Em uma noite chuvosa de verão, no palco de um clube em Woodstock, nos Estados Unidos, Shawn Mendes estava pronto para as lágrimas. Lágrimas de felicidade, lágrimas de emoção, enquanto processava tudo que estava acontecendo. “Provavelmente há uma grande chance de eu chorar muito”, ele disse à pequena plateia, pressionando as costas das mãos nos olhos e sorrindo.
Era a primeira vez em mais de dois anos que Mendes, o astro pop canadense de 26 anos, se apresentava para uma plateia depois de interromper abruptamente a carreira quando estava no seu auge. Em 2022, em meio ao que ele chamou de um “ponto de ruptura” para sua saúde mental, ele cancelou uma turnê internacional de dois anos e multimilionária —com mais de 80 datas em estádios— reconhecendo que, naquele momento, ele não conseguia lidar com aquilo.
Foi uma admissão surpreendente, especialmente para um artista masculino multiplatinado com uma base de fãs jovens extremamente devotada. Se a atenção deles fosse volúvel, ele estaria acabado.
Desde então, Mendes, um fenômeno nas redes sociais graças à aparência de modelo e com uma tendência a mostrar o peito nu, que encontrou sucesso imediato no topo das paradas ainda adolescente, afastou-se quase que completamente da música, buscando estabilidade e uma vida longe da estrada.
Ele lentamente voltou a compor, desbravando as selvas da vida adulta. Com guitarras e acordes profundos, suas lutas são expostas em seu quinto álbum, “Shawn”, com lançamento previsto para 15 de novembro. “Eu não entendo quem sou agora”, ele sussurra na faixa de abertura angustiada.
Ele não é do tipo que esconde algo. E levou um bom tempo para se sentir forte o suficiente para fazer o álbum. “Eu me senti super, super perdido”, diz. Em Woodstock, Mendes falou sobre ansiedade em espiral e paredes se fechando.
Mas nos poucos meses desde aquele show, os palcos de Mendes têm se ampliado rapidamente. Ele detonou “Nobody Knows”, uma nova balada apaixonada, no MTV Video Music Awards, o VMA, terminando em êxtase com acordes de guitarra, e depois cantou para 100 mil pessoas no Rock in Rio. Quando nos encontramos para uma entrevista, em seu estúdio de gravação favorito na bucólica Rhinebeck, onde trabalhou no novo álbum, ele parecia ter recuperado a memória muscular do que significa ser uma estrela, ainda que não transparecesse.
Era a tarde após o VMA, e se ele passou a noite festejando, não parecia. Sentado em uma cadeira de madeira em uma varanda com vista para colinas ondulantes e equipamentos de gramado pitorescamente posicionados, Mendes vestia uma camiseta pintada à mão que mostrava suas tatuagens —”Good Boy”, dizia uma—, bebia água de um pote de vidro, e perguntou se estava tudo bem se ele fumasse.
E então, sem hesitação, ele mergulhou no período mais sombrio de sua vida.
Mendes há muito tempo é aberto sobre seus episódios de desespero. Seu sucesso de 2018, “In My Blood”, o mostra congelado no chão do banheiro, implorando por ajuda. Na música, ele encontra dentro de si a força para seguir em frente. Na vida real, foi mais um esforço coletivo.
Na época de sua turnê de 2022, que seguiu o lançamento de “Wonder“, ele era um jovem artista recordista. “Wonder” foi seu quarto álbum consecutivo a alcançar o primeiro lugar nas paradas. Ele abriu shows para Taylor Swift no início, e fez sucesso com “Señorita”, um dueto com Camila Cabello, sua namorada na época.
Mas ele estava na estrada desde que foi lançado como artista, assim que saiu da casa de seus pais em Pickering, Ontário, como uma estrela de 15 anos do Vine, extinta plataforma de vídeos. O auge da adolescência coincidiu com a fama global, com pouco espaço para refletir sobre qualquer uma dessas mudanças sísmicas.
“Os primeiros 10 anos da minha carreira foram tão rápidos”, ele diz. “Eu nunca consegui acompanhar o momento.”
Seu primeiro amor com a estrela pop Cabello, refletido em sua música, cativou o público, assim como o término deles. Mendes ainda considera a cantora uma de suas “melhores amigas”. Ele tinha 23 anos, com cerca de 80 pessoas na folha de pagamento de sua turnê, somadas ao que parecia ser o peso da atenção do mundo sobre ele. Durante o circuito de “Wonder”, ele estava “severamente deprimido”, de uma forma que ele não conseguia esconder.
