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A parte mais vulnerável de nós, segundo Tracy K. Smith, é “perceber que as nossas lembranças mais profundas também ressoam em gente que achamos que não têm nada a ver conosco.”
Essa percepção veio quando ela serviu como espécie de embaixadora da poesia nos Estados Unidos —por dois anos que coincidiram com o início do primeiro mandato de Donald Trump. Enquanto cumpria o dever, viajou o país lendo poesia em comunidades que não costumavam receber festivais literários ou ver pessoas negras como ela falando em público.
Era nessas ocasiões que via pessoas de vidas e partidarismos diferentes se emocionarem com poemas, como um sobre uma criança imigrante confusa com um idioma diferente.
Smith é mulher, negra e americana. Já sua poesia é instigada por perguntas que ficam abaixo desses marcadores de identidade. É por suas partes mais profundas que ela cria identificação com público tão diferente dela própria.
“A poesia sempre foi ensinada numa linha ‘aqui está um poema que esconde algo, você consegue analisar, decifrar e resumir o que ele diz?’ E não é isso que os poetas buscam fazer”, afirma. Os poemas são feitos para serem ouvidos e sentidos. Eles perguntam mais do que respondem. E, por isso, não pertencem a ninguém e a todos.
Acabou de Chegar
“Uma Visão Pálida das Colinas” (trad. Jorio Dauster, Companhia das Letras, R$ 89,90, 200 págs., R$ 44,90, ebook) foi a estreia do Nobel de Literatura Kazuo Ishiguro, então com 27 anos. O romance é narrado por Etsuko, uma mulher que tenta lidar com o suicídio da filha mais velha enquanto vive com a filha mais nova. Para a crítica Laura Erber, o livro revelou o talento do jovem Ishiguro e o situou na cena literária como uma voz narrativa deslocada e singular.
“A Devoção do Suspeito X” (trad. Shintaro Hayashi, Estação Liberdade, R$ 84, 352 págs.) trata de uma investigação policial com os culpados revelados já nas primeiras páginas. E o leitor acaba partidário das criminosas —”talvez por sua falta de iniciativa e subserviência às figuras masculinas”, como aponta o crítico Diogo Kaupatez. Yasuko é uma mãe solteira de meia-idade em uma rotina previsível até o surgimento de seu ex-marido, que quer extorqui-la. Num ímpeto, Yasuko e sua filha assassinam o chantageador e ficam na mira da polícia.
“Os Monstros de Hitler” (trad. Gisele Eberspächer, Zahar, R$ 159,90, 552 págs., R$ 49,90, ebook), do historiador Eric Kurlander, aponta que o avanço de líderes como Donald Trump, Vladimir Putin e Jair Bolsonaro é sintoma de algo mais profundo do que uma simples virada conservadora. Seria resquício do que o autor chama de “imaginário sobrenatural” do nazismo. “A alternativa é aceitar que essas ideias retornam a cada geração —e isso é profundamente pessimista”, disse Kurlander à colunista Sylvia Colombo.
E mais
Nesta semana, dois livros completaram seu centenário inquietando leitores e provocando releituras. Um deles é “Mrs. Dalloway”, de Virginia Woolf. “Um romance cujas palavras parecem fazer mais sentido a cada releitura, feliz e infelizmente atuais”, como descreve a escritora Noemi Jaffe. A história de Clarissa Dalloway, uma dama da alta sociedade britânica que organiza festas disputadas, é contada por meio de fluxo de consciência, em um ritmo que borra as linhas entre a autora e seus personagens.
O outro centenário, do romance “O Grande Gatsby” de F. Scott Fitzgerald, também tem no centro um festeiro da alta sociedade. Gatsby é apresentado pelo narrador Nick Carraway, um sujeito sem status social que começa a frequentar as festas do misterioso magnata americano, que nas primeiras páginas é mais uma entidade do que um personagem. “Talvez a obra de Fitzgerald ecoe com tanta força hoje por ter antecipado ondas como o culto a celebridades, o fascínio pela vida dos ricos e famosos e o louvor à ostentação”, escreve o jornalista André Barcinski.
O selo Escarlate, adquirido pela Companhia das Letras há cinco anos, está passando por uma repaginação para atender um público meio esquecido no mercado editorial. Como conta o Painel das Letras, são as crianças de 8 a 12 anos, que compõem uma faixa etária na corda-bamba entre os livros infantis e as obras para jovens.
Além dos Livros
Hadi Matar, o homem que esfaqueou o escritor Salman Rushdie, foi condenado a 25 anos de prisão por tentativa de assassinato e agressão. O ataque aconteceu em Nova York, durante um evento literário do qual Rushdie participava em 2022. O autor estava discursando quando o agressor invadiu o palco e desferiu cerca de dez facadas. Uma delas atingiu e cegou o olho direito de Rushdie.
Em livro recém-lançado nos Estados Unidos, os jornalistas Jake Tapper e Alex Thompson mergulham nos bastidores da eleição presidencial americana de 2024 por meio de gafes cometidas pelo então presidente e candidato do partido Democrata, Joe Biden. O livro vai além da tentativa do partido de minimizar os sinais de declínio físico e cognitivo de Biden e mostra como sua demora em abandonar a corrida presidencial prejudicou a organização de uma alternativa forte dentro do partido.
“Mário de Andrade sempre teve ‘fome de Brasil’”, aponta o jornalista Fernando Granato. Em 1925, escreveu seus “Dois Poemas Acreanos” —”Descobrimento” e “Acalanto do Seringueiro”— antecipando em dois anos a expedição amazônica que narra no livro “O Turista Aprendiz”. A obra foi publicada postumamente e agora ganha nova edição pela Tinta-da-China Brasil.


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