O estilista Conrado Segreto, que chacoalhou São Paulo na virada dos anos 1980 para os 1990, foi um vulcão em erupção. Um garoto de topete que antes de chegar às salas de seu ateliê passava os dias desenhando drapês, vestidos e saias obsessivamente nos cadernos do colégio Equipe, uma das instituições mais politizadas de São Paulo.
“Ele fazia aquilo de forma constante, no caderno inteiro. Vez ou outra, encaixava algum assunto da matéria ali no meio. Era espantoso o quanto já era profissional”, lembra a artista plástica Leda Catunda, que o conheceu em 1976, no primeiro ano do colegial, e já percebia o tipo de bolha na qual o colega excêntrico se fechava. “Mais tarde, quando comecei a acompanhar a evolução dele, entendi que o Conrado estava fazendo a coisa certa.”
Para Segreto, a tristeza do universo não podia estar na roupa. Movida pelo desejo de recuperar o legado de Conrado, que adorava vestir mulheres exuberantes, sua irmã Rita Segreto, guardiã do espólio do estilista, abriu as portas do acervo, que tem mais de 80 looks e incontáveis cadernos de ilustrações, para Anna Carolina Bassi e Caio Campos, cofundadores da marca Carol Bassi.
O flerte, iniciado há três anos, se concretizou no projeto “Carol Bassi Visita Conrado Segreto”, uma coleção que será apresentada nesta terça-feira, dia 26. Julia Segreto, filha de Rita, foi responsável por reviver as criações do tio. “Escolhi essa profissão por causa dele e isso mexe comigo em um lugar íntimo”, diz.
O resultado é uma sequência de 31 looks que combina criações atemporais com o instinto da sobrinha, em estampas clássicas e materiais que vão do tweed à mousseline de seda, com detalhes dourados, fitas de gorgurão e plissados.
As musas de Conrado que rodopiavam em suas passarelas estarão no casting da apresentação na ponte que liga os dois lados da marginal Pinheiros, incluindo Silvia Pfeifer, Claudia Liz e Alessandra Berriel. “Ele via personagens em cada roupa, como se ela tivesse personalidade própria”, diz Pfeifer.
Após o evento, as obras originais de Segreto poderão ser vistas na mostra “Conrado Segreto, Agora e Sempre”, aberta até o dia 7 de setembro no Shopping Cidade Jardim. “É importante resgatar a memória da moda brasileira, mas o mais bacana é que isso envolve também a Belas Artes, que tem um campus aqui no shopping”, diz Bruno Astuto, CCO do Grupo JHSF, sobre o acesso da nova geração acadêmica ao passado nacional.
“Sinto que o tempo está, enfim, fazendo justiça à sua memória”, celebra Gloria Coelho, que contratou Segreto como assistente para a sua grife G, em 1985.
“Conrado inventou a roupa de ateliê mais ousada e mudou o mercado”, recorda Costanza Pascolato. “Ele representou para o Brasil o que Karl Lagerfeld foi para o mundo”, comenta Jum Nakao, que, aos 19 anos, fez parte da Cooperativa de Moda, grupo criado em 1986 por Walter Rodrigues, ao lado de Segreto e que, após duas coleções, se dissolveu.
Com urgência para fazer o primeiro desfile, raspou as economias, pegou um empréstimo no banco, sem saber como pagaria, e fez sua estreia na Casa Rhodia, em 1989. Eram vestidos acima do joelho, usados com meias-calças pretas, parkas de mousseline de seda com estampa de zebra e capuz de plumas, que oscilavam entre a peruagem pura e os modelitos de linhas limpas para coquetéis com decotes V profundos.
No jardim da FAAP, em 1990, a assinatura já consolidada apresentava uma mistura de texturas, ráfia, pele sintética de onça, zibelina, preto e branco e rosa. Para o terceiro espetáculo, no Museu do Ipiranga, a passarela de 80 metros contornava a piscina, levando à cena peças costuradas à mão com pelo menos 12 metros de tecido.
Os desfiles de Conrado Segreto deixavam socialites encantadas, críticos impressionados e o mercado fora do tédio. Cada apresentação deixava claro que um frescor havia chegado à moda brasileira. “Resgatou o desejo da roupa sob medida, criando uma mulher feminina e forte”, diz a jornalista e consultora de moda Lilian Pacce.
“De repente, surge esse gênio e deixa todo o segmento em polvorosa”, diz Paulo Borges, fundador da São Paulo Fashion Week, que naquela década começou a produzir os espetáculos de Conrado.
Entre 1989 e 1991, Segreto reviveu uma elegância atropelada pelo jeanswear e pelo prêt-à-porter nacional, subvertendo a subserviência ao estilo europeu e aos movimentos minimalistas belga e japonês. “Ele se considerava um ‘Joãosinho Trinta’. Amava os códigos brasileiros e o Carnaval, sua forma de transgressão”, conta Rita, irmã do estilista.
Dono de uma silhueta que exalava feminilidade, preferia plumas, paetês e luvas coloridas às absurdas calças de Yohji Yamamoto, apelidadas por ele de “calça de uma perna só”, usadas em solo brasileiro. Do seu ateliê, na Vila Nova Conceição, também saíram figurinos para peças de teatro e um guarda-roupa para edição especial da primeira década da boneca Barbie no Brasil.
A morte precoce de Segreto, em 1992, aos 32 anos, devido a complicações do HIV, interrompeu o sonho de escalar a via íngreme do luxo sob medida com irreverência. Mesmo já sentindo o avanço da doença, Conrado acreditou, ao lado da irmã e do médico Drauzio Varella, que o primeiro retroviral, o Interferon, chegaria a tempo para reverter a situação.
No seu horizonte, além dos croquis prontos para a coleção de 1993, estava a realização de morar em Nova York e o trabalho como estilista na Max Mara. Não houve tempo. A sua partida deixou seu nome esquecido, um capítulo brilhante deixou de ser escrito por mais de 30 anos na moda brasileira, mas que, finalmente, ressurge.

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