Sem o movimento da mão direita, músico revisita sua trajetória com lucidez e sem falsa modéstia: “99% dos frevos tocados têm o meu tempero”
Emannuel Bento
Publicado em 22/12/2025 às 21:22
| Atualizado em 22/12/2025 às 21:30
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José Urcino da Silva, o Maestro Duda, completa 90 anos neste 23 de dezembro. A comemoração ocorre na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Piedade, em Santo Amaro, no Centro do Recife, a partir das 19h. São quase nove décadas também dedicadas ao frevo, já que ele começou a tocar aos 8 anos, ainda quando vivia em Goiana.
Após sofrer um acidente vascular cerebral (AVC), em 2022, o músico perdeu o movimento da mão direita. Destro, ele não consegue mais tocar instrumentos como corneta, oboé e flauta.
“Mas o AVC não me tirou de campo”, frisa o músico, ao JC. “Aprendi a mexer no computador com a mão esquerda. Daí voltei a compor, não na mesma velocidade de antes. Faço devagarinho, penso tudinho. Fiz, por exemplo, um dobrado chamado ‘Dobrado do Homem de um Braço Só'”, diz, bem-humorado, em referência à sua condição.
De acordo com o filho, Marcos Carneiro, Duda está relativamente bem, mas ainda precisa de tratamento, principalmente fisioterapia. “Mas é muito caro manter, e ele ir para a clínica é muito puxado.”
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Sem falsa modéstia

Maestro Duda em sua residência, no bairro da Boa Vista – EMANNUEL BENTO/JC
Bastante lúcido, o músico consegue relembrar detalhes de todos os períodos da vida e não tem falsa modéstia ao reconhecer seus feitos. “Noventa e nove por cento dos frevos tocados em Pernambuco têm o meu tempero. Você vê ali um frevo mais agressivo, um pouquinho mais ligeiro. Esse foi o modernismo que eu coloquei.”
As paredes de seu apartamento, na movimentada Rua Barão de São Borja, no bairro da Boa Vista, são repletas de placas de honrarias e homenagens — como o título de Doutor Honoris Causa pela UFRPE. “As universidades do mundo inteiro não estão mais apenas ensinando Beethoven, estão ensinando Duda. É engraçado, mas é isso.”
Duda é, desde 2010, Patrimônio Vivo de Pernambuco. Somam-se a isso comendas como a Ordem dos Guararapes e a Medalha do Pacificador, a mais alta honraria do Exército Brasileiro.
Tempos do rádio

Contra capa de Maestro Duda e Sua Orquestra – Frevo, da década de 1970 – ESTILHAÇOS DISCOS/REPRODUÇÃO
Como ressalta Carlos Eduardo Amaral, autor de “Maestro Duda — Uma Visão Nordestina” (Cepe), Duda é um maestro da segunda geração do frevo, marcada pela forte presença nas rádios — e que precisou adaptar o ritmo à influência das jazz bands no Brasil do pós-Segunda Guerra Mundial.
Foi justamente numa rádio, a Jornal do Commercio, que José Urcino virou Maestro Duda. O nome foi ideia do diretor artístico Amarílio Nicéas. “Ele dizia que José Urcino não soava bem”, relembra.
“Eu vim para o Recife fazer parte da Jazz Band Acadêmica, que era formada por estudantes e tinha entre seus fundadores Capiba. Foram me buscar em Goiana. Essa banda foi contratada para tocar na rádio, porque naquele tempo a programação era ao vivo. A gente entrava às 11h e ia até as 13h com os cantores”, diz.
Contribuição sinfônica
Em 1964, Duda ingressou na Orquestra Sinfônica do Recife, após a abertura de uma vaga para oboísta. Foram 42 anos dedicados à orquestra.
“Quando comecei na sinfônica, comecei a estudar música clássica e entendi que aquelas músicas nada mais eram do que a música popular do tempo deles. Então pensei: vou fazer aqui meu baião, meu xote, meu frevo, meu maracatu. Comecei a fazer minha produção, que hoje as orquestras tocam no mundo todo”, afirma, destacando a célebre Suíte Nordestina, que mescla fanfarra, serenata, maracatu e frevo.
Inovações

Primeiro vôo do internacional do frevo para Miami, em 1984 – ACERVO MAESTRO DUDA
“O frevo já nasce pronto”, define, ao ser questionado sobre como contribuiu para a evolução do ritmo. “O frevo é para quem toca instrumento de sopro no meio da rua, como eu já toquei. É para quem conhece o timbre, a altura e até o lado do músculo que toca, entendeu? Para fazer o frevo na medida de ser tocado.”
Segundo Duda, o frevo se tornou mais rápido ao longo do tempo, acompanhando também a velocidade da fala das pessoas. “Eu já peguei uma geração mais evoluída nesse sentido, que fala mais ligeiro. O baiano mesmo era a moléstia de ligeiro. Mas aquilo que eles faziam não era frevo, era galope.”
Ainda falando da Bahia, Duda se orgulha de ter ensinado frevo a um de seus grandes nomes: Moraes Moreira, que deu um “sotaque baiano” ao ritmo.
Asas da América



Em termos de gravações, Duda admite que, por muito tempo, ficou preso às amarras de Nelson Ferreira, maestro da fábrica de discos Rozenblit, onde Urcino atuava como assistente. “Ele era de outro tempo, não mudava os arranjos dele nem os de Capiba. Eu mantinha aquele padrão.”
Nos estúdios, acredita que pôde inovar mais ao ser convidado para a coletânea “Asas da América” (1979), organizada por Carlos Fernando. Foi ele quem criou os arranjos de “Voltei, Recife”, na voz de Alceu Valença.
“Ali, sim, eu botei tempero meu, que até hoje é o tempero do frevo. Noventa e nove por cento dos frevos tocados em Pernambuco têm o meu tempero. A partir daí, agora é todo mundo imitando Duda. Tudo o que você vê por aí é imitação minha”, diz, orgulhoso.
Durante o período de isolamento social causado pela Covid-19 — um momento que exigiu força coletiva para manter a esperança —, o som de uma corneta ecoava pelos arredores da Rua Barão de São Borja, entoando instrumentalmente a “Ave Maria”. “Sempre às 18h, todo dia, eu tocava. O povo até se acostumou. Foi a coisa mais bonita do mundo.”
Hoje, o som cessou. Mas ali ainda reside uma memória viva da cultura pernambucana, que precisa ser valorizada e celebrada sempre por suas contribuições.

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