Da contestação do resultado eleitoral aos atos terroristas, sequência de ações culminou na invasão e depredação das sedes dos Três Poderes
Agência Brasil
Publicado em 08/01/2026 às 11:02
| Atualizado em 08/01/2026 às 14:15
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As imagens da depredação das sedes dos Três Poderes da República, ocorrida em 8 de janeiro de 2023, completam três anos nesta quinta-feira (8). O episódio correu o mundo e entrou para a história como uma das páginas mais dramáticas e sombrias da trajetória da democracia brasileira.
Naquela tarde nublada de domingo, em Brasília, milhares de apoiadores do então ex-presidente Jair Bolsonaro, derrotado nas urnas dois meses antes, marcharam pela Esplanada dos Ministérios, romperam um bloqueio policial e invadiram o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal (STF), destruindo tudo o que encontravam pelo caminho.
O ataque reafirmava um pedido que já ecoava em segmentos extremistas da sociedade: a defesa de um golpe de Estado para depor o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, eleito democraticamente e empossado havia apenas uma semana.
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A invasão representou o marco culminante da chamada trama golpista, um conjunto de atos e movimentações – alguns articulados entre si, outros mais isolados – que tinham como objetivo final romper a ordem democrática e manter o grupo bolsonarista no poder.
Segundo a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR), que levou à condenação de Jair Bolsonaro e aliados no STF, o plano de ruptura começou a ser delineado ainda em 2021, poucos dias após Lula recuperar sua elegibilidade.
A partir daquele momento, o núcleo da organização criminosa passou a cogitar que o então presidente da República afrontasse e desobedecesse decisões do Supremo Tribunal Federal e defendesse a deslegitimação do processo eleitoral brasileiro em caso de derrota.
Com a confirmação da derrota eleitoral de Bolsonaro no pleito de 30 de outubro de 2022, uma sequência de episódios passou a se espalhar pelo país, incluindo protestos golpistas, atos de violência e ações de cunho terrorista. A seguir, a Agência Brasil reconstitui, de forma cronológica, os fatos ocorridos entre o fim das eleições e o 8 de janeiro.
Bloqueios de rodovias
Em uma das eleições presidenciais mais acirradas da história do Brasil, Lula venceu Jair Bolsonaro com 50,9% dos votos válidos, contra 49,1%. O resultado não foi bem recebido por apoiadores do então presidente – nem por ele próprio, que demorou dois dias para se pronunciar e o fez de maneira ambígua, alimentando especulações golpistas.
Na mesma noite do domingo da apuração, enquanto eleitores de Lula comemoravam em diversas cidades, grupos de caminhoneiros e apoiadores de Bolsonaro iniciaram bloqueios de rodovias em vários estados. De acordo com a Polícia Rodoviária Federal (PRF), foram registradas mais de mil interdições totais ou parciais em estradas federais.
Os bloqueios atingiram o auge nos primeiros dias de novembro, provocando transtornos como riscos pontuais de desabastecimento e cancelamentos de voos em aeroportos. Diante da pressão, Bolsonaro veio a público pedir a desobstrução das rodovias, em sua primeira manifestação após o resultado das urnas. Na declaração, agradeceu aos votos recebidos, mas não parabenizou o adversário pela vitória.
Com o passar dos dias, os bloqueios perderam força e foram encerrados ainda no fim da primeira semana de novembro.
Acampamentos em quartéis
Após o enfraquecimento dos bloqueios rodoviários, grupos bolsonaristas passaram a montar acampamentos em frente a quartéis das Forças Armadas em cidades como Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Florianópolis, Salvador, Recife e municípios do interior. Nos locais, os manifestantes exigiam intervenção militar e questionavam a legitimidade das eleições.
Foram registrados mais de 100 acampamentos em todo o país. O principal deles foi montado em frente ao Quartel-General (QG) do Exército, na capital federal, de onde partiram os manifestantes que invadiram e depredaram a Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023.
Diferentemente dos bloqueios nas rodovias, Bolsonaro não pediu o fim dos acampamentos. Segundo a denúncia da PGR, as estruturas tiveram aval direto do então presidente da República e seriam usadas como justificativa para uma eventual intervenção militar. Entre as provas citadas está uma nota dos comandantes das três Forças Armadas autorizando a permanência dos manifestantes em frente aos quartéis por ordem de Jair Bolsonaro.

Manifestantes bolsonaristas mantêm acampamento em frente ao Quartel-General do Exército, em Brasília, pedindo intervenção militar após a derrota eleitoral de Jair Bolsonaro. – Marcello Casal Jr./Arquivo Agência Brasil
Os acampamentos deram novo fôlego ao movimento golpista e se transformaram em centros de conspiração, contando com indiferença e até conivência de autoridades. A logística de manutenção desses espaços — com alimentação e alojamento para milhares de pessoas — foi posteriormente alvo de processos no STF, que resultaram na condenação de envolvidos diretos.
Atos terroristas e violência política
Ao longo de novembro e início de dezembro de 2022, a tensão nos acampamentos, a recusa em reconhecer a derrota eleitoral e até uma ação do PL, partido de Bolsonaro, no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), pedindo a invalidação de votos de parte das urnas eletrônicas, intensificaram o ambiente golpista. Em dezembro, os episódios passaram a escalar para a violência política explícita.
No dia 12 de dezembro de 2022, data da diplomação de Lula no TSE, Brasília viveu uma de suas noites mais violentas. Manifestantes bolsonaristas tentaram invadir a sede da Polícia Federal (PF) e promoveram protestos que fecharam o Setor Hoteleiro Norte e parte do Eixo Monumental. Diversos carros e ônibus foram incendiados.
Na véspera de Natal, em 24 de dezembro de 2022, o motorista de um caminhão-tanque de combustível estacionado nas proximidades do Aeroporto Internacional de Brasília identificou um artefato explosivo no veículo e acionou a polícia. O episódio revelou uma tentativa de atentado a bomba organizada por apoiadores de Bolsonaro ligados ao acampamento do QG do Exército. A tragédia não ocorreu porque o explosivo falhou.
Dois dos envolvidos foram condenados pela Justiça do Distrito Federal ainda em 2023 pelos crimes de explosão, incêndio e posse de arma de fogo. As investigações apontaram que o objetivo era causar grande comoção social e precipitar uma intervenção militar.
No fim do ano passado, George Washington de Oliveira Sousa, Alan Diego dos Santos Rodrigues e Wellington Macedo de Souza, envolvidos na tentativa de atentado, tornaram-se réus no STF pelos crimes de associação criminosa, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, tentativa de golpe de Estado e atentado contra a segurança do transporte aéreo.
Os episódios de violência em dezembro elevaram ainda mais o nível de alerta. As autoridades montaram um forte esquema de segurança para a posse de Lula, em 1º de janeiro de 2023. O evento ocorreu sem intercorrências, o que gerou uma sensação momentânea de tranquilidade, quebrada exatamente uma semana depois, com os atos golpistas de 8 de janeiro.

Bolsonaristas invadem e depredam as sedes dos Três Poderes, em Brasília, em 8 de janeiro de 2023, uma semana após a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva – Marcelo Camargo/Arquivo Agência Brasil
Por memória e democracia
Para marcar os três anos da invasão, eventos em defesa da democracia ocorrem nesta quinta-feira. No Palácio do Planalto, o presidente Lula participa de uma cerimônia com autoridades e representantes da sociedade civil, realizada anualmente como forma de reafirmar os valores democráticos após a depredação das sedes dos Três Poderes.
O Supremo Tribunal Federal também preparou uma programação especial dentro da campanha Democracia Inabalada.
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