Como ‘Round 6’, com 2ª temporada, espelha os conflitos da Coreia do Sul

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
Como ‘Round 6’, com 2ª temporada, espelha os conflitos da Coreia do Sul


Quando estreou, há pouco mais de três anos, “Round 6” não parecia ter a pretensão de se tornar um fenômeno global capaz de rivalizar com superproduções anglófonas como “Stranger Things” ou “Succession“. Mas sua fantasia enraizada na cultura sul-coreana não encontrou resistência mundo afora.

Na semana que vem, em plena ressaca de Natal, a série volta para uma nova temporada revigorada e mais entrelaçada à política local do que nunca. Primeiro, porque sua popularidade é a prova de que as estratégias de “soft power” do governo vêm rendendo frutos.

Segundo, porque os novos episódios parecem refletir o caos que tomou o país de assalto desde que o ex-presidente Yoon Suk Yeol encampou uma tentativa de autogolpe que resultou em impeachment. O protagonista de “Round 6”, afinal, agora tem como objetivo derrubar um líder autoritário.

Coincidência ou futurologia, a reestreia acontece depois que a série tirou prêmios Emmy de produções caras e prestigiosas como o já citado drama familiar da HBO, que perdeu os troféus de melhor direção e ator, pela primeira vez embolsados por asiáticos.

Em termos de audiência, “Round 6” teve 330 milhões de espectadores e 2,8 bilhões de horas vistas, de acordo com a Netflix, pouco afeita a divulgar dados do tipo –ou nem tanto quando a transparência é motivo de festa. Esses números fazem dela a obra original mais popular da plataforma.

“Isso é prova de que o idioma não é uma barreira, que o inglês pouco importa quando estamos entretidos com uma história”, disse o diretor e criador Hwang Dong-hyuk em dezembro passado, em Seul, num intervalo entre as gravações de uma segunda temporada que nem estava em seus planos iniciais.

Tempos atrás, Dong-hyuk chegou a dizer que o trabalho na primeira temporada foi tão estressante que ele perdeu alguns dentes e não voltaria a escrever e dirigir novos episódios. Mas ele não conseguiu abandonar a cria e, ao receber a reportagem, caminhava alegre pelos cenários coloridos de seu set de filmagem, com maior liberdade artística e um cachê mais generoso.

Cercado por centenas de camas, que formavam o dormitório onde os personagens de “Round 6” descansam e firmam alianças, Dong-hyuk se sentou para conversar com jornalistas de todas as partes do mundo que voaram até a Coreia do Sul para assistir às filmagens, num set tão hiperbólico quanto as intenções renovadas da série.

“Minha linha de raciocínio é a mesma da primeira temporada, quando quis criar uma história em que confiava e que divertisse as pessoas. Agora há mais pressão, por causa da expectativa e porque minha mente já está cansada, mas o jeito é transformar isso em combustível”, afirmou o diretor a este jornal.

Ele é modesto ao falar do impacto da série numa indústria pautada por histórias e talentos vindos do eixo Estados Unidos-Europa e diz que “Round 6” só alcançou fama mundial porque outras séries em língua não inglesa o fizeram antes.

Fenômenos como o espanhol “La Casa de Papel” e o alemão “Dark”, também da Netflix, dão lastro ao discurso, mas se apequenam diante da popularidade e dos prêmios inéditos conquistados pela série sul-coreana, o que Dong-hyuk atribui à universalidade de seus temas.

Em sua primeira temporada, “Round 6” –ou “Squid Game”, no título original– narrou a história de Seong Gi-hun, um sul-coreano afundado em dívidas que, num momento de desespero, aceita participar de uma competição baseada em jogos infantis. A cada rodada, os vencedores avançam para a próxima fase, enquanto os perdedores são mortos.

Tudo bancado por um grupo de ricaços que se divertem às custas do sofrimento de homens e mulheres que precisam do prêmio em dinheiro para pagar por cirurgias, empréstimos, estudos e por aí vai. Nos novos episódios, Seong percebe que, para interromper aqueles jogos olímpicos do sadismo, precisa participar da competição novamente, a fim de desmascarar seu organizador.

“Qualquer um podia se relacionar com os temas da primeira temporada, então não foi difícil passá-los ao público por meio do meu personagem. Minha tarefa, enquanto ator, era encontrar o ponto certo entre divertir e espalhar uma mensagem”, diz Lee Jung-jae, que venceu o Emmy por interpretar o protagonista.

“Round 6” é, ao mesmo tempo, muito coreana e muito universal, diz seu diretor. Ele costurou a trama de ação e suspense a problemas sociais graves não só em seu país, mas num mundo abatido por taxas de desemprego crescentes, desigualdade social galopante e discursos populistas vazios.

A série lembra “Parasita“, filme de Bong Joon-ho que fez história ao vencer a Palma de Ouro em Cannes e, depois, ser o primeiro longa em língua não inglesa a embolsar o Oscar, há quatro anos. O drama familiar também usava as particularidades e excentricidades da produção audiovisual local para denunciar o abismo social que opõe pobres e ricos no país.

Os pontos de contato entre série e filme vão além. Ambos se inserem numa estratégia de “soft power” adotada pela Coreia do Sul especialmente a partir dos anos 1990, quando o governo percebeu que o blockbuster americano “Jurassic Park” fez mais dinheiro do que a montadora sul-coreana Hyundai em 1993.

Assim, o país passou a investir massivamente no audiovisual e em outras áreas da cultura, fazendo florescer a onda “k” que tomou de assalto países como o Brasil, hoje com legiões de fãs dos k-dramas, do k-pop e até de k-food –as novelas, a música e a gastronomia do país.

“Várias formas de incentivo público tiveram uma influência positiva na indústria. Foi igualmente crucial o apoio do governo para que as nossas histórias fossem exportadas”, disse Don Kang, vice-presidente de conteúdo da Netflix na Coreia do Sul, a este jornal no começo do ano.

Ao adentrar o enorme complexo de estúdios de Daejeon, erguido pelo poder público e onde a segunda temporada foi gravada, fica claro quão ambiciosos são tanto os planos da Netflix quanto os da Coreia do Sul para séries como “Round 6” e tantas outras que chegam no catálogo da plataforma aos montes.

Para coroar o retorno da série, a festa de lançamento em Seul, na semana passada, foi marcada pelo tom político acalorado, que teve o ex-presidente Yoon Suk Yeol como alvo.

As entrevistas da equipe de “Round 6” a este jornal foram feitas meses antes de o país mergulhar no turbilhão político. No evento da Netflix, porém, Dong-hyuk foi firme ao dizer que o momento do lançamento dos novos episódios, mais sombrios em suas críticas sociais, era obra do destino.

“Nós precisamos tomar as ruas. Seja por impeachment, seja por renúncia, a pessoa responsável por declarar lei marcial neste país precisa ser responsabilizada. Espero que possamos voltar à estabilidade e que os coreanos possam aproveitar o fim de ano da forma como merecem”, afirmou na ocasião, destacando que os novos roteiros são uma resposta a uma era de guerras, revoltas e divisões no mundo.

Por mais fantasiosos que sejam seus cenários, por mais afetadas que sejam suas atuações e por mais saturada que seja sua fotografia, “Round 6” quer construir uma ponte bastante sólida com a realidade fora das telas, mirando uma terceira temporada já confirmada pela Netflix.

O repórter viajou a convite da Netflix



Source link

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

Nunca perca uma notícia importante

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *