Restrições de viagem do governo Trump complicam vida da classe artística

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
Restrições de viagem do governo Trump complicam vida da classe artística


Em novembro, agentes da banda africana Tinariwen, vencedora do Grammy, agendaram uma extensa turnê norte-americana para este ano e começaram a preparar os pedidos de visto.

Mas em dezembro esses planos foram frustrados, quando a administração Trump anunciou restrições de viagem para 19 países, incluindo Mali, de onde são a maioria dos membros do Tinariwen. A turnê, programada para teatros e clubes por todos os Estados Unidos e Canadá, foi cancelada, e Patrick Votan, empresário do grupo, disse que não tinha expectativa de que algo mudasse em um futuro próximo.

“Não temos mais nenhuma esperança fazer turnê nos EUA agora”, disse Votan em uma entrevista. “Não há realmente nenhuma solução para voltar lá.”

As proibições de viagem —junto com os custos crescentes e atrasos no processo de solicitação de visto, que já é sempre complicado— representam uma crise iminente para o setor de artes performáticas americano, já que muitos músicos estrangeiros, companhias de teatro, por exemplo, enfrentam obstáculos novos e aparentemente intransponíveis para viajar. Alguns, avaliando os riscos, estão optando por evitar o país, segundo agentes de talentos, promotores e produtores americanos que agora lidam com lacunas em seus calendários.

O governo federal diz que está protegendo os cidadãos americanos do perigo. Em seu primeiro dia no cargo, há um ano, o presidente Donald Trump emitiu uma ordem executiva voltada para “estrangeiros que pretendem cometer ataques terroristas, ameaçar nossa segurança nacional, promover ideologias de ódio ou explorar as leis de imigração para fins malignos.”

Em uma série de atos, desde então a administração impôs severas restrições de viagem e imigração a dezenas de países, incluindo proibições totais para Cuba, Haiti, Níger, Laos, Serra Leoa e Síria, além de pessoas cujos documentos foram emitidos pela Autoridade Palestina. São poucas as exceções aceitas.

Na semana passada, o Departamento de Estado disse que em breve interromperia o processamento de pedidos de visto de imigrantes de cidadãos de 75 países, embora detalhes completos não tenham sido anunciados.

Os artistas enfrentam uma complicação adicional. O processamento de petições pelo Serviço de Cidadania e Imigração dos EUA (USCIS), o primeiro passo no processo de solicitação de visto da maioria dos artistas, tornou-se muito mais rigoroso. De acordo com uma regra recentemente instituída, o USCIS agora está colocando uma “suspensão” em seu processamento se um solicitante nasceu em qualquer um dos cerca de 40 países visados pela administração, independentemente de onde o solicitante tem cidadania.

A agência “pausou todas as análises para estrangeiros de países de alto risco enquanto o USCIS trabalha para garantir que todos os estrangeiros desses países sejam verificados e examinados ao máximo grau possível”, disse Matthew Tragesser, porta-voz do USCIS, em um comunicado. Após a verificação pela agência, o Departamento de Estado processa os pedidos de visto.

Mas para artistas estrangeiros e produtores americanos que desejam trabalhar com eles, essas mudanças estão começando a causar estragos. Na semana passada, o festival de teatro Under the Radar, em Nova York, anunciou em cima da hora o cancelamento de uma das suas principais atrações no ano, a performance imersiva “12 Last Songs”, da trupe britânica Quarantine, que o festival estava apresentando em cooperação com La MaMa e o Working Theater.

Os vistos do grupo não foram aprovados. Tommy Kriegsmann, coprodutor do festival, disse em uma entrevista que nenhuma explicação havia sido dada, mas o advogado do evento acreditava que era porque dois membros da equipe —ambos cidadãos britânicos e portadores de passaporte britânico, segundo Kriegsmann— nasceram na Nigéria. Isso poderia ter acionado a pausa da agência, já que a Nigéria é um dos países com restrições parciais pela administração.

O Under the Radar passou um ano planejando a apresentação do Quarantine, e seu cancelamento custará ao festival entre US$ 150 mil e US$ 200 mil, que não serão recuperados. “É uma bagunça inacreditável, e ninguém pode fornecer uma resposta”, disse Kriegsmann.

Problemas como esses foram o assunto da conferência da Associação dos Profissionais de Artes Performáticas, em Nova York, na semana passada. A cada janeiro, milhares de agentes e apresentadores se reúnem lá para definir seus calendários anuais e compartilhar informações sobre o clima, que tem sido instável há anos –mas agora está, segundo muitos, em estado de crise.

Matthew Covey, um advogado especializado em pedidos de imigração para artistas, disse em um discurso que neste ano espera um declínio de 30% no fluxo de artistas internacionais para os Estados Unidos, em comparação com 2024.

Um dos maiores obstáculos, disseram Covey e outros, é o custo e o tempo de processamento dos pedidos, que aumentaram nos últimos anos. O que antes levava alguns meses agora pode levar até um ano, efetivamente forçando qualquer artista em turnê a pagar mais para ter prioridade na fila. Não é incomum que conjuntos paguem US$ 6.000 pelo processamento de vistos, disse Covey, sem contar os custos crescentes da própria viagem.

“Trata-se de risco econômico e da realidade de que as regras de hoje valem apenas para hoje”, disse Shanta Thake, diretora artística do Lincoln Center e uma das diretoras do Globalfest, um festival anual em Nova York de artistas de todo o mundo.

Jesús Alemañy do Cubanisimo, uma banda cubana que viajou pelos Estados Unidos nos anos 1990 —quando as relações entre os Estados Unidos e Cuba começavam a descongelar— evitará o país na sua próxima turnê, do seu 30º aniversário. Embora ele seja agora cidadão do México, seu status como pessoa nascida em Cuba pode colocar seu pedido de visto em risco, disse seu agente, David Gaar.

Em uma entrevista, Alemañy, trompetista e líder de banda, disse que estava triste com as políticas recentes, que parecem estar colocando em risco uma era de intercâmbio cultural que permitiu que sua banda viesse aos Estados Unidos.

“Isso é algo louco”, disse Alemañy. “Isso é algo que está tirando das pessoas a oportunidade de serem mais educadas e aprenderem sobre as raízes da música, que tem sido muito importante em todo o mundo. Por que isolar o povo americano desta oportunidade?”

Este artigo foi publicado originalmente no The New York Times



Source link

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

Nunca perca uma notícia importante

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *