Desde que Marina Lima voltou a circular em festivais e shows para grandes públicos, uma nova geração passou a desejar a artista como a figura sexy e libertária que, em meados dos 1980, atravessou os últimos dias da ditadura anunciando que o futuro estava começando.
Os versos de “Fullgás” refletiam um Brasil e uma juventude “cheia de gás”, dando adeus à caretice, sobretudo nos costumes. No manifesto encartado no LP homônimo de 1984, Marina e seu irmão Antonio Cicero eram claros: “Chega de ideais repressivos, cagando regras, fingindo estar acima do tempo e dizendo, por exemplo, que devemos ser heterossexuais ou bissexuais ou que devemos ou que não devemos ter ciúmes”, dizia o texto. “Melhor para nós são a descoberta e libertação dos desejos e gostos autênticos de cada um.”
É essa Marina que muitos querem ver. Como se ela pudesse trazer junto de si, outra vez, a notícia de algum novo começo. Mas os tempos são outros.
A parte boa é que Marina são muitas. Transitou da MPB —os quatro álbuns pré-“Fullgás”— para o pop-rock, onde construiu seu reinado. Daí começou a flertar com a música eletrônica a partir dos anos 1990, ingrediente que se tornou essencial. No final daquela década, passou por questões existenciais, problemas vocais, depressão.
O álbum “Pierrot do Brasil”, de 1998, coroou essa personagem. O respectivo show, teatral, levava isso às últimas consequências. A certa altura, Marina era amarrada em uma camisa de força. É essa a Marina —com dores, perdas e 70 anos de história— que pode, hoje, vasculhar possibilidades de novo tempo.
O recém-lançado álbum “Ópera Grunkie” narra nosso presente. Reflete o Brasil, o mundo e o momento distópico que atravessamos. Neste contexto, é preciso inventar as bolhas de acolhimento. Os “grunkies”, na definição da artista, são “pessoas livres, inteligentes, que não pagam o preço da fama; gente talentosa e corajosa que aceita as diferenças”.
Em 2026, o mundo é de novo reacionário e o poeta não está vivo. Não há de ser por acaso que a ópera de Marina abre com um bloco dedicado a Antonio Cicero. Regrava “Partiu”, lançada no álbum “No Osso”. Em seguida, “Grief-Stricken”, ou tricotando a dor, cantada em alemão: “Minha única certeza é: as pirâmides ainda estarão lá/ Mas quem acreditará em sua sabedoria/ Enquanto todos nós estamos tomados pela dor?”.
“Meu Poeta” é autoexplicativa: uma declaração de amor ao irmão e principal parceiro na música. E “Perda”, que junta acadêmicos da Academia Brasileira de Letras para ler fragmentos de poemas do também imortal.
Está em “Perda” o verso mais perturbador de “Ópera Grunkie”: “Vida, valeu/ Não te repetirei jamais”, pescado do poema “Valeu”. Se, por um lado, ele soa como últimas palavras do poeta, por outro, se parece com o canto desalentado de quem vê o mundo colar todos os tais caquinhos do velho mundo —pátrias, famílias, preconceitos.
Mas “Ópera Grunkie” não é só nuvens. O sol aparece a seguir, com a bossa “Um Dia na Vida”, com vocal da jovem Ana Frango Elétrico. A luz segue em “Samba pra Diversidade”, dedicado a figuras tão díspares quanto Badsista, Marcelo D2 e Maria Bethânia. Nelas, fica sublinhada a compositora capaz de espremer os caminhos harmônicos e melódicos aprendidos com Tom Jobim e os riffs roqueiros de violão de aço.
O dia vira noite, da praia para a boate. A ferveção que serve de pano de fundo para “Olívia” parece uma atualização daquela que Marina mostrou em “Vestidinho Vermelho”, de 20 anos atrás, em que fazia referência à finada Loca, templo dos “grunkies” de então.
Aliás, o mergulho da compositora na cultura clubber dos anos 1990 se intensificou a partir de sua mudança para São Paulo e se refletiu na sua música dali em diante. Há mais experimentações, como “Collab Grunkie”, que costura vozes de anônimos e famosos como Fernanda Montenegro.
As canções em formato mais clássico chegam só no final. “Só que Não” remete a parcerias de Marina e Cicero, como “No Escuro” e “Três”. E “Chega pra Mim”, já gravada por Leila Pinheiro em 2015. Se Adriana Calcanhotto é coautora da primeira, ela participa da segunda cantando. Sua presença traz de volta a lembrança do poeta, de quem também foi parceira.
Se o mundo anda polarizado, “Ópera Grunkie” assume seu lado. E a mensagem de alento parece ser que, juntos, sobreviveremos. Há momentos quase insuportáveis, mas também há os amigos, a praia, a boate e as mais densas canções de amor. O gás possível, hoje, para que o cansaço não nos derrube.

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