Em tempos de emagrecimento e pressão estética, a condição é caracterizada por afetar o comportamento do indivíduo e acende alerta sobre saúde mental
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Em um período em que a saúde mental é cada vez mais colocada em debate e corpos extremamente magros seguem sendo tratados como padrão de beleza, a relação das pessoas com a comida tem se tornado um desafio. Neste cenário, a compulsão alimentar surge como uma condição que vai muito além de hábitos alimentares inadequados ou falta de disciplina.
Caracterizada pela ingestão excessiva e sem controle de alimentos em um curto espaço de tempo, a compulsão alimentar costuma vir acompanhada de sentimentos como culpa, frustração emocional, tristeza e ansiedade. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 4,7% dos brasileiros convivem com o problema, um índice considerado alto quando comparado à média global, de 2,6%.
De acordo com o psiquiatra Vitor Hugo Stangler, do Hospital Jayme da Fonte, a compulsão alimentar não deve ser vista como um transtorno isolado. “A compulsão alimentar é um sintoma que pode fazer parte de várias doenças, tanto do transtorno de compulsão alimentar quanto da bulimia”, explica.
O psiquiatra Vitor Hugo Stangler, do Hospital Jayme da Fonte – Artur Borba/JC Imagem
Compulsão alimentar: sinais e mitos
Entre os principais sinais do quadro estão a perda de controle sobre o ato de comer, mesmo sem fome física, e o sofrimento emocional logo após os episódios. Quando essas crises se tornam recorrentes, como uma vez por semana ou mais, o alerta se acende para a necessidade de acompanhamento especializado.
“O grande mito da compulsão alimentar é achar que se trata de falta de força de vontade. Na realidade, o transtorno está associado a alterações neurobiológicas no sistema de recompensa do cérebro e a déficits no controle de impulsos. O paciente, de fato, não consegue controlar esse comportamento”, reforça o psiquiatra.
Outro equívoco comum, segundo o especialista, é associar a compulsão apenas a pessoas com obesidade. “Esse é outro mito. A compulsão alimentar não acontece apenas em pessoas com sobrepeso. Ela pode afetar indivíduos com peso considerado adequado”, destaca.
Redes sociais, pressão estética e Ozempic

Médicos têm prescrito (em regime sem estar na bula) Ozempic também para tratar pacientes com sobrepeso ou obesidade – DIVULGAÇÃO
A influência das redes sociais também aparece como um fator importante nesse cenário. A exposição constante a padrões irreais de beleza e à valorização extrema da magreza impacta diretamente a saúde mental e o comportamento alimentar.
“As redes sociais não impactam apenas a compulsão alimentar, mas todos os transtornos alimentares. O ideal de beleza associado ao corpo magro faz com que muitos pacientes busquem, de forma insistente, maneiras de emagrecer. E aqueles que já têm dificuldade no controle do impulso acabam ficando ainda mais vulneráveis”, pontua Vitor Hugo Stangler.
Nos últimos anos, medicamentos como o Ozempic ganharam popularidade, especialmente nas redes sociais, como suposta solução rápida para emagrecimento. No entanto, o uso indiscriminado pode trazer riscos, sobretudo para pessoas com histórico de transtornos alimentares.
“A indicação do Ozempic é para pacientes com obesidade ou diabetes, sempre com acompanhamento médico. Ele não é um tratamento para compulsão alimentar“, alerta Vitor Hugo Stangler. Segundo o psiquiatra, o uso inadequado pode até mascarar sintomas temporariamente, mas não trata as causas do transtorno, que estão ligadas ao funcionamento cerebral, ao controle dos impulsos e à saúde mental do paciente.
Quando procurar ajuda profissional?
O acompanhamento médico se torna fundamental quando os episódios de compulsão passam a gerar sofrimento emocional frequente, prejuízos à rotina ou sensação constante de perda de controle. Nesses casos, o tratamento costuma envolver uma equipe multidisciplinar, com atuação integrada entre psiquiatria e nutrição.
“A compulsão alimentar não é um transtorno metabólico ou físico, é um transtorno psiquiátrico, e precisa de um cuidado da psiquiatria, que terá um papel de, muitas vezes, psicoeducar e explicar para aquele paciente o que ele está passando, qual é a situação que ele vem vivenciando, mas também tratar essas questões que estão associadas. Então, o papel da psiquiatria também é tratar esse quadro que está associado, que está perpetuando o adoecimento da compulsão alimentar”, finaliza.
Hospital Jayme da Fonte
O Hospital Jayme da Fonte, localizado do bairro das Graças, Zona Norte do Recife, conta com uma equipe de profissionais preparados para oferecer o cuidado com pacientes que enfrentam questões de saúde mental, com uma avaliação especializada, escuta qualificada e acompanhamento contínuo.






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