Nenhuma palavra parece estar fora do lugar em “Pequenas Coisas como Estas”, da prosadora irlandesa Claire Keegan. Tendo como conflito central eventos reais dos quais poderia facilmente fazer alarde, a narração escolhe um caminho discreto, em tom menor, o que representa, certamente, seu principal trunfo.
É Natal de 1985 na cidade de New Ross, na Irlanda. Bill Furlong, comerciante de carvão e madeira, é um homem correto, bom marido, trabalhador, pai de cinco meninas e notoriamente generoso —não à toa, é querido por todos aqueles que, seus clientes ou não, sofrem um inverno rigoroso em plena crise econômica.
É pelos olhos desse homem de mente simples que se descortina um cenário de violências contra mulheres. Furlong se dá gradualmente conta não apenas do que ocorre às jovens recolhidas nos conventos da cidade, mas também das “pequenas” situações cotidianas que afetam a vida de muitas delas a seu redor.
Esse processo é retratado como uma crise e descrito em trechos, ao mesmo tempo, lapidares e singelos —de maneira coerente, portanto, com o protagonista, que é tão bem-intencionado quanto ingênuo: “Estava perto dos 40, mas não se sentia chegando a lugar nenhum ou fazendo qualquer tipo de progresso, e às vezes não tinha como deixar de se perguntar para que serviam os dias”.
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Aí está outro dos trunfos do livro: a revelação pelos olhos de uma figura masculina, que poderia antagonizar com as femininas, mas que, por sua própria trajetória, acaba sendo mais sensível à opressão de gênero que muitas delas, inclusive sua mulher.
Como nos contam já as primeiras páginas, Furlong é, ele mesmo, fruto da solidariedade entre mulheres. Filho de pai desconhecido, cresceu na casa em que sua mãe trabalhava como empregada doméstica, tendo recebido o carinho e a proteção da empregadora, uma viúva a quem a esposa de Bill descreve como uma das únicas mulheres que por ali poderiam fazer o que desejassem.
Consciente do que a proteção da sra. Wilson representou para sua vida, Furlong compreende, ao longo da novela, do que foi protegido —e de qual destino sua mãe se salvou. Isso tudo enquanto se dá conta do que acontece nos conventos a seu redor, algo que as mulheres de seu convívio parecem há muito saber.
Trata-se do encarceramento de mulheres em instituições mantidas pela Igreja Católica e que, sob pretexto de abrigá-las e empregá-las, impunham rotinas exaustivas de trabalho e as separavam de seus bebês. Como informa a autora em nota ao final, esses locais, conhecidos como lavanderias Madalena, teriam sido responsáveis pela morte de milhares de bebês e mulheres.
Ainda que esse fato histórico represente o núcleo do conflito da novela, não é nele que se concentra a trama —tampouco nas rivalidades entre católicos e protestantes, que também definiu o contexto.
Ao colocar essa figura masculina no centro, a narrativa desloca o interesse do material histórico —ou, talvez, garanta-lhe maior interesse — privilegiando, na trajetória do personagem, a conscientização e o impulso para a ação. Furlong concluiu sua transformação como personagem na noite de 24 de dezembro, o que dá origem a uma espécie de conto natalino, com um chamado para a conscientização e a união em torno da liberdade.
Essa é a cartada final da obra, muito embora não se trate de um trunfo literário. Aquilo que o trabalho ficcional havia ampliado acaba se reduzindo, ao final, à grandiosidade de um homem de “coração tolo”.
Talvez justamente o bom-mocismo é que permita ao livro unir-se a narrativas de destaque e dialogar com o tempo presente. Festejado pelo New York Times, “Pequenas Coisas como Estas” foi adaptado para o cinema pelo diretor belga Tim Mielants. É esperar para ver o que vem por aí.

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