A quadrinista Tessa Hulls acredita ter passado grande parte de seus nove anos trabalhando em “Meus Fantasmas: Uma Autobiografia em Quadrinhos” mentindo para si mesma sobre seus objetivos com a obra. Ela insistia que estava fazendo um livro de história, narrando uma trama centrada na ascensão do Partido Comunista na China de 1949, a perseguição política sofrida por sua avó jornalista e a mudança da mãe dela para os Estados Unidos nos anos 1970. Mas lá em seu subconsciente estava claro, desde o começo, que sua HQ sempre foi sobre traumas e sentimentos.
“Eu sabia, desde o início, que meu objetivo era curar a minha relação com a minha mãe; e, sendo honesta, provavelmente eu sempre soube que, para isso, eu teria que entrar no território emocional do qual passei a vida inteira fugindo”, lembra a artista americana de 41 anos em entrevista à Folha. “Os seres humanos são muito complexos, em camadas, e escondemos coisas de nós mesmos até estarmos prontos para encará-las.”
“Meus Fantasmas” ganhou edição brasileira dois anos após seu lançamento nos Estados Unidos. Em 2025, a obra venceu o Prêmio Pulitzer na categoria Memória ou Autobiografia –a primeira HQ a ser reconhecida em uma categoria competitiva nos 108 anos da premiação. A clássica “Maus”, de Art Spiegelman, recebeu em 1992 uma “citação especial”, categoria honorária do prêmio.
Entre outros troféus, “Meus Fantasmas” também ganhou um Prêmio Eisner, o mais tradicional da indústria de HQs dos Estados Unidos, na categoria de melhor autobiografia em quadrinhos.
As 400 páginas em preto e branco do livro de Hulls narram os traumas intergeracionais e os conflitos protagonizados por ela, sua avó e sua mãe. Sun Yi, a avó, foi jornalista em Xangai nos anos 1940, criou a filha sozinha quando o namorado diplomata retornou para a Suíça e foi perseguida pelo governo comunista. Ela fugiu com a criança de sete anos para Hong Kong, publicou um livro de sucesso sobre a repressão sofrida por ela, colocou a filha em um internato de elite e sofreu um colapso mental do qual nunca se recuperou.
Sun Yi foi levada para os EUA pela filha, Rose, em 1970. Tessa Hulls nasceu na Califórnia em 1984, assombrada pela presença constante da avó com quem nunca conseguiu conversar e por seus conflitos culturais com a mãe, ainda apegada às suas origens chinesas.
Hulls retrata no livro como seus embates com a mãe a fizeram se afastar da família. Ela cruzou os Estados Unidos de bicicleta, viajou pelo mundo, morou na Antártida e em Gana e hoje passa temporadas entre o Alasca e Seattle. Com a morte da avó em 2012, resolveu investigar suas origens, se reaproximou da mãe e a levou para viagens à China e a Hong Kong.
A autora conta ter escrito o livro inteiro como um ensaio de não-ficção de 10 mil palavras, depois desenhou trechos aleatórios, descobrindo a linguagem de cada página como “peças de um quebra-cabeça”, tendo que encaixá-las no final.
“Os quadrinhos permitem contar várias histórias ao mesmo tempo e comprimir ou expandir o tempo de maneiras que não são possíveis em um livro apenas com palavras”, reflete a autora sobre a linguagem. “Escolhi os quadrinhos porque sabia que poderia incorporar alguns dos níveis metalinguísticos da história da minha família ao próprio meio, fazendo coisas como colocar palavras e imagens em contradição entre si, para levar o leitor a refletir sobre o que significa viver dentro de uma narrativa em que não se pode confiar no que está sendo contado.”
“Como o livro trata muito da repetição de traumas intergeracionais, há muitos momentos em que eu espelho sutilmente a composição dos painéis ou as minhas poses, as da minha mãe e as da minha avó, para mostrar como o passado se repete através das gerações. E, mesmo que isso não seja percebido de forma consciente, nós, humanos, somos tão inclinados a reconhecer padrões que acredito que isso se internaliza em um nível somático.”
Hulls também retrata no livro como suas investigações sobre o passado de sua avó e sua mãe a ajudaram a se compreender como americana. Ela se diz feliz por essa autodescoberta, mesmo que não veja um momento particularmente propício para sair ostentando por aí um orgulho de ser nascida nos EUA.
“Grande parte de como enxergo o momento atual nos Estados Unidos é influenciada pela década que passei estudando a China após a Revolução Comunista de 1949“, compara Hulls. “Os paralelos com as campanhas de Mao para negar a ciência, destruir a educação e expurgar das fileiras qualquer pessoa experiente, substituindo-as por leais ao partido. Bem, o passado tem uma tendência a se repetir, e a pesquisa que fiz para ‘Meus Fantasmas; talvez me deixe especialmente atenta a esse ciclo específico de repetição.”
“Há muita coisa que eu amo nos Estados Unidos, e me sinto profundamente moldada pela audácia que está no cerne da cultura do país. É algo extremamente estadunidense eu simplesmente ter decidido aprender sozinha a fazer quadrinhos e transformar meu primeiro livro em uma saga que levou uma década. Estamos com medo, e as pessoas fazem coisas idiotas quando estão com medo; e, no caso dos Estados Unidos, infelizmente temos uma enorme quantidade de poder internacional –o que significa que, quando temos acessos de birra, as reverberações geopolíticas são gigantescas.”

/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/05/magnific-banheiro-limpo-e-seco-com-2901119293.jpg?w=300&resize=300,300&ssl=1)



/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/05/magnific-rosto-com-pele-limpa-e-hi-2901056892.jpg?w=300&resize=300,300&ssl=1)





/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/05/magnific-corujapoderosa-empoleirad-2901059842.jpg?w=300&resize=300,300&ssl=1)

/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/05/magnific-banheiro-limpo-e-seco-com-2901119293.jpg?w=150&resize=150,150&ssl=1)



/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/05/magnific-rosto-com-pele-limpa-e-hi-2901056892.jpg?w=150&resize=150,150&ssl=1)