O exemplo importa: médicos sedentários têm 2,5 vezes mais chance de não orientar pacientes sobre estilo de vida

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O exemplo importa: médicos sedentários têm 2,5 vezes mais chance de não orientar pacientes sobre estilo de vida


Estudo brasileiro mostra que comportamento pessoal do médico é um dos preditores da qualidade da orientação que paciente recebe no consultório

Por

Cinthya Leite


Publicado em 05/04/2026 às 19:45
| Atualizado em 05/04/2026 às 20:06



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No tratamento do câncer de mama, existe uma ferramenta terapêutica de baixo custo capaz de aumentar a sobrevida das pacientes em até 40%: a adoção de um estilo de vida ativo. Ainda assim, uma pesquisa brasileira pioneira mostra que a entrega dessa prescrição pode depender diretamente do que o médico faz quando tira o jaleco.

O estudo brasileiro Influência do estilo de vida do médico na prescrição de hábitos saudáveis para pacientes com câncer de mama (em tradução livre), liderado pela oncologista Renata Cangussu, revela que o comportamento pessoal do médico é um dos principais preditores da qualidade da orientação que a paciente recebe no consultório.

Os achados foram publicados na revista científica internacional Supportive Care in Cancer, especializada em cuidados de suporte em oncologia, e chama a nossa atenção às vésperas do Dia Mundial da Atividade Física, celebrado em 6 de abril.

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A ciência por trás do exemplo

A pesquisa avaliou 267 médicos brasileiros, entre oncologistas, mastologistas e radioterapeutas. O resultado trouxe um dado que chamou a atenção da comunidade científica: profissionais que não praticam atividade física regularmente apresentam risco 2,48 vezes maior de não aconselhar pacientes sobre a importância de hábitos saudáveis.

Para Renata Cangussu, oncologista da Rede D’Or e autora principal do trabalho, o estilo de vida do médico funciona como um filtro para sua prática clínica.

“Nosso estilo de vida influencia diretamente na forma como fazemos essa recomendação para a paciente”, afirma.

Ela destaca que, na era da informação e das redes sociais, a percepção da paciente sobre a saúde do próprio médico pode validar ou enfraquecer o tratamento proposto.

“Se você está lá mandando a pessoa fazer atividade física, mas você mesmo não faz nada, está acima do peso e sedentário, a paciente se pergunta se realmente vale a pena se o próprio médico não adere à recomendação.”


REDE D'OR/DIVULGAÇÃO

“Nosso estilo de vida influencia diretamente na forma como fazemos essa recomendação para a paciente”, afirma Renata Cangussu – REDE D’OR/DIVULGAÇÃO

Para além do câncer: um fenômeno multidisciplinar

Embora o estudo tenha focado no câncer de mama, especialistas ressaltam que a relação entre o exemplo do médico e a adesão do paciente se estende a praticamente todas as doenças crônicas.

Segundo Renata, o exercício não atua apenas diretamente na célula tumoral, mas também no microambiente inflamatório do organismo. Esse efeito sistêmico beneficia pacientes com diferentes condições, como diabetes, hipertensão e doenças neurodegenerativas.

O impacto fisiológico é amplo. A contração muscular ajuda a regular hormônios, melhora a sensibilidade à insulina e reduz a inflamação crônica, que são fatores que interferem diretamente na evolução de diversas doenças.

No contexto da oncologia, há ainda um benefício particularmente relevante: o exercício físico é considerado o único tratamento comprovadamente eficaz para a fadiga oncológica, um dos sintomas mais incapacitantes do tratamento do câncer e que costuma responder pouco a medicamentos.

Não por acaso, no guideline do NCCN (National Comprehensive Cancer Network), uma das referências globais em oncologia, a prática de atividade física recebe recomendação categoria 1, o mais alto nível de evidência científica.

O gap na formação médica

O estudo também expôs gargalos estruturais na formação médica e no sistema de saúde.

Cerca de 45% dos médicos entrevistados afirmaram não se sentir devidamente treinados para manejar a obesidade de suas pacientes, um fator de risco importante tanto para o surgimento quanto para a recidiva de vários tipos de câncer.

Outro achado relevante diz respeito à experiência profissional. Médicos com 50 anos ou mais demonstraram probabilidade significativamente maior de aconselhar pacientes sobre estilo de vida e de encaminhá-las para especialistas, como nutricionistas.

Já entre profissionais que atuam predominantemente no Sistema Único de Saúde (SUS), as dificuldades são maiores. A sobrecarga de trabalho e a escassez de consultas especializadas frequentemente limitam esses encaminhamentos, o que reduz a possibilidade de acompanhamento multidisciplinar.

A força da “congruência” clínica

O conceito que conecta a prática pessoal à eficácia clínica é o da congruência. Para o profissional de educação física Cláudio Barnabé, fisiologista clínico do exercício, trata-se de um elemento fundamental da autoridade médica.


RENATO RAMOS/JC IMAGEM

Cláudio Barnabé define o exercício físico como uma “farmácia endógena”. Quando bem prescrito, afirma, ele pode levar pacientes com diabetes e hipertensão à remissão ou a uma redução significativa da necessidade de medicamentos – RENATO RAMOS/JC IMAGEM

“Congruência significa: ‘eu faço, eu acredito e, por isso, eu ensino’. Não é simplesmente acreditar para depois fazer. É o fazer em mim”, explicou Barnabé, durante o episódio 81 do videocast Saúde e Bem-Estar, em 1º de abril, sobre o poder do exercício físico no tratamento de doenças crônicas. A oncologista Renata Cangussu, autora do estudo, também esteve na bancada do episódio. 

Barnabé define o exercício físico como uma “farmácia endógena”. Quando bem prescrito, afirma, ele pode levar pacientes com diabetes e hipertensão à remissão ou a uma redução significativa da necessidade de medicamentos.

“O médico que se exercita tem muito mais capacidade de convencer o paciente de que o exercício é o aliado biológico mais poderoso que existe para tirar o corpo do estado pró-inflamatório e levá-lo para um ambiente anticâncer”, destacou. 

Uma mudança que começa pelo médico

Os resultados do estudo liderado por Renata Cangussu sugerem que a educação médica pode precisar ir além do domínio técnico das doenças.

Incorporar estratégias de autocuidado e saúde para os próprios profissionais pode ter impacto direto na qualidade da orientação oferecida aos pacientes.

“Temos a oportunidade de ajudar nossos pacientes ajudando a nós mesmos primeiro”, finaliza. 






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