História dele está umbilicalmente ligada aos avanços e à modernidade da medicina de Pernambuco, especialmente na prevenção e no combate ao câncer
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Foi num mês de abril como esse, chuvoso e abafado, do ano imprevisível de 2009, que Pernambuco e o mundo médico nacional perderam o cirurgião e oncologista Jaime de Queiroz Lima, nascido no pequeno lugarejo de Bebedouro, hoje Agrestina, mas que ainda criança foi com os pais residir da cidade de Pesqueira, adotada pela família como sua cidade. Ele morreu vítima dessa doença imprevisível e traiçoeira que tanto combateu, após um período de internamento e cirurgia realizados no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, um dos centros médicos mais conceituados de toda a América Latina.
Jaime se revelava sempre como “pesqueirense”, embora tenha saído para estudar no Recife tão logo concluiu o antigo curso ginasial. Ele se considerava tão pesqueirense como eram as famílias tradicionais do município, a exemplo dos “Galvão”, os “Maciel”, os “Chacon” e os “Brito”, estes últimos os fundadores das Indústrias Peixe, que colocariam a cidade no mapa nacional. A história do dr. Jaime Queiroz, falecido aos 82 anos, está umbilicalmente ligada aos avanços e à modernidade da medicina de Pernambuco, especialmente na prevenção e no combate ao câncer.
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Na verdade, mesmo ainda nos primeiros anos do Curso de Medicina da antiga Universidade do Recife, o jovem estudante, que morava numa pensão administrada por padres jesuítas, já ajudava os médicos profissionais na realização de cirurgias, no Hospital do Câncer. Jaime, que mesmo vindo do interior não cultivava timidez, também conheceu e fez amizades com um grupo de senhoras da sociedade pernambucana, que criara, alguns anos antes, a Sociedade Pernambucana de Combate ao Câncer.
Jaime presidiu, anos depois, instituições nacionais ligadas ao tratamento e prevenção contra a doença por vários mandatos; esteve presente em Congressos, Reuniões e Seminários realizados em inúmeros países de vários continentes; sempre ouvindo, questionando e acumulando conhecimentos, que transmitiria depois a outros profissionais, com os quais convivia e trabalhava. Dedicou-se ao Hospital do Câncer de Recife de forma tão intensa que o transformaria quase na sua “segunda residência”.
Jaime Queiroz foi também pioneiro em muitas iniciativas, modernizou e ampliou o Hospital do qual seria diretor – mas acima de tudo nunca deixou de lutar pela prevenção da doença que, segundo costumava enfatizar, “se o câncer for detectado cedo, pode ser curado”. Uma das suas maiores conquistas foi, na época, a criação do “bônus do câncer”, uma parceria com o Antigo Banco Nacional da Habitação que garantia recursos próprios para instituições públicas dedicadas ao tratamento da doença, como nunca acontecera antes.
Na sua cruzada para alertar sobre os cuidados necessários de prevenção, Jaime viajou inúmeras vezes, para o Interior do Estado, em transporte viabilizado por alguns empresários, transportando material cirúrgico conservado em formol, que era visto com algumas restrições pela plateia presente. Ele insistia em explicar que aquilo não oferecia qualquer perigo, que o tumor cancerígeno não era contagioso.
E diante de uma plateia desconfiada, fazia sua palestra dava suas recomendações. Jaime foi também pioneiro na participação de programas de rádio, explicando e orientando, novamente e sempre na sua interminável cruzada, da qual nunca se afastou.
Poucos anos antes de sua morte, aderiu à comunicação digital – e criou um “blog”, numa parceria com o Sistema Jornal do Commercio, cujo conteúdo era exatamente a prevenção conta o câncer.
A sua vida como cirurgião foi tão intensa, trabalhando em várias unidades hospitalares, que muitas vezes ele participava, com sua equipe, de mais de uma cirurgia ao mesmo tempo – quando realizadas numa mesma unidade hospitalar. Competia a ele realizar no paciente os primeiros procedimentos, localizar e retirar a parte afetada, deixar para a equipe a continuidade do processo, com os pontos finais para fechar a parte atingida. Enquanto isso acontecia, Jaime Queiroz estava noutro centro cirúrgico, já cuidando de um novo paciente, com outros integrantes de sua equipe.
Segundo um desses médicos, é impossível calcular quantas cirurgias Jaime teria realizado em sua vida profissional – embora se saiba que seriam vários milhares. Lamenta-se, até hoje, que o Poder Público em Pernambuco não tenha reconhecido oficialmente os inestimáveis serviços médicos e de solidariedade humana prestados por Jaime Queiroz, colocando seu nome num hospital, num centro de saúde, numa rua ou avenida da capital.
Essa ingratidão, no entanto, não diminui nem apaga a historia de combate ao câncer e das ações de prevenção que ele criou e estimulou, salvando milhares de vida que essas medidas antecipadas chegavam para evitar.
Ivanildo Sampaio é jornalista
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