Opinião – Gustavo Alonso: A morte da música brasileira nas estradas do país

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
Opinião – Gustavo Alonso: A morte da música brasileira nas estradas do país


No último dia 7, morreu o cantor Mauri, irmão da dupla Chitãozinho & Xororó. Ele cantava com Maurício desde 1991, quando pegaram a esteira do sucesso dos irmãos famosos. Mauri morreu em acidente de carro, algo infelizmente muito comum na música brasileira.

A carreira não teve o sucesso de Chitãozinho & Xororó, mas Maurício & Mauri continuavam na ativa. Eles voltavam de um show em Curitiba, em direção a Indaiatuba, quando o motorista da van da dupla teve um mal súbito. O automóvel colidiu com a traseira de uma carreta, e Mauri, que estava no banco da frente, morreu, assim como um produtor. O irmão Maurício teve ferimentos leves.

Acidente na estrada é uma das causas de mortes mais comuns de artistas da música brasileira. Em um país continental baseado na locomoção automobilística, tornou-se comum aceitarmos isso como algo que faz parte do destino.

O saudoso Francisco Alves, um dos maiores ídolos do rádio brasileiro, morreu aos 54 anos em um acidente de carro na Via Dutra, perto de Pindamonhangaba (SP), em 1952. Maysa, ícone da música brasileira, morreu aos 40 anos em um acidente na ponte Rio-Niterói em 1977. Gonzaguinha morreu assim também, em 1991, no interior do Paraná, aos 45 anos.

Uma das mortes mais lamentadas em Pernambuco foi a de Chico Science, fundador do movimento Manguebeat. Ele morreu em 1997 em um acidente de carro entre as cidades de Recife e Olinda, aos 30 anos.

O funk também tem o que lamentar. O cantor Claudinho, da dupla com Buchecha, morreu em em 2002 na Rodovia Presidente Dutra. O fim da dupla também selou o fim do enorme sucesso do parceiro, que nunca mais ocupou o mesmo lugar no show bizz. O mais jovem desta lista, Claudinho morreu aos 26 anos.

Quanto mais popular o gênero musical, mais o artista está exposto às estradas brasileiras. Artistas da música brega, por exemplo, estão expostos cotidianamente.

Evaldo Braga morreu em um acidente em 1973, perto da cidade de Três Rios, próximo à divisa dos estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais, quando seu carro chocou-se de frente com uma carreta. O “ídolo negro”, como era conhecido, tinha apenas 27 anos.

O cantor brega Jessé morreu em 1993, aos 40 anos, quando perdeu o controle numa curva em alta velocidade no interior do Paraná. Gostava de correr. Sua mulher, que estava grávida, perdeu a filha, mas sobreviveu.

O cantor potiguar Carlos Alexandre, conhecido por sucessos no estilo brega-romântico, com canções como “Feiticeira” e “Cartas Marcadas”, morreu tragicamente em 29 de janeiro de 1989, aos 33 anos, vítima de um acidente nas proximidades de João Pessoa.

A música sertaneja possui grande quantidade de acidentes assim, talvez por ser a música mais popular do país há décadas. Em 1972 Belmonte, da dupla com Amaraí, acidentou-se. Famoso na época pela canção “Saudade da Minha Terra”, tinha 34 anos quando morreu na estrada em Santa Cruz das Palmeiras (SP).

João Paulo, cantor sertanejo que fazia dupla com Daniel, morreu carbonizado na rodovia dos Bandeirantes, em São Paulo, após seu carro capotar e pegar fogo, aos 37 anos, em 1997.

Cristiano Araújo morreu em 2015, aos 29 anos, calando um dos mais promissores artistas de sua geração sertaneja. O acidente em Goiás também vitimou sua namorada.

Todos os anos morrem duplas sertanejas de menor expressão nas estradas, e vale lembrar que a morte automobilística flertou com dois dos maiores nomes do gênero. O irmão de Zezé Di Camargo morreu na infância em um acidente de carro, e o filho do cantor Leonardo quase morreu em um acidente em 2012.

Se a morte ronda perto, há aqueles artistas que flertaram com ela, mas salvaram-se. Luiz Gonzaga é o caso mais notório. Amante do acelerador e desleixado com a parte mecânica, o rei do baião teve três graves acidentes automobilísticos ao longo da vida. No pior deles, a caminho de seu sítio em Miguel Pereira (RJ), em 1961, sofreu uma fratura no crânio. Após um mês hospitalizado, ficou cego do olho direito. A partir desse acidente, adotou óculos escuros como parte de sua indumentária, de forma a camuflar o olho de vidro.

Num país sem opção de transporte ferroviária, bem mais segura, os artistas ficam espremidos entre os automóveis e os vôos em teco-tecos, igualmente perigosos. Gonzaga cantava que sua vida “era andar por esse país”. Mas essa vida tem um grande custo para os artistas populares, que se expõem às perigosas vias do Brasil.

Ano após ano os acidentes nas estradas e ruas do país matam mais que a violência pública. Mas isso nunca nos escandaliza. Mesmo que nossos ídolos sejam as vítimas.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.



Source link

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

Nunca perca uma notícia importante

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *