Para alguns, pensar em cultura italiana é pensar em moda. Para outros, em arquitetura. E há ainda quem lembre do país por seu cinema ou sua música. Essas manifestações ocupam o centro do palco que Paolo Gep Cucco e Davide Livermore montaram para “Ópera! Canção para um Eclipse”.
Uma mistura de linguagens, o filme que acaba de chegar ao streaming Reserva Imovision –que tem distribuído com exclusividade, no Brasil, vários filmes europeus menos glamorosos– toma emprestada uma história importada de outro país. É o mito grego de Orfeu e Eurídice, adaptado para os tempos contemporâneos, que guia a narrativa dos dois amantes protagonistas.
Ao som de algumas das árias mais famosas da ópera, compostas por gigantes como Giuseppe Verdi e Giacomo Puccini, a história sobre um rapaz erudito que desce ao inferno para buscar sua amada, depois que ela morre precocemente, vai sendo costurada a cenários que remetem à pintura metafísica de Giorgio de Chirico e à arquitetura racionalista de Pier Luigi Nervi.
Enquanto cenários oníricos se formam no horizonte, montados com efeitos especiais que são propositalmente pesados e dramáticos, o elenco internacional formado por Vincent Cassel, Rossy de Palma e Fanny Ardant, entre outros, é adornado por figurinos que carregam a grife Dolce & Gabbana.
“Quando o melodrama nasceu, a ideia era pôr todas as artes ao mesmo tempo no palco. No nosso filme é exatamente o mesmo, pensamos que podíamos trabalhar com muitas referências simultaneamente em cena”, diz Gep Cucco. “Dirigir ópera é como dirigir todas as artes de uma só vez”, completa Livermore.
Duradoura, a parceria entre os dois os levou a dirigir e conceber visualmente espetáculos mirabolantes como festas de abertura e encerramento de campeonatos esportivos e as mais variadas cerimônias de premiações.
Óperas, várias delas, também estão em seus currículos –especialmente no de Livermore. Atual diretor do Teatro Nacional de Gênova, ele abriu as temporadas do prestigioso La Scala, em Milão, por quatro anos consecutivos, e encenou versões elogiadas de “Turandot“, “Macbeth“, entre outras.
“Nas nossas produções de ópera, já usamos muito as telas, os painéis de LED, misturados à arquitetura e cenários reais. Então, de certa forma, foi uma experiência parecida”, diz o italiano sobre dirigir seu primeiro longa-metragem. “No set, passei por um aprendizado técnico, mas isso é fácil. O problema é ter algo importante a dizer no seu filme.”
Em “Ópera! Canção para um Eclipse”, Orfeu e Eurídice são interpretados pelo tenor Valentino Buzza e a soprano Mariam Battistelli. Eles vivem num mundo contemporâneo ao nosso, mas embebido em fantasia. No dia do seu casamento, ela é assassinada, e ele, seguindo a tradição, tenta fazer um acordo para resgatá-la do mundo dos mortos.
Mas não são as composições de Christoph Willibald Gluck para a ópera inspirada na história grega que compõem a trilha sonora. Em vez delas, Gep Cucco e Livermore optaram, por exemplo, por “Nessun Dorma”, de “Turandot”, e “Un Bel Dì Vedremo”, de “Madama Butterfly”.
A elas se somam composições de “Carmen”, “La Boheme”, “La Traviata”, “Manon Lescaut” e “Tosca”. Causa estranhamento, portanto, quando os primeiros acordes de “The Power of Love”, hit oitentista da banda de rock e new wave Frankie Goes to Hollywood, se embrenham pela narrativa operística.
Entoada numa versão digna dos palcos do La Scala, a canção segue os preceitos românticos e trágicos que guiam muitas grandes árias, na visão dos diretores, que mais uma vez reforçam a intenção de eliminar barreiras artísticas com o filme –uma mistura do pop, do barroco e da ópera, resumem.
Mas como todo o projeto, a escolha ainda carrega um significado pessoal. Gep Cuoco escolheu “The Power of Love” como a música de seu casamento e, na hora de buscar um tema para o casal protagonista de “Ópera! Canção para um Eclipse”, só conseguia pensar nela.
“O amor é a luz que afasta a escuridão/ Estou tão apaixonado por você/ Purifique a alma/ E faça do amor o seu propósito”, diz a letra do Frankie Goes to Hollywood, que recai com perfeição sobre os lábios de um Orfeu que, no filme e na tradição, só vê sentido em viver se puder resgatar a amada das trevas.












