“Saia da cidade, meu amor, antes que seja tarde”, sussurra a francesinha de voz cristalina, silhueta franzina, menina em forma de mulher, meio nouvelle vague, meio bossa nova. Personagem de quadrinhos, Audrey Tautou em “Amélie Poulain“? Laura Anglade, 23 anos, parece sair direto do túnel do tempo. Ela nos lembra a beleza eterna das vozes contidas nas canções que não morrem nunca.
Alguma coisa das grandes damas do jazz, sem parecer com nenhuma. Pureza de voz, emissão precisa, sem afetação, uma honestidade em cada intenção. Ao ressignificar a canção de Cole Porter “Get Out of Town” —como não lembrar a linda versão gravada por Caetano?—, Anglade já nasce clássica, embora tenha despontado na cena de Montréal no fim da década passada. É única a interpretação de “A New Day, a New Life, a New Love”, de Frances Landesman e Thomas J. Wolfe.
A moça tem se apresentado em palcos icônicos, como o London Royal Festival Hall, o Olympia de Paris e o New York Town Hall, chamando a atenção por onde passa. Canta num inglês e francês irretocáveis e sem sotaque, o que se explica pela dupla nacionalidade.
Surpreende uma garota introspectiva, vinda de um vilarejo no sul da França, com 165 habitantes e um castelo medieval, crescer em Connecticut, nos Estados Unidos, e se tornar uma das maiores promessas do jazz.
É uma história incomum, parece roteiro de filme. Pensar que ela quase desistiu das aulas de canto. Foi notada na pandemia, a partir de uma live descompromissada num parque de Montréal, cantando só com seu ukulele. Um vídeo de cinco minutos impressionou a cantora americana Melody Gardot. Surgia aí a parceria que a levaria a abrir a turnê seguinte da fada madrinha.
A estreia em disco foi em 2019, com “I Have Got Just About Everything”, em que interpreta standards da música americana, seguido por “Venez Donc Chez Moi”, cantado em francês, três anos mais tarde.
Acaba de lançar, em turnê pela Europa, “Get Out of Town”, seu terceiro álbum, gravado com um quarteto de jovens músicos. Na capa, o cabelo Chanel, óculos de gatinho e o pulôver vermelho, mesma cor do carro com capota e estofado brancos. O estilo de uma garota personagem de Woody Allen.
Seja em Manhattan, em Nova York, onde mora atualmente, ou à meia-noite na cidade luz, é fácil mergulhar no seu som. A versão de “April in Paris” entra pelos poros num atravessamento. É preciso mais do que coragem para encarar um clássico eternizado na voz de Ella Fitzgerald. Uma versão que parecia definitiva.
Não haveria muito mais a acrescentar, mas Anglade não só se sai bem, como reinventa a canção, nos levando a escutar com o frescor de uma primeira vez. É como encontrar um amigo ao acessar um passado onde a memória afetiva acontece. Há um certo conforto em ouvir uma velha canção em boa companhia. O mundo se torna possível. Antes que seja tarde, só a música que contém vazios e produz silêncio regenera.

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