Sou escritora e feminista, mas não sou uma escritora feminista, diz Chimamanda

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Sou escritora e feminista, mas não sou uma escritora feminista, diz Chimamanda


De todas as formas de arte, a literatura é a única com capacidade de permitir acesso direto à motivação humana, defendeu a escritora Chimamanda Ngozi Adichie em sua palestra no ciclo Fronteiras do Pensamento nesta segunda-feira, em São Paulo.

Quem lê conhece múltiplos pontos de vista e se sente mais confortável com as complexidades dos desejos e contradições da humanidade, segundo ela —mas, para isso, romances devem ser verdadeiros, nunca ideológicos.

Segundo a nigeriana, é importante manter causas políticas próximas do coração, mas escrever ficção a partir delas culmina em “algo mais grosseiro do que a arte”, algo mais próximo da propaganda.

Apesar da popularidade de ensaios como “Sejamos Todos Feministas”, Chimamanda recua ao ser descrita como uma “escritora feminista”. “Sou uma escritora que também é feminista”, disse. Adicionar o rótulo de um movimento antes da palavra “escritora”, segundo ela, é como “pegar uma faca enferrujada e dilacerar o sublime” da literatura.

Depois de passar pela Bienal do Livro, a autora do best-seller “Americanah” subiu ao palco do Teatro Renault sob aplausos entusiasmados da plateia, já impaciente após 45 minutos de atraso.

Transferido do auditório do Mackenzie, que acomoda 950 pessoas, para o Renault, com capacidade para 1.500 espectadores, o evento serviu para ilustrar o caráter pop da escritora, um dos maiores nomes da literatura global hoje.

Em uma fala repleta de referências literárias, que partiu da epopeia de Gilgamesh, passou por Susan Sontag e chegou a sua contemporânea Zadie Smith, Chimamanda buscou provar a importância da ficção.

“Quando lemos histórias, ganhamos vida em corpos que não são os nossos. Num ato de imaginação radical, passamos a ver o mundo como o outro o vê, mesmo que por um instante”, argumentou.

Contadora de histórias por vocação, Chimamanda também explorou memórias de família para ilustrar sua fala. Ela contou que durante a Guerra do Biafra seus pais tiveram que abandonar o campus da Universidade da Nigéria. Seu pai buscou abrigo na casa de um amigo, que, mesmo com os quartos cheios, não hesitou em acomodar a família.

Por mais que tenha nascido depois da guerra, essa e outras histórias contadas por familiares foram exploradas em seu romance “Meio Sol Amarelo”. Para ela, a literatura possibilita reconhecer a humanidade em si e nos outros. “É o que nos faz falar contra a injustiça mesmo quando ela não nos afeta diretamente.”

Com uma obra dedicada a narrativas de mulheres negras, a autora lançou neste ano “A Contagem dos Sonhos” pela Companhia das Letras. No romance, ela entrelaça histórias de quatro mulheres em narrativas sobre amor, maternidade e desejo.

Em sua fala, destacou seu carinho pela personagem Kadiatou, cuja trama é inspirada em um escândalo sexual real ocorrido em 2011, quando uma imigrante acusou Dominique Strauss-Kahn, então diretor do FMI, de abusar sexualmente dela.

Ainda assim, sua defesa é a de que “romances nunca devem ser ideologicamente corretos, pois a vida nunca é”. Na sua concepção, um bom romance nunca parte de uma mensagem, mas sim de personagens, ou seja, de histórias humanas. “É a partir delas que encontramos terreno comum.”

Chimamanda lembra quando, durante a adolescência, leu o russo Ivan Turguêniev e se reconheceu nos personagens, por mais distante que estivessem de sua realidade.

“A literatura é nossa última fronteira. Nada pode nos refletir tanto quanto ela”, concluiu, motivando autores a escreverem com verdade, por mais que isso seja difícil “em um clima político como o atual, em que as pessoas têm medo de ofender os outros”.

O ciclo Fronteiras do Pensamento deste ano terá ainda uma palestra com o neurocientista português António Damásio, em agosto, e já contou com a participação do psicólogo Jonathan Haidt, de “A Geração Ansiosa”. A Folha é parceira do evento.



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