“Os shows eu conseguia fazer”, diz, “e encontrar beleza neles. Mas quando eu saía do palco, eu simplesmente não me reconhecia”, continuou. “Eu era uma casca, como falar com uma parede.”
De repente, ele ansiava por bebidas e cigarros antes do show, algo que sempre evitou para proteger sua voz. E quando bebia pós-show era porque precisava de “uma fuga”. Ele entendeu que esse não era o caminho que queria seguir. “Eu pensei, ‘não vou reescrever a mesma história que já foi escrita mil vezes por músicos e artistas, onde eles não conseguem lidar e começam a tomar mais drogas, mais álcool, até que é demais’. Eu não vou fazer isso. Vou seguir um caminho completamente diferente.”
Foi uma escolha dolorosa: “Partiu meu coração quando cancelei a turnê”, ele canta na faixa de abertura do novo álbum, “Who I Am”. “Minha alma e minha cabeça estavam indo de um lado para o outro.”
“Decepcionar as pessoas é horrível”, diz Mendes, enfaticamente. Em oito anos de turnê, ele só havia cancelado um show antes, por causa de laringite, e temia desapontar seus fãs e desestabilizar sua equipe de produção, que estava com ele desde o início. Mas também foi “uma grande lição” para que ele se tornasse um adulto. “Você não consegue viver a vida sem magoar as pessoas”, diz ele.
Scott Harris, principal parceiro de composição e produtor de Mendes, diz que a decisão foi crítica. “Foi um grande salto de fé e muita confiança, para fazer o que era melhor para ele naquele momento.”
Especialistas da indústria disseram que a turnê “Wonder” poderia ter gerado US$ 100 milhões. Mendes reconheceu que perdeu dinheiro —”muito”, ele diz. Ele também observou que teve o privilégio de poder dar esse passo, e que estava “imensamente grato por não estar endividado”. Mendes pagou os contratos de seus funcionários, diz Andrew Gertler, seu co-gerente.
Em entrevistas, seus colaboradores, gerentes e Imran Majid, co-CEO da Island Records, gravadora de Mendes, disseram que a prioridade era o bem-estar do artista, e não sua carreira.
“Este negócio tende a fazer com que jovens artistas o detestem”, diz Ziggy Chareton, que também gerencia Mendes. “Eu sempre estive muito ciente de tentar fazer tudo o que podíamos para permitir que ele não perdesse o amor por essa forma de arte.”
Mendes está abordando seu retorno com cuidado, fortalecendo-se com o apoio da família enquanto toca em locais menores, escolhidos com cuidado. Ao fazer o álbum, ele ouviu músicos folk das décadas de 1960 e 1970, como Joni Mitchell, Crosby, Stills & Nash. “Muito de John Denver”, diz, e reduziu o brilho do pop em favor do bandolim executado por Chris Thile, lap steel e violino. Em vez do que ele chamou de sua energia usual de frontman, ele queria a lirismo e harmonia de muitas vozes que o cercassem. “Mais música, mais amor”, ele diz.
Filho de uma mãe inglesa e pai português, Mendes pegou o violão pela primeira vez aos 14 anos, inspirado por artistas como Ed Sheeran e John Mayer, que continuam suas referências. Sua mãe era corretora de imóveis, e o pai dono de um negócio de suprimentos para restaurantes. Ele era um garoto comum, que fazia pequenas apresentações para a família, jogava hóquei e futebol.
Mas a música “despertou um impulso diferente nele”, diz sua irmã, Aaliyah Mendes, 21, professora que o acompanhou no VMA. “Ele estava sempre ensaiando em casa. Do tipo, ‘Não vou jantar agora, preciso fazer isso.'”
Seus covers de seis segundos para o Vine decolaram. “Eu tinha oito anos, segurando a câmera por horas, tremendo, tentando conseguir o vídeo perfeito para ele”, diz sua irmã. Chareton e Gertler o encontraram online, enviaram um e-mail para sua mãe e o contrataram rapidamente. Ele estava em turnê logo após completar 16 anos —Mendes terminou o ensino médio remotamente, retornando para a formatura.
Por seis anos, o ciclo de álbum-turnê foi o seu mundo. Ele era grato e ambicioso, mas as rachaduras apareceram. “Se eu disser ao mundo que sou apenas um humano normal, eles vão parar de vir aos shows?” ele se questionava em um documentário da Netflix, em 2020.
Em 2022, a parte realmente assustadora chegou. Ele estava sozinho, sem obrigações, sem ordem para o seu tempo. “Eu me lembro de dirigir muito e apenas pensar, ‘o que diabos estou fazendo?'”
