O desconforto no diálogo com uma inteligência artificial raramente nasce da máquina. Ele surge quando percebemos que o absurdo da resposta reflete exatamente o que alimentamos nela. É nessa fresta que “Pergunte Alguma Coisa” se instala. Sem caminhar pelo alarmismo da ficção científica e das pregações sobre o avanço tecnológico, o texto de Gustavo Pinheiro prefere a intimidade das miudezas banais: o atraso corriqueiro, a carência disfarçada de dúvida prática e o impulso de desabafar com quem não julga simplesmente por não ser humano.
No círculo de concreto do Tucarena, a plateia ao redor funciona como observador de um circuito fechado da mente. A cenografia de Natalia Miyashiro aposta em quatro cubos luminosos que se rearranjam o tempo todo, redesenhando ambientes e disputas silenciosas de controle. Essa simplicidade visual ganha contornos precisos com os figurinos em preto e branco de Luiza Romar e os cortes de luz desenhados por Marina Meyer, que dialogam com a sonoplastia de Lucas Marcier e a marcação corporal orientada por Fabricio Licursi. Nada no palco sobra ou distrai do embate verbal.
O jogo se sustenta pela sintonia fina entre Daphne Bozaski e Gabriela Medvedovsky. A escuta entre as duas é tão afiada que o texto respira com espontaneidade pura, gerando aplausos em cena aberta pelo puro domínio do ritmo. Essa cumplicidade autoriza improvisos certeiros: ao notarem Mariana Ximenes sentada na plateia em uma das noites, as atrizes não hesitaram em envolvê-la de surpresa para o meio do diálogo das personagens, arrancando risos imediatos da sala.
O revezamento não anunciado de papéis a cada sessão aprofunda essa dinâmica sem parecer exibicionismo técnico. Quando criador e criatura trocam de pele sem aviso prévio, a direção de Guilherme Gobbi revela a dúvida de fundo: quem está treinando quem?
Ver a inteligência artificial absorver e devolver, gesto a gesto, as contradições e tiques da humana à sua frente é um lembrete de que o algoritmo não inventa o vazio contemporâneo, apenas aprendeu a catalogar nossas fraquezas com precisão. O espetáculo deixa no ar a suspeita de que buscar atalhos automáticos é só a nossa forma mais sofisticada de fugir do que realmente sentimos.
Três perguntas para…
… Daphne Bozaski e Gabriela Medvedovsky
Como você desenhou a voz e os microgestos da inteligência artificial para fugir da caricatura do robô mecânico?
DB: Desde as primeiras leituras, buscamos humanizar a personagem a cada fala. O Guilherme Gobbi, diretor, não queria revelar logo de cara quem era a humana e quem era a IA. Por isso, depois de encontrarmos esse tom mais humano —alinhado ao que cada uma vivenciava em cena—, inserimos, em alguns finais de fala, nuances mais mecânicas. A Débora Lamm, nossa colaboradora artística, ajudou imensamente nesse processo. Juntos, fomos lapidando a identidade da nossa IA.
Partindo da premissa de que a máquina é um recorte de tudo o que alimentamos nela, pude alternar entre um corpo mais relaxado e humano e, em momentos pontuais, posturas e gestos maquinais. O ponto alto do processo foi justamente sustentar esse suspense para quem assiste sem saber do enredo prévio, permitindo que a plateia descubra gradualmente quem é quem.
A IA do espetáculo aprende mimetizando a humana. Como a intimidade de anos com a Gabriela permitiu que você capturasse e devolvesse os cacoetes e o ritmo dela em cena?
DB: Quando começamos a levantar as cenas, a nossa conexão foi imediata por já termos trabalhado tanto tempo juntas. Nas improvisações, o jogo cênico fluiu com muita naturalidade. Isso nos deu clareza para dosar exatamente em quais momentos a reprodução de um detalhe ou tique da outra deveria ganhar mais destaque.
A cumplicidade entre vocês é o que dá segurança para o improviso — como envolver a Mariana Ximenes no diálogo — ou essa sintonia prévia às vezes exige cuidado para não virar zona de conforto?
DB: O teatro é um jogo vivo. Se nos acomodarmos na zona de conforto, o acontecimento cênico se perde. A cumplicidade é a base. A partir dela, qualquer improviso surge sobre um terreno seguro. O espetáculo dá espaço para essa liberdade, e a nossa amizade de longa data potencializa o processo.
O que a carência e as mentiras da sua personagem revelam sobre a solidão de quem prefere se abrir com um algoritmo a se expor para outro humano?
GM: Revelam uma dificuldade de olhar para dentro e de se investigar profundamente, um vácuo que abre espaço para a superficialidade. Exploramos isso em cena, por exemplo, por meio das perguntas estapafúrdias que muitas vezes fazemos à IA sem propósito real, ou na ilusão de buscar nela um suporte psicológico que máquina nenhuma é capaz de dar. O espetáculo nos convida a refletir sobre os nossos vínculos: interpessoais, com a tecnologia e, sobretudo, com nós mesmos, questionando como estamos terceirizando e banalizando essas relações.
Vocês já dividiram anos de sets e narrativas na TV. O que “Pergunte Alguma Coisa” exigiu da parceria de vocês em termos de desapego e exposição que nenhum trabalho anterior havia pedido?
GM: Desta vez, fomos desafiadas a trabalhar com um nível de hostilidade inédito para nós. Embora nosso trabalho anterior envolvesse conflitos e antagonismos, nenhum havia chegado à densidade proposta por este projeto. É uma dinâmica complexa de construir justamente porque temos muita sintonia e afeto na vida real. Ainda assim, explorar essa fricção trouxe mais verdade, profundidade e novas camadas ao nosso trabalho.
A arena do Tucarena não permite truques nem escudos. Ter a Daphne dividindo esse centro circular torna o processo de revezamento de papéis mais leve ou aumenta a cobrança mútua?
GM: Torna tudo muito mais leve. Ela é um porto seguro dentro do jogo vivo do teatro. Basta uma troca de olhares para sabermos o que a outra está pensando; jogamos juntas o tempo todo. Sem essa sintonia, o processo seria infinitamente mais complexo.
Tucarena – Rua Bartira, 347, Perdizes, zona oeste. Quinta a sábado, 20h. Domingo, 17h. Até 11/10. Duração: 60 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. A partir de R$ 70 (meia-entrada) em sympla.com.br
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