Uma comissão de seleção escolheu o Instituto Baccarelli como vencedor preliminar do chamamento público para gerir o Complexo Theatro Municipal pelos próximos cinco anos. O resultado foi divulgado em parecer técnico, nesta sexta-feira (8). A previsão é que o resultado final saia em duas semanas.
Na avaliação da comissão, o Baccarelli obteve 75,5 pontos, contra 57,5 da Sustenidos Organização Social de Cultura, atual responsável pela gestão do complexo. O processo analisou critérios técnicos, artísticos, administrativos e financeiros das propostas apresentadas pelas duas organizações sociais.
O complexo reúne o Theatro Municipal, a Praça das Artes e os corpos artísticos municipais, incluindo a Orquestra Sinfônica Municipal, o Balé da Cidade e os corais ligados à Fundação Theatro Municipal.
A comissão é formada por Leonardo Camargo Oliveira dos Santos, diretor de formação da Fundação Theatro Municipal, Thiago de Almeida Tavares, da diretoria artística da fundação, e Rita de Cássia Ribeiro dos Reis, como membro suplente.
Segundo o parecer, o Instituto Baccarelli apresentou “desempenho técnico mais consistente”, especialmente nos eixos ligados à qualificação dos quadros técnicos e artísticos, coerência institucional e propostas de formação e ampliação de público.
A organização social oferece, há três décadas, aulas de formação musical para os seus estudantes, em Heliópolis, na zona sul da capital paulista, e abriu, no ano passado, o Teatro Baccarelli, a primeira sala de concerto dentro de uma favela no Brasil. Também é responsável por 12 Centros Educacionais Unificados, os CEUs, e dez escolas municipais de ensino fundamental, em gestão compartilhada com a secretaria de Educação da cidade.
A comissão também apontou fragilidades na candidatura da Sustenidos, incluindo ausência de documentos exigidos no edital, inconsistências na proposta artística e problemas relacionados ao orçamento.
Na análise do eixo técnico-artístico, os avaliadores destacaram que a proposta do Baccarelli apresentou coerência curatorial e diversidade estética, embora a instituição tenha sido criticada pela ausência de parte da programação sinfônica detalhada.
Já a Sustenidos perdeu pontos importantes após a comissão identificar conflitos de agenda entre produções previstas, subutilização da Orquestra Sinfônica Municipal em determinados concertos e mudanças consideradas incoerentes em sua estrutura curatorial.
Procurado, o Instituto Baccarelli diz, via assessoria de imprensa, que se inscreveu no edital “movido pelo desejo de somar esforços para a cultura da nossa cidade”, e reforça que o resultado é preliminar. “Aguardaremos o resultado definitivo para qualquer manifestação.”
Já a Sustenidos afirma estar analisando os próximos passos —pode haver recurso contra a decisão, caso a OS não seja mesmo a escolhida.
As organizações sociais não responderam, até a publicação deste texto, se a programação já definida para o restante do ano será mantida na íntegra.
A Sustenidos e a Prefeitura de São Paulo vivem uma crise que chegou a seu ponto mais crítico no ano passado. O atual contrato com a gestora da fundação vai até o final deste mês, mas a gestão Nunes já tentava romper o acordo com a Sustenidos desde setembro do ano passado.
Nunes tomou a decisão porque a organização social não demitiu um funcionário que compartilhou postagem no Instagram dizendo que o influenciador trumpista Charles Kirk era nazista. O funcionário chegou a ser afastado temporariamente pela OS.
Para críticos, a direção artística da Sustenidos seria orientada por pautas ligadas à esquerda. Vereadores conservadores, aliados a Nunes, se posicionaram contra a administradora, por uma suposta doutrinação ideológica no teatro.
Nesse meio tempo, um músico da Orquestra Sinfônica Municipal foi afastado após ter criticado, na internet, a produção da ópera “Macbeth”, que esteve em cartaz no ano passado. Em suas redes sociais, ele chamou a montagem de “destruição da ópera e da música clássica no TMSP.”
Em 2023, o Tribunal de Contas do Município já havia aprovado por unanimidade uma recomendação de que a Fundação Theatro Municipal realizasse novo edital para a escolha de uma organização social de cultura para gerir o teatro, para a substituição da Sustenidos.
Em dezembro do ano passado, porém, o tribunal suspendeu o certame, após o texto sofrer uma série de críticas.
Entre os pontos levantados, estavam a falta de fundamentação técnica para o valor do contrato de R$ 663 milhões, critérios de julgamento “pouco objetivos e metodologicamente inconsistentes” e redução expressiva das metas artísticas sem justificativa técnica.
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