O teatro aristotélico supunha uma relação de “empatia” entre público e personagem, envolvendo uma “identificação” com o destino trágico do Herói
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Há setenta anos morria em Berlim o dramaturgo Bertoldt Brecht, autor de inúmeras peças que marcaram definitivamente a dramaturgia ocidental, rompendo, na verdade, com uma tradição que vinha desde a “Poética” de Aristóteles. Peças como “A vida de Galileu”, “Mãe Coragem”, “Terrores e Misérias do Terceiro Reich”, “Senhor Puntilla e seu criado Matti”… se transformaram em verdadeiros marcos culturais de resistência às diversas formas de opressão, sobretudo aquelas que marcaram a experiência alemã do Nazismo, que perseguiu nosso dramaturgo implacavelmente, obrigando-o a emigrar para os EUA, onde fora novamente perseguido pelo Macartismo!
O teatro aristotélico supunha uma relação de “empatia” entre público e personagem, envolvendo uma “identificação” com o destino trágico do Herói, produzindo os sentimentos de piedade e de terror: piedade pelo seu destino e terror pelo seu fim trágico (Aristóteles analisa a tragédia “Édipo Rei” na Poética), culminando numa “catarse” (purificação), em que o público sai da apresentação, digamos, espiritualmente pacificado com a solução punitiva sobre o Herói que devolve a ordem social. Uma solução que garante o “status quo” aristocrático.
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Rompe também com a tradição do chamado “teatro italiano”, cuja arquitetura, diferente da antiguidade clássica, supunha uma separação entre atores e público, onde os atores “representam” vicariamente seus “personagens”, assumindo suas “personalidades” (persona, personagem, personalidade tem a mesma origem grega: máscara!), numa espécie de ilusão dramática (cenários realistas, figurinos, trilhas sonoras), a ideia da “quarta parede”, separando público de palco, como se o público fosse um conjunto de “voyeurs”, que deslocavam o espectador da reflexão sobre seu tempo, para conduzi-lo a um simples “entretenimento”, necessário – segundo a influência de seus amigos frankfurtianos- ao controle ideológico da sociedade de massas e sua indústria cultural. Brecht discordava dessa função diversionista do teatro e defendia que a emoção devia vir do conhecimento. E solicitou a seu amigo Erwin Piscator (1893-1966) que imaginasse uma arquitetura teatral que não separasse radicalmente o público dos atores.
O crítico inglês Eric Bentley mostra, em “O teatro dialético”, que Brecht propunha um distanciamento crítico ao espectador que evitasse aquela empatia clássica, e para isso usava uma técnica de distanciamento (Verfremdungseffekt, “efeito de distanciamento crítico”) em que os atores ao invés de “representar” personagens, os “apresentava”, evitando, inclusive as surpresas de um enredo (com cartazes que anunciavam a próxima cena), e obrigando os espectadores, inclusive a intervir, dialogando, ao final, com os atores. Brecht pedia que os “espectadores não deixassem a cabeça junto com o chapéu, na entrada do teatro”!
Discutindo a relação da ciência com a ética (“Vida de Galileu”), do sentido da guerra e da perda dos filhos (“Mãe Coragem”), da política do medo e da delação perpetrada pelos Nazistas (“Terrores e Misérias…”), do engodo que significa o “patrão bonzinho” (“O Senhor Puntilla..”), Brecht achava que a “arte pela arte” não tinha mais sentido, e que o teatro engajado podia ser usado como uma arma de consciência política.
É possível que, com a derrocada de nossas utopias e o grande avanço do consumo do entretenimento, ao que se acrescenta nosso desinvestimento político, com o declínio do homem público, o Teatro Épico brechtiano fique prisioneiro das grandes ilusões políticas e sociais do século XX. No entanto, ele ainda nos serve como advertência sobre o que significa habitar um tempo e se revoltar contra ele.
* * *
Hannah Arendt, que tinha uma grande simpatia por Brecht, dedica um capítulo de seu livro “Homens em Tempos Sombrios” a seu amigo, analisando, sobretudo sua condição de poeta, mais do que de dramaturgo. Um desses poemas que Brecht escreveu dizia algo assim:
“(…) Nós, que queríamos preparar o terreno para a amizade,
Não pudemos, nós mesmos, ser bons amigos.
Mas vocês, quando chegar o tempo
Em que o homem seja amigo do homem,
Pensem em nós com um pouco de compreensão”.
Flávio Brayner é Professor Emérito da UFPE
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