Em meio às dificuldades históricas, professores da rede pública usam jogos, música e poesia para transformar a aprendizagem nas escolas
Eduardo Scofi
Publicado em 08/05/2026 às 11:40
| Atualizado em 08/05/2026 às 17:37
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Durante décadas, a matemática foi ensinada como uma linguagem distante. Entre fórmulas e tabuadas decoradas, provas silenciosas e o medo de errar no quadro, muitos estudantes cresceram acreditando que os números pertenciam apenas aos “inteligentes”.
Segundo o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA 2022), 73% dos estudantes brasileiros apresentam desempenho insuficiente em matemática. Já o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb 2023) aponta que, no Ensino Médio, apenas 5,2% dos alunos atingem níveis considerados adequados.
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Mas em escolas públicas da Região Metropolitana do Recife, professores têm tentado inverter essa lógica: somando escuta, multiplicando vínculos e aproximando os estudantes dos números.
Celebrado na última quarta-feira (6), o Dia Nacional da Matemática homenageia Malba Tahan, professor e escritor que revolucionou o ensino da disciplina ao transformar cálculos em histórias, enigmas e aventuras. Autor de “O Homem que Calculava”, ele defendia que “o professor é um artista que trabalha com a matéria-prima mais nobre do mundo, o ser humano”.
Somar encontros para transformar o aprendizado
No EREM Padre Nércio Rodrigues, na comunidade da Linha do Tiro, Zona Norte do Recife, a arte já é presente no meio dos cálculos. A Semana da Matemática foi construída justamente para diminuir a distância histórica entre os estudantes e a disciplina.
Durante os corredores movimentados da escola, peças gigantes de xadrez deslizaram sobre tabuleiros, fórmulas matemáticas viraram paródias e desafios matemáticos passaram a dividir espaço com poemas, jogos e competições.
Para o professor Margel Nascimento, muitas vezes a primeira barreira a ser vencida não está nos números, mas na relação emocional construída com eles. “O medo de aprender matemática distancia”, resume.
Por isso, as atividades propostas ao longo da semana foram pensadas para quebrar a ideia de inacessibilidade. Aos poucos, a disciplina deixa de ser apenas um espaço de retração e passa a se tornar encontro.
“Eles começam na brincadeira, no lúdico, no visual, no tátil, trazendo essa energia e percebendo que essa matemática é acessível”, afirma o professor.

Troféus premiaram estudantes nas atividades da Semana da Matemática – Cortesia
A percepção também é compartilhada pelos estudantes, já que, para uma aluna do segundo ano do Ensino Médio que participou das atividades, a experiência ajudou a transformar a forma como a turma enxerga a disciplina.
“Foi de muito aprendizado, tanto pra mim quanto pro pessoal da minha turma e da escola também. Matemática não é chata, é só você querer aprender e aprender gostando. Acabou ficando um clima bem legal que a maioria gostou”, relata.
Dividir experiências é multiplicar a solidariedade
Durante a Semana da Matemática, a escola também promoveu arrecadações de alimentos e óleo de cozinha em parceria com uma empresa privada, mobilizando estudantes em ações coletivas dentro da comunidade escolar. A disciplina, nesse contexto, deixou de medir apenas desempenho e passou também a construir pertencimento.

Coleta de óleo de cozinha integrou ações sociais e sustentáveis da escola – Cortesia
Para o professor Hélio Pastor, que atua há cerca de cinco anos na instituição, as atividades ajudam a despertar um olhar mais amplo dos estudantes sobre a escola e sobre a própria comunidade. “O aluno sente-se motivado quando pode contribuir com a escola”, afirma.
Segundo ele, a ludicidade cria novas conexões entre os estudantes e o aprendizado. Poemas, paródias, dinâmicas corporais e atividades coletivas funcionam como ferramentas capazes de despertar outro olhar sobre os números.

Arrecadação de alimentos mobilizou estudantes durante a Semana da Matemática – Cortesia
Ao dividir experiências, multiplica estratégias em grupo e participar de ações solidárias, os estudantes também aprendem que a matemática não está separada da vida cotidiana.
”Isso tem mobilizado bastante os alunos, têm despertado o olhar social deles. Tem contemplado o aluno, o estudante e as comunidades em si, é muito proveitoso”, destaca.
Potencializar futuros pela educação
Mais de um século depois de Malba Tahan transformar cálculos em literatura, professores seguem tentando provar que a matemática também pode ser linguagem de afeto, imaginação e transformação social.
Em um país marcado por desigualdades profundas, ensinar matemática significa, muitas vezes, tentar potencializar futuros que historicamente foram negados a muitos estudantes. E talvez seja justamente por isso que professores insistam tanto na ideia de aproximação: porque aprender sem medo também é uma forma de resistência.
Para Margel, cada aluno que passa a acreditar em si mesmo já representa uma mudança importante. “Quando ele aprende brincando, quando ele aprende na amizade, isso, com certeza, em algum momento vai gerar um fruto maravilhoso para o nosso país”, finaliza.
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