Ele teve sorte, com terapia, amigos e família. Mendes se apegou a uma metáfora: se você está dirigindo no escuro, tudo o que precisa ver são dez pés à sua frente para eventualmente encontrar seu destino. “Eu nunca poderia ficar preso se tudo o que eu tinha que pensar era no manhã. Meus próximos dez pés são, você sabe, meditar e tomar um café. Meus próximos 10 pés depois disso são malhar, e depois, ligar para minha mãe.”
À medida que a névoa se dissipava, ele viajou para a Costa Rica, Quênia e Ruanda, onde visitou o memorial do genocídio na capital. “O mundo é lindo e horrível”, diz, “e isso faz muito pela sua sensação de autoansiedade”.
Harris, 38, que também trabalhou com Cabello, Justin Bieber e Dua Lipa, é um constante ponto de apoio. Mendes tinha 15 anos quando se conheceram e imediatamente criaram o sucesso “Life of the Party”. Desde então, eles têm estado em um loop emocional e sonoro. “Ele sempre brinca que eu sou quem lê todos os diários”, diz Harris. Musicalmente, Mendes é persistente. “Recebo um memorando de voz dele —talvez dois ou três memorandos de voz dele— todos os dias, dia sim, dia não”, completa Harris.
Ainda assim, dividindo seu tempo entre uma casa em Los Angeles e um apartamento em Toronto, levou um ano para Mendes pisar em um estúdio. “Escrevíamos uma música, e no meio ele dizia, ‘desculpe, não consigo fazer isso'”, lembrou Harris.
Sua gravadora foi paciente. “Demos a ele muito espaço”, diz Majid.
Gradualmente, com uma equipe de artistas da geração Z como o compositor e produtor Mike Sabath, 26, que estavam dispostos a lidar com processos emocionais e cavar fundo —”ele é como um feixe de verdade”, diz Sabath— Mendes encontrou seu caminho de volta para gravar o álbum em janeiro.
Canções de amor ou término têm sido um marco de seus álbuns, e “Shawn” tem seus traços de desilusão e desejo. Na música “Why Why Why,” que tem um ritmo marcante, há também uma referência vulnerável a um susto de gravidez.
“Pensei que ia ser pai / Isso me abalou profundamente, ainda sou um garoto / Às vezes ainda choro pela minha mãe.” Passar por essa experiência “me ensinou muito como homem”, diz Mendes. Quando um colaborador sugeriu isso, Mendes inicialmente hesitou. “E então eu pensei, por que estou fazendo isso se não for para escrever sobre esse tipo de complexidade”, questionou. “Eu queria derrubar quaisquer barreiras que restassem entre mim e as pessoas que estão ouvindo.”
Quase sem ser solicitado, ele falou longamente sobre Cabello, com quem namorou por vários anos.
Qualquer percepção pública de que eles estão “um contra o outro de uma maneira estranha”, ele diz, o incomoda. Mendes ainda conversa com ela sobre música ou qualquer coisa importante. “Fico nervoso só de falar sobre isso, só pelo que as pessoas diriam. Mas, honestamente, se algo acontecesse na minha família e se algo acontecesse comigo, ela provavelmente seria a primeira pessoa que eu chamaria, até hoje.”
“Nosso relacionamento está me ensinando o que o amor significa, de uma maneira grandiosa”, ele acrescenta.
Mendes sempre teve uma espécie de qualidade de namorado da internet —alguém que você poderia imaginar escrevendo poesia para um parceiro. “Com quem quer que eu acabe me casando,” ele comentou em um momento, “essa pessoa precisa estar disposta a processar tudo todos os dias. Qualquer coisa no seu coração.”
Em um show no Colorado, ele abordou sua sexualidade ao introduzir uma música. “Cara, estou apenas descobrindo como todo mundo. Às vezes não sei muito bem e outras vezes sei,” ele disse, enquanto a plateia aplaudia. “E isso é realmente assustador, porque vivemos em uma sociedade que tem muito a dizer sobre isso.”
Navegar pelos mesmos estágios da vida que seu público, com aparente transparência, também o aproximou dos fãs. “Não sinto uma grande diferença entre mim e eles,” ele diz.
Na nossa tarde ensolarada em Rhinebeck, com o canto dos pássaros e o cachorro do estúdio ao fundo, Mendes se preocupou um pouco sobre como suas revelações emocionais seriam recebidas. “Cara, será que já usei todo meu crédito com o público de quem já passou por algo difícil? Será que já esgotei minha história de cara triste?”
Mas ele afasta esse pensamento. “A cura leva tempo,” diz. “Mais do que você gostaria. E é bonito, porque você pode estar se curando e se expressando ao mesmo tempo. Você pode estar alegre e de luto simultaneamente.”

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