Nas últimas semanas, a banda indie paulistana Pelados divulgou fotos do grupo misteriosamente vestido com jalecos de cientista, para a promoção de seu novo álbum, “Contato”, lançado na última quinta-feira pelo selo Risco. O disco é de fato um grande laboratório que mistura emoções.
O álbum é o terceiro do grupo, formado por Manu Julian na voz, Lauiz nos sintetizadores, Helena Cruz no baixo, Theo Ceccato na bateria e Vicente Tassara na guitarra. Ceccato e Tassara, aliás, também são integrantes da banda Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo, que se apresentou no Lollapalooza, em São Paulo, em março passado.
Se o disco anterior, “Foi Mal”, lançado em 2022, foi gravado de forma fortuita e frenética, durante uma estada de dez dias na casa de Lauiz, “Contato” é fruto de um tempo maior de elaboração, por uma banda mais consolidada. Mas uma coisa não mudou —a piada.
À primeira vista, o álbum já desperta curiosidade pelo caráter inusitado dos títulos. “Planeta Oxxo”, “Os Pelados Sabem Demais” e “Instruções para Descongelar o Gilberto Gil no Espaço” demonstram uma irreverência e despretensão em falta na indústria musical, que cada vez mais coleciona artistas preocupados em se levar a sério.
É na despretensão e no humor escrachado que as letras ganham, também, a sua força. A banda não precisa se apoiar em formalismos ou metáforas rebuscadas, consegue soltar à queima-roupa frases como “haxixe, embaixo do Brasilit, você sabe eu confiei no Titi”.
O single do álbum é a faixa “Estranho Efeito”, que faz uma interpolação da música “This Strange Effect”, da banda britânica The Kinks. Vale dizer isso para que se note a diversidade de referências que compõem o álbum, que reúne clássicos do rock, como os Kinks; símbolos da música experimental, como Björk; nomes do som disco dos anos 2000, como o grupo LCD Soundsystem; e figuras em ascensão, como Charli XCX, com seu “hyperpop”. Isso forma uma maçaroca sonora inesperada.
O groove da bateria de Ceccato e do baixo de Cruz traz uma luz dançante para o disco, e as interferências e distorções de Tassara, Lauiz e Julian dão o ar experimental da obra. Dessa forma, o grupo consegue flutuar com facilidade pelo estranho e pelo conhecido, pelo inusitado e pelo familiar, mas, acima de tudo, parece conseguir fazer esses dois mundos, aparentemente contraditórios, coexistirem.
A faixa “E Aí, Beleza?” relembra o álbum “Hi, How Are You”, de Daniel Johnston, mas, mais do que uma homenagem ao americano, soa como uma tentativa de o grupo viver o que ele experimentou. Assim como Johnston, a banda parece ir descobrindo sua música com o ouvinte, enquanto martela as teclas do teclado e balbucia sílabas na esperança de achar a vocalização certa.
Uma forte influência das artes visuais e do cinema também se manifesta no álbum. Em muitos momentos, a sensação é a de como se estivessem, na verdade, cantando com as mãos, construindo uma colagem feita de conversas de bar, áudios da missão Apollo 11 e até trechos do próprio disco. Exemplo disso é a penúltima faixa, “Star Trek: Primeiro Contato“, composta a partir de fragmentos de outras músicas do álbum.
Essa colagem de improváveis combinações e recombinações se dá pela versatilidade da banda. Todos os Pelados compuseram, tocaram e produziram o álbum. Esse trabalho coletivo permitiu uma diversidade de elementos e, assim, o disco parece não ter a cara de ninguém, ao mesmo tempo em que tem a cara de todos.
Talvez, depois de ouvir o álbum, as fotos no laboratório e os jalecos deixem de ser tão misteriosos assim. Pelados se mostra, nesse trabalho, uma banda que valoriza muito mais o processo do que o fim, que aprecia os sons que o grupo consegue alcançar e aceita também aqueles que escapam. Que sabe brincar com o erro, o acaso e a sujeira, na contramão de muitas bandas que têm medo do risco e só miram no acerto.

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