São pinturas de paisagens totalmente diferentes. Algumas telas se inspiram num fenômeno natural que acontece num parque em meio ao cerrado de Goiás —os vaga-lumes depositam seus ovos em cupinzeiros, e estas larvas brilham à noite, emitindo uma luz verde fosforescente como lamparinas na escuridão.
Outras telas retratam diversas localidades do litoral brasileiro —o oceano banhado pela chuva, um conjunto de montanhas, as tartarugas sob um céu vermelho de fim de dia, o mar da praia de Ilha Grande, em Angra dos Reis, um conjunto de pedras em Mangaratiba, no estado do Rio de Janeiro.
O que une paisagens tão distintas e deslumbrantes são as pinceladas de Luiz Zerbini, o autor de todos os quadros, agora expostos em mostras simultâneas nas duas unidades da galeria Fortes D’Aloia & Gabriel em São Paulo, uma no bairro da Barra Funda e outra no Jardim Paulista —nesta, as telas do artista são postas lado a lado a quadros do também pintor Frank Walter.
No galpão da Barra Funda está a série do cerrado, com telas de grandes dimensões —a exemplo de uma com 2,4 metros de extensão por 2,4 metros de altura— produzidas no ano passado. Nestes trabalhos, as cores vivas, características da paleta de Zerbini, explodem em tons ainda mais vibrantes, quase tão fosforescentes quanto os vaga-lumes dos quais tiram inspiração.
Para esta série, Zerbini conta ter se inspirado numa imagem do brasileiro Ary Bassou, vencedora do prêmio de fotografia selvagem de 2014, na qual vemos um cupinzeiro brilhante no Parque Nacional das Emas, em Goiás. “É quase uma ‘rave'”, diz o artista, em tom de brincadeira, sobre as luzinhas brilhantes, que ele transpôs para as suas telas.
“Estava tentando resgatar uma pincelada mais solta. Foi um trabalho mais rápido de fazer, menos sofrido, tranquilo, sem muito estresse”, acrescenta, dizendo se tratarem de pinturas lúdicas. Zerbini conta ter levado entre três semanas e um mês para executar cada uma das telas.
Já a galeria dos Jardins traz pinturas que o artista fez em fins de semana, feriados e momentos de descanso, mais despreocupadas em relação à sua produção de ateliê. Sempre que viaja, Zerbini se põe na natureza para exercitar seu ofício no seu tempo, sem o compromisso de produzir para uma exposição. Ele afirma que nunca havia pensado em mostrar ou mesmo vender estas telas, que considera íntimas.
“Levo telas e tintas que vou catando na hora. Vou fazendo com as tintas que eu tenho ali. Tento não pensar, retratar o que estou vendo, deixando acontecer”, ele afirma, a respeito das pinturas de natureza, a maioria delas pequena. O exercício em meio ao verde, diz, faz com que se sinta conectado consigo mesmo e volte com o braço solto para seu espaço de trabalho no Rio de Janeiro.
A série do litoral —reunida por inteiro no livro “Sábados, Domingos e Feriados”, lançado em 2023 pela editora Cobogó—, aparece na galeria dos Jardins junto a pinturas da mesma temática de Frank Walter, artista visual da ilha caribenha de Antígua e Barbuda que teve a sua extensa produção reconhecida pelo mercado e pelas instituições depois de sua morte, em 2009.
Autodidata, Walter pintava no verso de fotografias, sobre caixas de papelão e outros materiais inusitados que encontrava como suporte. Há uma impressionante similaridade entre as suas paisagens e as de Zerbini, a ponto de o espectador não conseguir distinguir quem é um artista e quem é outro. Tanto a paleta de cores quanto as pinceladas são parecidas, com a diferença de que as telas foram feitas com décadas —e milhares de quilômetros— de distância umas das outras.


/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/creation-2584190806.png?w=300&resize=300,300&ssl=1)



/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/creation-2582298724.png?w=300&resize=300,300&ssl=1)







/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/creation-2584190806.png?w=150&resize=150,150&ssl=1)


