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Muito presente nas ruas do Recife e da Região Metropolitana, a La Ursa é uma das manifestações mais conhecidas do Carnaval de Pernambuco.
A brincadeira, marcada por uma fantasia de urso, batucadas improvisadas e pela tradicional marcha pedindo dinheiro ao público “A La Ursa quer dinheiro, quem não dá é pirangueiro!” atravessa gerações e mantém uma forte ligação com as pessoas. Conheça a origem, as transformações e a importância cultural desse símbolo.
Tradição de origem europeia
Apesar de hoje ser associada diretamente à cultura pernambucana, a La Ursa tem origem na Europa medieval. A manifestação está relacionada aos antigos espetáculos do “urso dançante”, comuns no Leste Europeu no século XIX.
Nessas apresentações, ursos reais eram usados por artistas viajantes para arrecadar dinheiro em feiras e praças públicas. Os domadores usavam brasas no chão e assim, os ursos “dançavam” ao som da música para evitar queimar as patas. Com o tempo, o urso associava o som ao movimento, e dançava mesmo sem fogo.
Com a proibição desse tipo de prática na Europa, alguns artistas migraram para outros continentes. No Brasil, chegaram ao porto do Recife entre as décadas de 1940 e 1960.
As apresentações logo se popularizaram e ursas fêmeas eram usadas pelos artistas, que gritavam para o público “A La Ursa quer dinheiro!”, um convite para as pessoas pagarem alguma coisa para ver o show.
Com o tempo, os animais morreram e como o urso não faz parte da fauna brasileira, não era possível continuar os shows com animais de verdade, então os ursos passaram a ser representados por meio de peles e cabeças secas usadas pelos próprios artistas.
Feito isso, o público logo começou a imitar e surgiu o Folguedo da La Ursa com máscaras feitas de papel machê, se inserindo definitivamente no Carnaval pernambucano.
Essa é a versão mais conhecida da história da La Ursa, mas também há outras versões, como a de um circo italiano que chegou ao Recife na década de 1920, trazendo animais para compor os espetáculos, inclusive ursos.
Até chegar um dia em que um urso fugiu do circo. Então, o dono do circo, desesperado para resgatá-lo e ter o animal de volta, ofereceu dinheiro à população para que conseguisse capturar um urso, surgindo assim, a figura dos caçadores, que vão atrás do urso, buscando-o em todos os lugares para trazê-lo de volta.
Então, a história se espalhou, a população ficou sabendo e começaram a fazer chacota da fuga do urso.
Uma outra versão conta que o urso está associado a homens que eram especialistas em namorar mulheres casadas. Há várias versões e brincadeiras em torno do surgimento da La Ursa.
A ressignificação da La Ursa
A artista, historiadora e educadora pernambucana Monica Judice Lewis contou um pouco da experiência dela envolvendo a La Ursa.
Durante uma pesquisa acadêmica na Universidade de Oxford, Monica passou a utilizar a La Ursa como metáfora em seus estudos sobre educação, a partir das teorias de Paulo Freire. Ela também se vestiu de La Ursa para incorporar o personagem.
A partir dessa associação, ela começou a ilustrar sua dissertação e tese com imagens da La Ursa, o que acabou atraindo atenção para o tema.
“Eu sou de uma época que as pessoas saíam, crianças se juntavam e iam brincar de La Ursa e pedir dinheiro na casa dos vizinhos. Isso era muito comum na minha infância e eu percebi que isso tinha mais ou menos ‘deixado de ser o comum’ por muito tempo”, afirma.
Monica explica como a imagem da La Ursa foi ressignificada e também ressignificou a cultura pernambucana. Segundo ela, é um símbolo de resistência.
“Você vai em qualquer loja colaborativa e tem La Ursa. Eu, inclusive, acredito que ela voltou com um ressignificado, porque no folguedo original, ela era maltratada, era sempre acorrentada, e hoje em dia a La Ursa é livre, ela tem um certo lance de resistência, até.”
Presidente fundador do bloco O Bonde, Bloco Carnavalesco Lírico, Cid Cavalcanti é uma das vozes que ajudam a manter viva a tradição da La Ursa no Recife.
Fundado em 1991 no bairro da Imbiribeira, o bloco atua diretamente na preservação e ressignificação da manifestação dentro do Carnaval de rua, articulando memória afetiva, vivência comunitária e organização coletiva. Em 2018, foi criada A La Ursa do Bonde, como uma extensão do bloco.
Segundo ele, a força da manifestação está justamente em sua origem simples e verdadeira, associada a um imaginário coletivo ancestral no qual a ursa aparece.
“Eu acho que ela (a La Ursa) está no nosso imaginário coletivo, especialmente no imaginário da cultura popular de Pernambuco. Ele se tornou tão forte que as pessoas têm uma verdadeira paixão. Hoje você vê pessoas com cabeças de La Ursa, há símbolos usados por diversos meios de comunicação, por instituições públicas, privadas, para simbolizar o carnaval de Pernambuco, e hoje você não consegue, digamos assim, perceber essa coisa tão diversa do Carnaval de Pernambuco se não tiver a imagem da La Ursa. Em algum momento a gente tinha basicamente o passista de frevo, depois isso foi o porta-estandarte, depois nós tivemos o caboclo de lança, e atualmente a La Ursa tem se tornado um dos símbolos mais icônicos do carnaval de Pernambuco”, destacou Cid.
Diferentes representações pelo Brasil
Monica Judice Lewis explica que a representação da La Ursa varia significativamente de acordo com a região, inclusive dentro do próprio estado de Pernambuco.
No litoral, a manifestação costuma seguir o modelo mais tradicional, associado às figuras do caçador e do domador ou às apresentações com batucada, como as popularizadas por mestres artesãos locais.
