Análise: ‘O Diabo Veste Prada 2’ é honesto ao retratar bastidores da moda

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Análise: ‘O Diabo Veste Prada 2’ é honesto ao retratar bastidores da moda


Na deliciosa sequência de “O Diabo Veste Prada“, a moda é praticamente um personagem, não pano de fundo para a trama Citando uma entrevista de Meryl Streep, é como os dinossauros em “Jurassic Park“.

Tanto para quem se relaciona com a indústria de alguma maneira quanto para quem não faz parte dela, o filme é realmente um deleite. E mais, totalmente crível, verossímil e até verdadeiro nas situações que retrata.

Com o elenco finamente dirigido, tendo Streep comandando a festa, por mais absurdo que pareça, o enredo se conecta com a vida real. Se é que na moda essa distinção aconteça.

A moda é um ambiente em que as relações se estabelecem a partir da imagem, da aparência, de ilusões construídas e de simulacros. Para quem está de fora, muitas vezes os códigos são difíceis de serem lidos.

Um dos méritos do filme é torná-los compreensíveis para o público, que pode relaxar na cadeira do cinema e se deixar levar pelo tal glamour, torcer por seu personagem favorito e acompanhar a surra de looks pensados pela figurinista Molly Rogers.

Roupas que são desde já tão icônicas quanto o suéter em azul cerúleo do primeiro filme, que entrou para a história da moda. O grandioso vestido vermelho da Balenciaga com que Streep dá início a seu novo show só confirma o culto.

Estilistas como Marc Jacobs e Donatella Versace fazem pontas saborosíssimas, e a maneira como são inseridas figuras da indústria e marcas faz tudo parecer ainda mais real. Caso das menções e aparições da Dior, em que Emily Charlton, personagem de Emily Blunt, agora trabalha.

As cenas feitas nas ruas de Nova York pararam a cidade. E aquelas que se dão a partir da ida da equipe para os desfiles em Milão retratam o verdadeiro frisson de uma temporada de moda. Para a parte da capital italiana, os melhores créditos são os vestidos de Giorgio Armani, que morreu próximo das filmagens, em outro belo registro do zeitgeist emocional da moda.

Nessa parte do filme, nos comovemos com a pobre Miranda, que antes viajava de executiva e agora tem que enfrentar a classe econômica, que não dá direito a espumante antes da decolagem —nem depois.

Sinal dos tempos bicudos por que passam todos os profissionais do mercado, à exceção de “influencers” —entre muitas aspas— que postam seus arrobas em troca de “conteúdo” —mais aspas.

“Lembra quando as revistas eram importantes?”, pergunta o filme. A nova geração nativa digital talvez não saiba que esse tempo existiu, mas teme a inteligência artificial tanto quanto qualquer mortal, e isso está em “O Diabo Veste Prada 2”.

Em seu guarda-roupa, a nova Miranda defende seu posto enquanto conjuga o vocabulário do “power dressing”, tendo na silhueta fortalecida pelas ombreiras a base de seu visual temido e poderoso —os óculos escuros à semelhança de Anna Wintour, lendária editora da Vogue à época do primeiro filme, que serviu de inspiração para a personagem de Streep.

Sem querer decalcar a inspiração, Streep toma dela um gesto bem peculiar, mas sutil: o hábito de esfregar as mãos, enquanto quem está do lado congela de pavor.

E como a estrutura de conto de fadas do título de 2006 aqui é felizmente substituída por camadas mais elaboradas, a passagem do tempo —dentro e fora da tela— proporciona arcos narrativos —e visuais— mais ricos. A internet implodiu o que era antes exclusivo, junto com o conceito de “luxo”. Os mais ricos, entretanto, continuam assim. E o que era caro ficou ainda mais caro.

A Andy Sachs de Anne Hathaway venceu na vida. Agora jornalista respeitada, exibe um estilo mais aprimorado de sua Annie Hall, referência da figurinista original, a lendária Patricia Fields, que Molly Rogers seguiu.

Wintour, por sua vez, passou de diaba odiada mas bem vestida para celebridade do panteão pop. Sua influência —sem aspas— domina toda a mídia e a cultura americanas, expandindo-se para o cosmos a partir de seu novo cargo como executiva de conteúdo global —menos aspas.

Esperta, inteligentíssima, Wintour sabe jogar como poucos. E soube transformar um grande chocho público em mitologia. Uma aula para quem pretende, ou precisa, sobreviver no chamado “império do efêmero”.



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