Um estômago verde com o ânus excretando uma cruz invertida. Corpos se masturbando, um Superman em pleno voo. Cores ácidas e traços crus em uma tela de quase um metro com os escritos “para viver deve-se ser alguém e para isso deve-se ter um osso”.
A obra “Somos Todos umas Crianças Assim”, de Pedro Moraleida, morto aos 22 anos em 1999, reaparece com força inusitada em duas exposições simultâneas nos espaços da galeria Almeida & Dale, em São Paulo. Com curadoria de Lisette Lagnado, a mostra é uma imersão no universo provocador do artista.
“Nossa Senhora do Desejo”, título da exposição principal, propõe um mergulho no núcleo escatológico e anticlerical da obra de Moraleida. A partir de sua série “Corpo Sem Órgãos”, a mostra tensiona os limites do corpo, do erotismo e da institucionalidade —religiosidade, Estado, família— com a fúria de um jovem que leu o poeta Antonin Artaud e o filósofo Friedrich Nietzsche e decidiu fazer da pintura um grito contra toda forma de repressão.
“Pedro enxergava na Igreja e no sistema patriarcal os fundamentos da repressão do desejo”, diz Lisette. “A imagem da cruz aparece em situações profanas, denunciando a hipocrisia civilizatória. Na pintura azul que mostra uma mulher recebendo uma chupada, por exemplo, com a cruz ao lado, é uma forte sugestão para imaginarmos o gozo de Maria.”
O corpo, na obra do mineiro, não se apresenta apenas como tema —ele é o próprio campo de batalha. Há membros desmembrados, penetrações, larvas, fezes e fluidos corporais. “Se a obra não incomodar, ela não é”, resume a curadora, citando Artaud e sua defesa de uma arte que precisa “feder” para estar viva. “Porque onde cheira a merda, cheira a ser. A arte só tem um atestado de vida nessas condições.”
Além da mostra principal, a segunda exposição apresenta uma constelação de obras e artistas que orbitam em torno de Moraleida, seja por afinidade estética ou ética. Dentre eles, nomes como León Ferrari, Flávio de Carvalho, Sara Ramo, Cinthia Marcelle e Leonilson.
“É um reencontro. Trabalhar com Lisette foi também reviver aquele momento em que, ainda muito jovens, organizamos com Cinthia Marcelle, Emilio Maciel e Pedro Bozzolla a primeira grande exposição do Pedro, pouco depois de sua morte”, diz Sara Ramo, amiga do artista.
Na mostra, Ramo exibe colagens feitas com restos de agendas, imagens pornográficas e materiais domésticos. A artista diz que, assim como nos trabalhos de Moraleida, as associações na obra são um tanto violentas. “Tem um atrevimento ao encarar questões e dores impossíveis de resolver”, afirma ela.
Diante do caráter híbrido e radical da produção de Moraleida —que inclui pinturas, desenhos, textos e experimentos sonoros— a curadoria enfrentou dilemas éticos e formais. “Era preciso driblar o mito do artista maldito e, ao mesmo tempo, compreender seu suicídio não sob uma perspectiva vitimizante, mas, talvez paradoxalmente, como um compromisso com a intensidade da vida”, diz Lisette.
Com mais de 200 obras catalogadas em séries como “Fendas Orificiais Palpitantes”, “Faça Você Mesmo sua Capela Sistina” e “Casais Ssorridentes de Mãos Atadas”, o acervo do Instituto Pedro Moraleida Bernardes ainda guarda um potencial de pesquisa imenso. Para Lagnado, esta exposição é apenas um começo.
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