Durante a pandemia, Matt Berninger, cantor e letrista da banda The National, passou por maus bocados: “Por cerca de um ano eu simplesmente não consegui escrever nada”, diz o artista de 55 anos. “Fui tomado por um sentimento glacial e doloroso. Todo o espírito de criatividade me deixou. Não conseguia escrever, entrei numa depressão e aquilo parecia que duraria para sempre. Felizmente não durou.”
Berninger fala de sua casa numa área rural de Connecticut (estado do nordeste dos Estados Unidos), para onde se mudou com a esposa e filha depois de uma década morando na agitação de Los Angeles. Na nova residência, ele é vizinho de ninguém menos que Keith Richards. “Às vezes, você tem que aprender a mudar tudo e começar do zero. A mudança tem sido maravilhosa para mim. Tenho sido prolífico, mudei meu processo de trabalho, passei a ter uma vida mais simples e isso me ajudou muito a compor.”
Os resultados são evidentes: desde 2020, Berninger lançou nada menos de quatro álbuns: dois em 2023 com The National —”First Two Pages of Frankenstein” e “Laugh Track”— e dois discos solo: “Serpentine Prison” (2020) e “Get Sunk” (2025). É com a banda que o acompanhou na gravação do disco solo mais recente que Berninger desembarca em São Paulo em 23 de maio, como uma das atrações do festival C6, que tem no mesmo dia The xx, Dijon, Wolf Alice e outros.
“É um show solo, mas não espere me ver sentado num banquinho tocando gaita”, brinca o compositor. “Será um show de rock, com uma superbanda de amigos e grandes músicos, pessoas com as quais venho tocando há anos”.
Berninger promete canções de seus dois discos solo, “uma ou duas” músicas do National e, quem sabe, alguns covers: “Temos tocado canções do Nirvana, Radiohead, e até ‘Blue Monday’, do New Order, mas tudo depende de quanto tempo tivermos. O importante é que a banda e eu nos divertimos muito nos shows, tem sido um prazer excursionar”. Berninger esteve no Brasil por três vezes com The National, em 2008, 2011 e 2018.
Perguntado como escolhe letras que faz para The National ou para os discos solo, o compositor diz que consegue separar bem os dois trabalhos. “Gosto de escrever com parceiros variados. Quando meus colegas de banda me mandam algo, aquilo automaticamente vai para meu ‘folder’ do The National. No primeiro disco que fiz solo, ‘Serpentine Prison’, tive uns oito ou nove parceiros diferentes, e em ‘Get Sunk’ fiz quase tudo com meu velho amigo e colaborador Sean O’Brien. Amo escrever em colaboração.”
The National surgiu em 1999, mas começou a fazer sucesso comercial com o terceiro LP, “Alligator”, lançado em 2005. Berninger diz que a banda teve sorte por ainda pegar uma fase da indústria musical em que a venda de discos não havia sido obliterada pelas plataformas de streaming.
“Até 2003, as pessoas mal sabiam que a gente existia. Nessa época, a música de repente tornou-se gratuita, e as coisas mudaram muito. Sabe, é muito difícil para qualquer um que trabalhe com arte simplesmente pagar as contas, e sou muito grato por ter tido a chance de viver de minha música [Berninger largou um emprego de publicitário para dedicar-se integralmente à banda]. A verdade é que, quando começamos, nosso modelo de sucesso era o Pavement. Se chegássemos perto do reconhecimento deles, estaríamos satisfeitos.”
Berninger vê a atual cena de rock alternativo com otimismo: “Tem muita coisa boa por aí. Quando você ouve bandas como Big Thief ou a Phoebe Bridgers, ou mesmo o Geese, que está despontando, isso é um ótimo sinal. No festival (C6) vamos tocar com The xx, que eu julgo uma banda muito especial.”
Sobre o atual momento dos Estados Unidos, o cantor não é tão otimista. “Quando eu acho que nada pode piorar, leio o noticiário e percebo que as coisas estão cada vez piores. Temos cidadãos sendo assassinados por forças de segurança em plena rua, é uma coisa inacreditável!”
Berninger diz, no entanto, que não pensa em usar acontecimentos recentes para se inspirar criativamente.
“Acho que fizemos um disco político em ‘Sleep Well Beast’ (de 2017), e faixas como ‘Turtleneck’ são o mais perto que cheguei de fazer uma letra ‘de protesto’. Mas a verdade é que estou completamente saturado com a situação, não quero ter que pensar em como o fascismo está se espalhando por meu bairro. Espero que artistas estejam se sentindo cada vez mais inspirados a se juntar e apoiar uns aos outros e em fazer arte que demonstre honestidade e empatia com outras pessoas. Escrever uma canção de protesto é muito legal e temos gênios como Bob Dylan, que fez as melhores. Mas isso não funciona, tanto que Donald Trump se elegeu presidente!”


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