Ninguém esperava um episódio extra de “O Urso”, e que pancada ele é. A semanas da estreia da quinta e última temporada da série, “Gary”, um média-metragem estrelado somente por Richie (Ebon Moss-Bachrach) e Mikey (Jon Bernthal) que funciona como prefácio da história principal, entrou no ar terça-feira (5) na Disney+ sem divulgação prévia.
“Gary” oferece um prólogo dolorido para quem viu ao menos a primeira temporada da série sobre o chef de cozinha Carmy Berzatto (Jeremy Allen White), mas pode funcionar como obra independente. Quem se cansou da angústia existencialista do cozinheiro ao longo de quatro temporadas tem chance de se interessar, pois o protagonista nem sequer é mencionado. E quem sentiu falta da alta voltagem dramática familiar que marcou a série também.
A princípio, “Gary” parece um road movie. Os melhores amigos Richie (o desnorteado primo por afinidade que se torna um maître exemplar) e Mikey (o irmão mais velho cuja morte levará Carmy de volta à lanchonete da família em Chicago) dirigem até a cidade de Gary, no estado vizinho de Indiana, para entregar algo em nome do suspeitíssimo tio Jimmy (Oliver Platt).
Conforme a estrada fica para trás e os dois matam o tempo até o compromisso desafiando desconhecidos no basquete, bebendo,usando cocaína ou apreciando a paisagem industrial da cidade onde nasceu Michael Jackson, fica claro que estamos diante de uma obra que flui em cima da química entre os protagonistas e seus improvisos, ao estilo da cinetrilogia “Antes do Amanhecer”.
No fim, resta a sensação de que mergulhamos em um estudo sensível sobre a amizade entre dois homens adultos, os desvios de rota e as dúvidas excruciantes da idade adulta que hesita em se firmar, na linha da recente e brilhante “DTF St. Louis”. Sinal dos tempos que esses meandros da masculinidade sejam tema recorrente, e é um alento vê-los tratados com delicadeza e atenção.
O texto foi escrito pelos dois atores, que estão em estado de graça em cena e têm histórico prolífico de parcerias. Na dramaturgia, é um episódio próximo ao memorável “Peixes”, aquele do Natal na famíla Berzatto, ou a “Guardanapos”, o flashback sobre a contratação da cozinheira Tina (Liza Colón-Zayas), com o bônus da relação de longa data na vida real, que rende diálogos fluidos e uma intimidade concreta.
Não é um detalhe que os melhores episódios de “O Urso” tenham outro ritmo e revolvam em torno de outros personagens que não o protagonista.
Um ponto alto da série são os coadjuvantes repletos de história e intenções. Carmy, o menino prodígio que não consegue lidar com a felicidade, é um grande personagem, mas, fosse um ser humano real, seria insuportável. Já o extrovertido Richie e o introvertido Mikey, em seus altos e baixos constantes, seriam gente que se tem como amigo —isso vale para Tina, Sidney (Ayo Edebiri), Marcus (Lionel Boyce).
Ver a depressão de Mikey em ação (há uma cena de flerte de cortar o coração com a Marin Ireland, ótima) e ver o pendor para a autossabotagem de Richie traz várias camadas novas ao enredo original.
Talvez, no fundo, “O Urso” seja uma história de gente que não tem como ser feliz e ainda assim o é em pequenos momentos, em memórias compartilhadas, em encontros fortuitos. E só isso.
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