em unidades de saúde do Recife. O objetivo é claro: prevenir novos casos de agressão e evitar o feminicídio.
A tecnologia, chamada Clara IA, atua a partir da análise de dados clínicos e históricos registrados nos sistemas de saúde. Quando identifica sinais compatíveis com situações de violência, a ferramenta emite um alerta aos profissionais como médicos, enfermeiros e dentistas. A notificação aparece no prontuário eletrônico das Unidades Básicas de Saúde durante o atendimento da mulher, permitindo que a equipe realize intervenções e apresente a rede de proteção disponível.
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“Essa identificação não é para fins policiais. Os profissionais de saúde são alertados pela IA e realizam uma abordagem humana, de forma preventiva, para orientar as mulheres e informá-las de que existe uma rede capaz de protegê-las”, pontuou a secretária de Saúde do Recife, Luciana Albuquerque.
DESENVOLVIMENTO DA TECNOLOGIA CLARA IA
A tecnologia foi criada por pesquisadores da Vital Strategies, organização global de saúde pública sem fins lucrativos, e da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em parceria com a Prefeitura do Recife.
Durante o desenvolvimento da IA, foram analisados registros de atendimento de cerca de 16 mil mulheres vítimas de violência atendidas nas Unidades de Saúde da Família ao longo de 10 anos. A partir disso, houve o cruzamento de dados do Sistema de Informações de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, permitindo a identificação de sinais diretos de agressão e de padrões de adoecimento e comportamento frequentemente associados às vítimas de violência doméstica.
Segundo Tiago Torrent, coordenador do FrameNet Brasil, laboratório de linguística computacional da UFJF, dois modelos diferentes de inteligência artificial foram usados para criação da Clara IA. O primeiro realizou a análise dos prontuários.
“A gente diz que esse modelo é um rotulador semântico. Ele atribui uma série de etiquetas aos textos dos prontuários automaticamente para poder fazer com que o significado deles seja interpretável por um segundo modelo de IA. A partir disso, é feito um treinamento com casos de pacientes vítimas de violência notificados pelo Sinan. Esse segundo modelo de IA aprende quais são esses padrões, o que a paciente relata, quais condições de saúde aumentam em frequência e quais diminuem. Esse classificador de IA vai fazer a inferência do risco e vai gerar o alerta no prontuário do profissional de saúde”, explicou.
“A clarear analisa todos os dados do prontuário, e não só aqueles que chamamos de estruturados, ou seja, que são preenchidos nos campos fechados, como idade, sexo, doença ou sintoma do paciente. Essa é a grande inovação. Esse modelo semântico ‘desenterra’ uma montanha de textos abertos e que podem ser úteis na predição [antecipação] da violência.”

IA faz o alerta ao profissional de saúde assim que informações são preenchidas no prontuário – DIVULGAÇÃO
O trabalho de qualificação da base de dados, compreensão do fenômeno e conscientização de profissionais envolvidos durou cerca de quatro anos. Foi utilizado um trabalho de infraestrutura de dados profundo para integrar as bases de dados, permitindo acompanhar a trajetória da paciente desde o prontuário eletrônico até a hospitalização, respeitando a privacidade e o uso ético das informações.
“O modelo de IA que a gente usou é transparente, responsável, totalmente validado por humanos e que confia exclusivamente em tecnologia nacional. Nenhum dado das pacientes vai transitar por um modelo que é fornecido por uma bigtech ou por uma empresa estrangeira”, ressaltou Torrent.
FEMINICÍDIO: UM PADRÃO IDENTIFICADO NAS UNIDADES DE SAÚDE
Pedro de Paula, vice-presidente sênior de inovação da Vital Strategies, disse que os casos de feminicídio também foram utilizados como referência para aprendizagem da IA, por causa da certeza de que houve a violência contra a mulher.
“O dado do feminicídio é o ‘padrão ouro’ para entender o comportamento das vítimas no sistema e aprender o que elas manifestam, permitindo que a violência seja percebida em larga escala e precocemente. Usam-se os casos dessas vítimas para entender sua trajetória no sistema: frequência em Unidades Básicas de Saúde, tipos de doenças, reclamações ou sintomas que apareciam ou deixavam de aparecer”, explicou.
Pedro citou um ponto relevante identificado no estudo sobre a relação entre violência e doenças crônicas, como diabetes e hipertensão, que são as principais causas de morte precoce.
“Notou-se que, ao estar sujeita à violência, a mulher perde condições de se cuidar para essas doenças crônicas, pois está focada em resolver um problema mais urgente e grave. Isso faz com que ela seja ‘punida duas vezes’: sendo vítima de violência e deixando de ter o cuidado adequado com sua saúde. Esse achado mostra a importância de tratar a violência no espaço da saúde pública.”
O uso da tecnologia foi além: identificou um padrão consistente entre vítimas de feminicídio no Recife. Nos 90 dias que antecedem os assassinatos, as mulheres passam a procurar com maior frequência os serviços de saúde, geralmente com queixas relacionadas à saúde mental, mas nem sempre relatando estarem sofrendo algum tipo de violência doméstica.
O dado ganha ainda mais relevância porque mostra como a tecnologia pode ser fundamental para evitar tragédias. O feminicídio costuma ocorrer após uma escalada da violência contra a mulher, mas muitas vítimas nunca procuraram a polícia para denunciar os agressores. Esse foi o caso de 77% das 88 mulheres vítimas de feminicídio em Pernambuco em 2025, segundo estatísticas oficiais da Secretaria de Defesa Social. Sem denúncia e sem acesso à rede de proteção, romper o ciclo da violência se torna ainda mais difícil.
“No Brasil, o SUS possui uma capilaridade que o torna um espaço privilegiado para prevenir o agravamento da violência. Ao buscar a saúde, a mulher busca um olhar para si e o cuidado pessoal, muitas vezes sem querer as outras formas de intervenção do Estado, como a polícia, em sua vida privada. Isso mostra o potencial da saúde para melhorar a qualidade de vida da população feminina”, complementou Pedro de Paula.

