Nem na França se reconhece direito a extensão do pioneirismo da escritora Claire de Duras. Dona de um salão literário dos mais relevantes no começo do século 19, a duquesa foi autora de obras que provocaram alvoroço nos círculos intelectuais, pautaram o colonialismo francês pelo viés dos dominados e produziram impacto confesso sobre autores como Stendhal, autor de “O Vermelho e o Negro”.
A autora virou febre ao ler seus escritos em voz alta em rodas parisienses que incluíam Alexander von Humboldt e o visconde de Chateaubriand, mas publicou muito pouco em seus 50 anos de vida. O romance “Ourika” foi o único a ter lançamento comercial mais amplo, sem identificação da autora, e esgotou rápido.
Se ainda se especulam as razões pelas quais a duquesa tinha reserva em tornar sua literatura mais conhecida do público —o maior suspeito é o ciúme de um marido possessivo—, sua obra agora é objeto de um resgate que passa por coletâneas na prestigiosa editora francesa Gallimard e alcança o Brasil.
A coleção Clássicos Zahar vai lançar a primeira edição de sua obra no país, reunindo “Ourika” e “Édouard”, duas novelas curtas escritas em 1822. O livro deve sair em 2027 com tradução de Rosa Freire d’Aguiar e prefácio inédito da camaronesa Léonora Miano.
“Ourika” é narrado e protagonizado por uma menina senegalesa que é escravizada, levada à França por um navio negreiro e criada nos costumes europeus. Essa perspectiva literária, raríssima no período, tem provável relação com o fato de a autora ter família com raízes na Martinica e uma irmã mais velha negra, filha de seu pai com uma mulher escravizada.
Diz-se que Claire de Duras definhou no fim da vida, com o abafamento de seu talento e vários casos de plágio por colegas escritores que ouviam suas tramas serem contadas nos salões. É uma história que começa a mudar.
CRIONÇAS Selo da editora Todavia voltado às infâncias, a Baião inaugura em abril a coleção Feroz, voltada ao leitorado pré-adolescente —faixa etária considerada pouco atendida pelo mercado editorial, por ficar numa espécie de limbo entre os livros infantis e juvenis. Outras editoras, como a Escarlate, já têm se recalibrado para mirar esse público, mas um diferencial da coleção da Baião é a autoria exclusivamente brasileira. Os dois primeiros livros serão “Lila Vampira e a Descoberta da Noite”, de Tatiana Heide, e “Safira, a Caçadora de Parafernálias”, de Gustavo Suzuki. Karin Hueck também lançará uma obra pela coleção.
PRONTA PARA EMBARCAR Um dos principais romances brasileiros do ano passado, “Corsária”, de Marilene Felinto, fechou sua primeira publicação internacional. O livro lançado no Brasil em uma parceria das editoras Ubu e Fósforo vai ganhar uma tradução italiana pela Articoli Liberi no segundo semestre. “As Mulheres de Tijucopapo”, o maior clássico de Felinto, já foi publicado em inglês, francês, holandês e catalão.
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FACA NA CAVEIRA Na onda de um dos principais filmes indicados ao Oscar do ano, “Hamnet”, a Relicário e a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro publicam pela primeira vez no Brasil a “Correspondência Hamlet”, com cartas entre o escritor Henry Miller e o crítico Michael Fraenkel que destrincham a peça de William Shakespeare de forma rigorosa e apaixonada. A tradução pioneira no país é de Helena Martins e Marcia Schuback.
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