Opinião – Gustavo Alonso: Os Beatles lucram com o passado; o MIS-RJ, com a demora

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Opinião – Gustavo Alonso: Os Beatles lucram com o passado; o MIS-RJ, com a demora


A preservação da memória musical é uma batalha travada de diferentes formas. Dois eventos recentes colocam uma dicotomia em xeque: a oficialização do museu dos Beatles no número 3 da Savile Row, em Londres, e a interminável espera pela abertura da nova sede do Museu da Imagem e do Som (MIS-RJ), em Copacabana.

No último dia 11 foi anunciado que o prédio no qual os Beatles finalizaram as gravações do disco “Let it be” em 1969 se transformará num museu. O prédio da Apple Corps, empresa dos Beatles, voltou à baila depois da repercussão do maravilhoso documentário “Get Back” (2021), de Peter Jackson (pode ser assistido na plataforma Disney+), que mostra os bastidores dessas gravações em qualidade nunca antes vista. Batizado de “The Beatles at 3 Savile Row”, o equipamento ocupará os sete andares do edifício que por muito tempo foi uma loja de departamentos.

A transformação do prédio do número 3 da Savile Row em museu é mais um passo em direção à lucratividade em torno da marca Beatles. Os museus de Liverpool (que em grande parte são iniciativas privadas, órgãos de caridade ou de licenciamento) não são propriedade dos Beatles. Os estúdios Abbey Road tampouco pertencem aos Fab Four. É um estúdio privado, hoje em dia de propriedade da Universal Music. O que resta aos fãs é tirar fotos na famosa faixa de pedestres em frente ao estúdio, o que não gera lucro algum aos já milionários ex-Beatles. Este novo museu na Savile Row será gerido diretamente pela Apple Corps, garantindo que a memória oficial da banda seja divulgada e mais algum cascalho pingue na conta de Paul e Ringo e familiares.

Prometido para 2027, o museu da Apple Corps exibirá arquivos nunca antes vistos pelo público, especialmente indumentárias, documentos e instrumentos musicais hoje trancados em armários de Paul e Ringo e familiares. O estúdio de gravação no porão será recriado e o rooftop, onde aconteceu o último show da banda em 30 de janeiro de 1969, finalmente poderá ser visitado.

Enquanto isso no Brasil, semana passada foi inaugurado o aguardado Museu da Imagem e do Som em Copacabana, no Rio de Janeiro. Depois de 17 anos de espera! Desde 2009, quando foi demolida a boate Help, que ficava no local, os amantes da cultura e da música nacionais tiveram de aguardar mais de uma década e meia.

O museu é fruto da parceria do Governo do Rio de Janeiro com a Fundação Roberto Marinho. Foi noticiado o custo total de R$ 345 milhões, sendo 53% de investimento do Estado, 10% do Programa Nacional de Desenvolvimento do Turismo e 37% da iniciativa privada via leis de incentivo fiscal. Ou seja, quem acabou pagando a conta, com a isenção fiscal, fomos eu e você.

Em 2009 esta Folha havia anunciado que o custo da obra seria de R$ 45 milhões. Descontada a inflação desde então, o equipamento cultural custou quase o dobro do planejado. A promessa é que os acervos de áudio da Rádio Nacional, da bossa nova e do samba sejam mostrados em experiência interativa ao público.

A espera valeu a pena? Por enquanto não dá para saber, pois o museu abriu não estando totalmente acabado. Há diversos setores ainda em construção que serão inaugurados até o fim do ano. Acreditemos em mais esse prazo.

A abertura parcial do MIS-RJ aconteceu, pasmem, sem uma exposição musical, como era seu propósito. Em vez disso, os construtores resolveram homenagear eles mesmos, como se a espera de 17 anos merecesse ser celebrada.

Segundo o próprio museu, a exposição “Arquitetura em Cena: o MIS Copa Antes da Imagem e do Som” busca “compartilhar com o público os extensos processos, as escolhas de projeto e os desafios técnicos que levaram uma visão institucional a se materializar em um edifício de arquitetura singular”. Em vez de música, prédio. Em vez de cultura, exaltação dos agentes públicos e privados que de ágeis não tiveram nada.

Uma pergunta ainda ecoa: por que o concurso de projetos para um museu da música brasileira teve como ganhadores um escritório de arquitetura nova-iorquino, o Diller Scofidio + Renfro? Era legítimo valorizar a arquitetura brasileira. Se pelo menos o projeto americano andasse mais rápido, vá lá! Mas a obra demorou tanto que até um dos arquitetos do projeto, Ricardo Scofidio, faleceu antes da inauguração.

Enquanto os Beatles focam um prédio histórico, o Brasil continua na sua sanha modernizadora de criar do zero um museu que nenhuma ligação direta tem com o acervo. Carmen Miranda e os artistas da bossa nova não cantaram na boate Help. O samba não nasceu em Copacabana.

Durante 17 anos o Museu da Imagem e do Som foi um elefante branco em construção em plena Copacabana. A atual inauguração serve, paradoxalmente, para anunciar a futura inauguração. O Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro continua sendo uma grande promessa.


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