No último sábado, em um condomínio de luxo no bairro de Ponta Negra, em Natal, Juliana, uma mulher de 35 anos, bibliotecária, foi brutalmente agredida pelo ex-namorado, de 29 anos, que é e ex-jogador da seleção brasileira de basquete.
Dentro de um elevador, ele desferiu 61 socos contra seu rosto, deixando-a ensanguentada e com o rosto desfigurado. A vítima saiu com múltiplas fraturas no maxilar e no rosto, precisou de atendimento hospitalar e está prestes a passar por cirurgia de reconstrução facial. O agressor foi preso em flagrante e teve sua detenção convertida em prisão preventiva. Ele deve responder por tentativa de feminicídio.
O caso repercutiu amplamente nas redes sociais ao longo da semana. O que mais me marcou foi ver que muitos veículos transmitiram, repetidamente, as imagens da agressão, com a sequência de socos sendo exibida em “looping” enquanto jornalistas narravam a cena violenta. Ainda que a imagem estivesse borrada ou embaçada —e algumas eram quase imperceptíveis—, considero isso preocupante.
Obviamente que a notícia precisava ser veiculada, mas penso ser importante discutir a respeito do direito que essas empresas acreditam ter para exibir uma pessoa sendo violentada dessa forma, ainda mais sem sua autorização expressa.
Para o coletivo de mulheres, em especial, a repetição dessas imagens é gatilho para memórias dolorosas e experiências traumáticas. É fundamental ter cuidado ao abordar casos como esse. E ter cuidado não significa suavizar ou diminuir a gravidade do tema, mas tratá-lo com a seriedade e a responsabilidade que a violência exige.
Mesmo o jornalismo que poupou o público das imagens grotescas sofreu com um outro vício: tratar os 61 socos como uma anomalia, algo desvinculado da sociedade patriarcal em que vivemos. Além de desbotar mais rápido, pois amanhã haverá “outro caso isolado”, a tinta que isola a cobertura do caso do contexto social em que estamos desconsidera que a violência contra a mulher é a regra que sustenta a engrenagem social brasileira.
Um olhar comprometido com a dignidade das mulheres exige interseccionar esse crime com todas as editorias: cultura, justiça, esporte, política, economia e até relações internacionais.
Ora, se esse homem era ex-jogador de seleção brasileira de basquete, uma imprensa investigativa não se limitaria a citar sua carreira esportiva, como se fosse algo meramente exótico. Iria além, questionando como a Confederação Brasileira de Basquete e as instituições ligadas ao esporte têm atuado na formação de atletas com foco em gênero, masculinidades e prevenção da violência contra a mulher? O que as pessoas responsáveis têm a dizer?
Na semana passada, cobrei nesta coluna uma posição do governador do Amazonas sobre a mulher indígena submetida a nove meses de violência sexual dentro do sistema penitenciário estadual. Ele se manteve em silêncio. Já neste caso, a governadora Fátima Bezerra se manifestou de pronto e prestou solidariedade.
Contudo, o crime aconteceu. Portanto, com respeito às profissionais que trabalham nas áreas, cabe à imprensa acompanhar os mecanismos de proteção existentes e de que forma eles são, de fato, acessados. Investigar suas eficácias e cobrar Executivo, Legislativo e Judiciário estaduais, em esforço conjunto para fortalecer políticas a fim de impedir que outra mulher passe pelo que Juliana passou.
Isso seria possível se de fato existisse compromisso com a vida das mulheres. Mas como esperançar quando o Brasil bate recordes de feminicídios e estupros, como em 2024, e tais dados não viram manchetes centrais nas TVs e nos jornais? O Anuário da Segurança Pública escancarou um massacre em curso; mesmo assim, seguimos vendo a violência tratada como “recorte”.
Triste, pois não são recortes, mas recordes. E, diante de tantos deles e um caso tão grave, perguntas não faltam. Quais foram os projetos do governo federal anterior para as mulheres no estado? Qual era o orçamento? E os projetos deste governo? Quando será entregue a Casa da Mulher Brasileira em Natal? Por que não foi antes? Qual é o orçamento do Ministério das Mulheres neste governo?
As perguntas escapam, pois, no fim, 61 socos retratam um país onde a violência contra a mulher é estrutural e banalizada e as políticas públicas de enfrentamento estão sendo desmontadas, ficando generalistas.
Um país que prefere o sensacionalismo e, em vez de confrontar esse quadro, maquia a nudez gritante do problema. Entendo bem feministas que se sentem cansadas de tudo isso.
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