Quem é Emilie Lesclaux, que produz ‘O Agente Secreto’ e trocou a França pelo Brasil

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Quem é Emilie Lesclaux, que produz ‘O Agente Secreto’ e trocou a França pelo Brasil


Uma campanha para o Oscar não dá descanso. Desde que “O Agente Secreto” estreou no Festival de Cannes, em maio do ano passado, a produtora do filme, Emilie Lesclaux, tem viajado de Los Angeles a Londres, com bate e voltas constantes a Recife, onde mora com Kleber Mendonça Filho e os gêmeos do casal, para divulgar o filme.

O vai e vem de festivais e eventos glamorosos ficou mais intenso depois que o longa foi indicado a quatro categorias na principal premiação de cinema do mundo.

“Eu entendo que faz parte do jogo, embora a minha personalidade se sinta mais confortável nos bastidores e mantendo a nossa vida o mais privada possível”, diz Lesclaux.

Nos tapetes vermelhos de premiações importantes, como o Critics Choice Awards e o Globo de Ouro, ela costuma aparecer ao lado de Mendonça Filho, mas não dá tantas entrevistas quanto o diretor de “O Agente Secreto” —tampouco é tão ativa nas redes sociais. Enquanto ele faz várias postagens dos dois em sua peregrinação, adicionando um “com Emilie” nas legendas, a conta dela no Instagram é privada.

Mas a recepção do filme e a torcida brasileira são muito bem-vindos. Além de “O Agente Secreto”, Lesclaux produziu todos os outros longas de Mendonça Filho, “O Som ao Redor“, “Aquarius” e “Bacurau“, tornando-se uma das principais produtoras do cinema nacional hoje.

Foi coisa do destino. É que Lesclaux, nascida em Bordéus, cidade do oeste da França, deixou a vontade de trabalhar com cinema de lado para cursar ciências políticas. Quando surgiu uma oportunidade de emprego no consulado geral do país no Recife, ela não pensou duas vezes. A paixão pela América Latina já florescera por influência da mãe argentina, que viajava com frequência ao lado da filha criança para o país vizinho.

Por um acaso, o trabalho envolvia o setor cultural e, na época, Mendonça Filho, crítico no Jornal do Commercio, também trabalhava no cinema da Fundação Joaquim Nabuco. Foi assim que se conheceram. Dois anos depois, quando o contrato de Lesclaux terminou, ela tomou a decisão de permanecer no Brasil e ajudar o pernambucano, que iniciava a carreira de diretor, com a produção de seus curtas-metragens. Juntos, fundaram a produtora Cinemascópio.

“Eu já estava praticamente casada com Kleber, e foi uma escolha natural. Acho que a minha identidade sempre será múltipla e um pouco confusa. Nunca vou ser 100% brasileira e, quando estou na França, já não me sinto mais 100% francesa”, diz.

Pode ser que o lado francês tenha impulsionado o interesse pelo cinema. Terra dos irmãos Lumiére e de Georges Méliès, a França é cuidadosa com a tradição da sétima arte. O país é conhecido por ter uma lei rígida de incentivo à produção e distribuição nacional, e ir ao cinema faz parte dos currículos escolares. Hoje, ainda que existam muitas ameaças, a França continua sendo uma referência, diz Lesclaux.

“A cinefilia não opera dentro de uma bolha. O ato de ir ao cinema é muito natural e incentivado desde a infância”, afirma. O cenário é muito diferente quando comparado ao Brasil, que ainda cambaleia para aprovar a regulamentação do streaming, lei que quer tributar grandes plataformas e reverter o valor para o desenvolvimento da indústria cinematográfica nacional.

O hábito de ver filmes, porém, é mais uma herança materna do que nacional. “Era ela quem me levava ao cinema o tempo todo e quem me fez descobrir grande parte da história do cinema. Sempre frequentei festivais de todo tipo”, diz a produtora sobre a mãe.

O primeiro curta feito com Mendonça Filho foi “Eletrodoméstica”, de 2005, um retrato ruidoso da influência dos eletrodomésticos e eletrônicos no cotidiano de uma família de classe média suburbana. Em 2009, foi a vez de “Recife Frio“, documentário ficcional que narra uma mudança climática dramática na capital pernambucana —vencedor de vários prêmios em festivais pelo país, o curta faz uma alegoria das transformações reais na cidade ao longo dos anos.

Eram tempos instigantes, lembra Lesclaux. “Muitos grupos criativos coexistiam e havia uma comunidade unida e diversa que fazia cinema com poucos recursos, na periferia da indústria e com muita liberdade.” Aos poucos, as políticas públicas de incentivo à cultura chegaram ao Recife, promovendo a estruturação de uma cena artística já efervescente.

O desafio era grande. Recife carecia de escolas de cinema, locadoras e laboratórios de equipamentos —a produção audiovisual ainda era muito concentrada no Rio de Janeiro e em São Paulo. Foi nos anos 2000, justamente na época em que o casal começou a lançar os primeiros curtas, que o debate sobre descentralização da produção começou a ganhar força. “Ele [Kleber] passou por muitas rejeições antes de ser reconhecido.”

“O Som ao Redor”, primeiro longa dos dois, foi contemplado por um edital com cota regional. Sucesso de crítica, o filme foi a indicação brasileira para o Oscar de 2014, mas ficou de fora dos escolhidos pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. “As pessoas às vezes querem receitas de sucesso, mas precisamos relembrar que trabalhamos durante 20 anos antes de receber essas indicações ao Oscar.”

Dois anos depois lançaram “Aquarius”, protagonizado por Sônia Braga, que competiu pela Palma de Ouro, prêmio máximo do Festival de Cannes. No tapete vermelho que é um dos mais prestigiados do mundo, Lesclaux exibia, junto ao elenco do filme, uma plaquinha com um aviso: “Um golpe está acontecendo no Brasil”.

Dois meses depois, Dilma Rousseff sofreu o impeachment que cassou seu mandato de presidente da república. Lesclaux voltou ao mesmo tapete vermelho com “Bacurau”, em 2019, que venceu o prêmio do Júri.

Foi também na Riviera Francesa que estreou “O Agente Secreto”. Dessa vez, porém, demorou mais para chegar lá, ainda que o esqueleto do longa existisse desde 2020. “Não havia caminho possível para o financiamento desse filme. O governo cortou todas as fontes de incentivo entre 2018 e 2022, inclusive com a extinção do Ministério da Cultura”, diz Lesclaux, referindo-se ao mandato de Jair Bolsonaro.

Além de verba do Fundo Setorial do Audiovisual, da Agência Nacional do Cinema, foi preciso buscar ajuda financeira da França, Alemanha e Holanda para que “O Agente Secreto” saísse do papel.

Para Lesclaux, são necessárias mais do que boas ideias para que trajetórias como as de “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” se repitam em menos do que 25 anos —tempo que demorou para uma produção nacional reaparecer na disputa pelo Oscar de melhor filme internacional desde “Central do Brasil”, de 1999. A regulamentação do streaming e a continuidade de políticas públicas, agora, são o cerne da questão, segundo a produtora.

“O futuro da produção audiovisual no Brasil é promissor do ponto de vista criativo, pois há uma grande diversidade de talentos e novos pólos regionais que vêm fortalecendo o cinema e o audiovisual no país. No entanto, ainda depende de fatores importantes”, diz. Mais concisa sobre a vida pessoal, Lesclaux é firme em relação ao que considera urgente.



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