Já no interior, especialmente no Agreste, a estética e a dinâmica mudam: em cidades como São Caetano, as máscaras apresentam formatos distintos, chegando a lembrar um panda, enquanto os desfiles se aproximam do formato das escolas de samba, com coreografias, grandes bandas e organização por alas.
Em municípios como São Lourenço da Mata, no Grande Recife, há inclusive competições entre agremiações de urso, nos moldes dos concursos carnavalescos do Sudeste.
Na Paraíba, a La Ursa ganha proporções ainda maiores, com fantasias gigantescas, estruturas mais pesadas e até elementos tecnológicos, como olhos iluminados e mecanismos de movimento, além de desfiles com dezenas de participantes.
Fora do eixo Pernambuco–Paraíba, segundo a pesquisadora, a brincadeira tende a reproduzir o modelo pernambucano, geralmente levada por migrantes, sem grandes reinvenções locais.
Tradição passada de geração em geração
Ao avaliar a forma como a tradição da La Ursa vem sendo transmitida ao longo do tempo, Monica explica como, na percepção dela, o cenário cultural do estado começou a mudar com transformações no modelo educacional e com o fortalecimento de uma consciência crítica, que levou a população e a geração atual a reconhecer e valorizar aquilo que lhe era próprio.
Nesse processo, manifestações como a La Ursa foram adaptadas à realidade local e ganharam uma identidade genuinamente pernambucana, assim como ocorreu com instrumentos como a rabeca e com outras expressões do Carnaval popular.
“Eu acho que a nova geração hoje em dia tem um orgulho (da cultura local). Os jovens, mais ou menos, que se nutrem da memória afetiva dos pais, e veem aquilo como um escudo de identidade. Eu acho que, Pernambuco principalmente, tem se projetado no país de uma forma meio chocante. O país Pernambuco, né? A pernambucanidade, hoje em dia, é uma linguagem. Ela não é só um estado de espírito”, afirmou Monica.
Já para Cid Cavalcanti, a La Ursa deixou de ser apenas uma brincadeira espontânea e rústica para se tornar um dos símbolos mais potentes do Carnaval do Recife e da cultura popular pernambucana
A partir de experiências da infância e da relação direta com o território, Cid passou a defender a La Ursa como elemento central da identidade popular do bloco O Bonde, contribuindo para que a brincadeira ganhasse novos formatos sem perder sua essência.
“Nós, no Bonde, temos uma característica que nós mantemos a tradição, porque é a nossa origem, naturalmente, e a gente não pode trair essas origens e essa ancestralidade que nós temos. (…) Então, a gente tem uma La Ursa muito contemporânea e que, inclusive, foi a primeira a usar maquineta de cartão de crédito para aceitar as doações. A gente aceita moedas, a gente aceita cédulas… A nossa La Ursa, inclusive, já tem até QR Code para aceitar PIX também. E ela usa tênis all-star”, afirma Cid.
Preservação do símbolo
Ao abordar os desafios para a preservação da La Ursa como patrimônio cultural, Monica avalia que a transmissão entre gerações tem sido favorecida pelos meios de comunicação e pela circulação de conteúdos nas redes, o que facilita o acesso e o interesse de novos públicos. No entanto, ela aponta que o principal obstáculo atualmente é a falta de apoio institucional.
Segundo ela, apesar da existência de artistas, pesquisadores, grupos acadêmicos e artesãos que mantêm a tradição viva, muitos deles inclusive, dependendo diretamente da La Ursa como fonte de renda, as iniciativas seguem sustentadas quase exclusivamente pela dedicação pessoal e pelo afeto à manifestação.
A ausência de políticas públicas, cessão de espaços culturais e incentivo estruturado dificulta projetos maiores, como exposições, feiras ou até a criação de um museu dedicado à La Ursa, mesmo diante de um vasto acervo histórico e artístico já produzido.
São poucas as exceções com relação a essa falta de apoio. Segundo Cid, o bloco O Bonde e A La Ursa do Bonde recebem uma subvenção da Prefeitura do Recife e, inclusive, o bloco recebeu o título de Patrimônio Cultural Imaterial da cidade do Recife.
“A gente trabalha o ano inteiro para fazer o nosso Carnaval. E, naturalmente, como nós já somos um bloco consolidado, reconhecido, nós já temos uma trajetória de 35 anos e o poder público, sim, nos ajuda”, destaca Cid.
“E todas essas vendas, venda de camisas, de souvenir, enfim, a gente faz de tudo para manter essa tradição viva, e conseguir todos os anos colocar a La Ursa na rua. Porque é sempre um desafio muito grande, porque é uma coisa que depende de uma série de fatores, inclusive fatores mesmo financeiros, para colocar pessoas na rua, fantasias, contratar instrumentistas, sonorização, temos um carro alegórico tocando as músicas da La Ursa também, então tem todo um investimento que precisa ser feito todos os anos”, finalizou.
O resgate da La Ursa surgiu, segundo o relatos, da necessidade de recuperar uma brincadeira que, até poucos anos atrás, permanecia à margem do Carnaval. Anos atrás, a La Ursa ainda não ocupava o lugar de símbolo que tem hoje, mas passou a ser relembrada a partir de memórias afetivas da infância vivida nos bairros do Recife.
A identificação do público com a figura da La Ursa, associada às lembranças do carnaval de rua das décadas de 1970 e 1980, quando a brincadeira envolvia sair pelas ruas, bater de porta em porta e pedir dinheiro, ajudou a devolver força e visibilidade à tradição.
A emoção demonstrada por quem reencontra a La Ursa e faz questão de brincar e contribuir reforça esse elo coletivo, que reconecta passado e presente e reafirma a importância da manifestação como herança cultural viva do Carnaval pernambucano.






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