Opinião – Gustavo Alonso: Podcast sobre Marília Mendonça apaga pontos críticos da trajetória da cantora

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Opinião – Gustavo Alonso: Podcast sobre Marília Mendonça apaga pontos críticos da trajetória da cantora


A morte de Marília Mendonça em um trágico acidente aéreo em 2021 causou comoção geral. Houve naquela época uma disputa banal entre direitas e esquerdas pela memória de Marília que gerou cancelamentos, adulações e apropriações.

Eis que, com o passar do tempo, algumas disputas sobre a trajetória da cantora começam a ser apagadas pelos memorialistas. É o que acontece no podcast “Marília: o outro lado da sofrência”, lançado pelo G1 nas plataformas de streamings. Produzido e apresentado pela jornalista Carol Prado, com roteiro dela e de Carolina Brandão, o podcast é dividido em cinco episódios, o último dos quais lançado esta semana.

Marília: o outro lado da sofrência” defende insistentemente a tese de que Marília Mendonça colocou a mulher no centro da narrativa do sertanejo, subvertendo uma realidade machista. A beleza fora dos padrões da cantora também é elencada para legitimar a pauta, sem problematizar que ao fim de sua trajetória, Marília foi se tornando alguém muito dentro do padrão.

Amigos, empresários, familiares, parceiros, artistas: todos endossam essa narrativa sobre Marília. Nenhuma voz dissonante é consultada.

Quando a grande mídia aborda a música sertaneja, há uma tendência a fugir de qualquer polêmica. Sem uma análise crítica, acabamos pouco compreendendo o fenômeno que é a música sertaneja no Brasil, suas tensões e disputas internas.

No podcast nada se fala sobre o fato de Mendonça ter se posicionado contra Bolsonaro, por exemplo. E nada foi dito sobre ela ter recuado dessa crítica, cedendo à pressão dos seus pares. Tampouco nada foi abordado sobre o “feminismo de patroa” de Marília, postura um tanto problemática num país tão desigual, onde confunde-se empoderamento com classismo.

A primeira live da cantora durante a pandemia é incensada. Foi de fato um marco, a maior live do planeta na época. Mas nada é dito sobre a live de agosto de 2021, quando Marília fez uma brincadeira maldosa com um músico de sua banda que teria se relacionado com uma transexual.

Há alguns lampejos de complexificação que poderiam ter sido aprofundados. Por exemplo, quando o podcast recupera uma das primeiras entrevistas com Marília sobre feminismo, na qual ela disse: “Eu acho que o feminismo diminui a mulher muitas vezes”. O que seria uma interessante complexificação do tema a partir de um personagem que não se via dentro da pauta militante, é logo desprezado pela narrativa ideologizada em excesso.

No início do podcast é dito que Marília e Maiara e Maraísa teriam brigado e ficado um ano sem se falar. Perde-se a chance de aprofundar o tema, porque convém mais falar de sororidade do que disputas internas do meio. Uma pena.

O podcast tem qualidade ao mostrar as intimidades de Marília e detalhes de como o empresário e os familiares lidaram com a morte da cantora. E também quando aborda a atual tensão entre as diversas partes envolvidas no espólio da cantora.

Seria bom que esse olhar menos complacente fosse usado para mirar toda a trajetória da cantora, sem apagamentos das ambiguidades de Marília Mendonça.


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