A denúncia é o principal caminho para a quebra do ciclo de violência doméstica, ainda tão comum no País – Thiago Lucas/ Design SJCC
IA LANÇA ALERTAS IMEDIATOS
A Clara IA possui diferentes níveis de alerta para os profissionais de saúde. A partir do momento em que as informações das mulheres são inseridas nos prontuários eletrônicos, a ferramenta já começa a análise e envia uma mensagem em tempo real: “ATENÇÃO! Esta paciente possui um histórico de violência”.
A comunicação segue com outra orientação: “Permita que ela se sinta à vontade e pergunte discretamente sobre a situação domiciliar da paciente”.
“A transformação de comportamentos em sinais de alerta ocorre porque a alta prevalência da violência gera uma repetição de padrões. Por exemplo, quando uma mulher deixa de mencionar suas doenças crônicas e passa a relatar estresse em casa, problemas com o marido, alcoolismo ou dificuldades de relacionamento, ela está revelando uma mudança de preocupação que serve como sinal de alerta. Isso não é aleatório. É baseado em consistência estatística de casos confirmados de violência, seja por notificações oficiais ou por casos de feminicídio. Identifica-se quais falas e comportamentos foram recorrentes nessas vítimas e não nas demais mulheres, associando esses padrões a alertas para gerar cuidado”, disse Pedro.
Há níveis de alerta previstos na Clara IA, conforme explica a secretária de Saúde do Recife. “No nível laranja, a tecnologia indica que o relato da paciente possivelmente é de violência. Às vezes, ela chega à unidade básica de saúde e não quer falar da violência, mas relata sinais como ansiedade, depressão e dor de cabeça. Nesse nível, o profissional treinado faz uma abordagem acolhedora e pode falar da rede de proteção disponível”, disse Luciana Albuquerque.
O que chamou a atenção dos pesquisadores foi a prevalência dessa situação: mais de 20% das mulheres que interagiram com o sistema público de saúde do Recife em 2025 apresentavam sinais de que poderiam estar sendo vítimas de violência, o que condiz com médias nacionais e mundiais.
O nível de alerta aparece vermelho quando a mulher atendida cita casos de agressão e essa informação é inserida pelo profissional de saúde no prontuário. Nesse caso, há um encaminhamento à rede de proteção e a Secretaria da Mulher também é acionada.
“Mas é importante reforçar que a mulher precisa querer essa ajuda. Não há uma imposição”, pontuou a secretária municipal.

Secretária de Saúde do Recife, Luciana Albuquerque diz que uso da Clara IA será ampliado nas unidades para contribuir com a prevenção – YACY RIBEIRO/ACERVO JC IMAGEM
Na capital pernambucana, cerca de 270 profissionais de nível superior e agentes comunitários já foram treinados para o uso da IA e para a abordagem às vítimas. Atualmente, três unidades de saúde localizadas na área central utilizam a tecnologia desde abril. A expectativa da prefeitura é ampliar o serviço o quanto antes na tentativa de salvar vidas.
SAIBA MAIS – LEI MARIA DA PENHA

Tipos de violência previstos na Lei Maria da Penha – THIAGO LUCAS/ARTES SJCC

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