Livros de fãs de Harry Potter se afastam de J.K. Rowling e conquistam público

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Livros de fãs de Harry Potter se afastam de J.K. Rowling e conquistam público


Harry Potter, o bruxo que sobreviveu, também venceu o fim fora das páginas. Mais de 25 anos após publicação de seu primeiro volume, o universo criado por J.K. Rowling se multiplica não só pelas mãos da autora.

Histórias que nasceram como fanfics, escritas por fãs e publicadas gratuitamente na internet, estão agora chegando ao mercado de publicação tradicional.

As narrativas se dividem entre as extraoficiais e as canônicas —ou seja, tudo o que realmente aconteceu dentro de uma história, conforme validado por Rowling.

Desde que os livros foram lançados, fãs elaboram tramas paralelas sobre aquele universo, e elas ganham seus próprios fãs. Criar fanfics é o jeito que entusiastas da série usam para explorar novos temas e ideias e alimentar um universo que já caminha com as próprias pernas.

“Alchemised”, de SenLinYu, é o exemplo mais simbólico de como “Harry Potter” se tornou fonte para novas histórias. A obra nasceu da fanfic “Manacled”, publicada originalmente no site especializado Archive of Our Own (nosso próprio arquivo, em tradução livre), e foi lançada como livro há pouco pela editora Intrínseca.

No site, a fanfic era uma das mais lidas, com mais de 10 milhões de visualizações. Foi retirada do ar depois do lançamento do livro, um calhamaço de 960 páginas que saiu em 25 países, já tendo vendido 50 mil exemplares no Brasil e mais de 1 milhão só no primeiro mês em livrarias americanas.

“Alchemised” reimagina o mundo de Harry Potter em meio a uma guerra mais violenta que a retratada na obra original. O ponto central da história de SenLinYu é o romance entre Draco Malfoy e Hermione Granger, dois personagens que nunca se envolveram na obra de Rowling.

Há todo um subgênero de fanfics em que Draco e Hermione são um casal, chamado de “Dramione”. Coincidentemente ou não, outros títulos que chegaram às livrarias brasileiras neste semestre também nasceram de fanfics sobre esse par.

“A Rosa Acorrentada”, de Julie Soto, agora publicado pela Harlequin, é um exemplo. E “O Irresistível Desejo de Amar Quem Tanto Odeio”, de Brigitte Knightley, que sai pela Plataforma 21, conta uma história inédita com os mesmos personagens que antes integravam uma fanfic da autora.

Beatriz Paludetto, criadora de conteúdo sobre livros, acredita que o apelo desse romance mora no fato dos personagens representarem lados opostos do universo, ele sendo um nobre e ela uma plebeia.

Esses livros, porém, chegam às livrarias sem nenhuma menção a Harry Potter. Nomes de personagens e detalhes da história foram modificados para que possam se sustentar como livros próprios, afastando a relação com J.K. Rowling.

Julia Barreto, editora da Harlequin, explica que descolar a obra de sua inspiração é também uma forma de não desmerecer o trabalho do autor que é seu criador, independentemente de onde ela começou.

“O principal desafio quando você traz uma fanfic para um mercado tradicional é conseguir tornar a história interessante e sólida sem depender do conteúdo original”, afirma.

Além de evitar acusações de plágio e taxações por direito autoral, o desligamento da figura de Rowling ainda tem a ver com polêmicas envolvendo a britânica, alvo de cancelamento desde que passou a repercutir falas transfóbicas.

“O que eu não entendo é por que as editoras vão atrás de romances héteros e não dos romances gays que mais fazem sucesso no site”, aponta Paludetto, a influenciadora.

Ao comparar os números no Archive of Our Own, vê-se que os três subgêneros românticos de maior sucesso têm casais gays como protagonistas. Hermione e Draco são o quarto par mais popular do universo paralelo, atrás até do casal Draco e Harry Potter.

O universo das fanfics é muito diferente dos livros publicados, diz a influenciadora, tanto no conteúdo quanto na forma. A história original não tem casais gays ou personagens trans, mas as fanfics são um espaço de liberdade em que os leitores podem imaginar novas formas de viver essas histórias.

“Muitas vezes as fanfics são interpretadas como algo feito a partir de um lugar de adoração, quando, na verdade, ela nasce com a mesma frequência de algum tipo de frustração”, aponta SenLinYu, de “Alchemised”.

Segundo SenLinYu, artista que se identifica como uma pessoa não binária, fanfics muitas vezes surgem da vontade de expandir algum elemento ou tema que parece ter sido abordado de forma insuficiente na história original.

A fanfic, para SenLinYu, “é um espaço dominado por indivíduos que não se sentem representados nas narrativas e na literatura tradicional”. A criação de histórias, então, vai muito além da repetição do que já foi contado.



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