Diretriz da Sociedade Brasileira de Reumatologia renova lógica do cuidado: menos foco em remédios lados e mais estratégia contínua e personalizada
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Silenciosa, invisível e frequentemente mal compreendida, a fibromialgia afeta milhões de pessoas no mundo e desafia tanto pacientes quanto médicos: causa dor crônica generalizada sem sinais de inflamação, além de cansaço intenso, distúrbios do sono e problemas de concentração.
É nesse contexto que a campanha Fevereiro Roxo (dedicada à conscientização sobre fibromialgia, lúpus e Alzheimer) ganha um reforço científico importante neste ano, com a publicação do novo guideline da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) para fibromialgia.
O documento atualiza recomendações anteriores e renova a lógica do cuidado: fibromialgia não é tratada apenas com medicamentos, mas com acompanhamento contínuo, estratégia terapêutica integrada e foco no funcionamento do sistema nervoso central.
Leia também: O desafio de enfrentar a dor que não vai embora: conheça a realidade da fibromialgia
“O grande avanço é reconhecer que a fibromialgia não é uma dor periférica simples. É uma condição de sensibilização central, em que o cérebro processa a dor de forma amplificada. Isso muda completamente a lógica do tratamento”, explica o neurocirurgião Luiz Severo, especialista em dor.
Caracterizada por dor crônica difusa, fadiga persistente, distúrbios do sono e prejuízo cognitivo, a fibromialgia afeta principalmente mulheres e ainda enfrenta estigma, subdiagnóstico e tratamentos fragmentados.
O principal sintoma da fibromialgia é uma dor generalizada que acomete os dois lados do corpo por mais de três meses. O diagnóstico é clínico, pois não há alterações detectáveis em exames de sangue ou radiografias.
A intensidade da dor pode variar ao longo do tempo e ser desencadeada por fatores como estresse, desenvolvimento de outras doenças como infecções virais ou eventos traumáticos.
Diante desse panorama, o novo guideline da SBR reforça que a doença exige um plano estruturado, personalizado e sustentado ao longo do tempo.
Quem tem fibromialgia pode praticar exercícios físicos?
Entre as principais recomendações do guideline, está o fortalecimento do exercício físico regular como base do tratamento. A Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) destaca que a combinação de atividades aeróbicas com fortalecimento muscular apresenta impacto consistente na redução da dor, melhora do sono, diminuição da fadiga e ganho funcional.
Segundo Luiz Severo, o exercício deixa de ser apenas coadjuvante e passa a ser parte central da terapia. “Não estamos falando de atividade física como algo opcional. O exercício é uma ferramenta de neuromodulação natural, capaz de reorganizar circuitos cerebrais envolvidos na dor. Quando bem orientado, ele reduz a hipersensibilidade do sistema nervoso”, afirma.
Neuromodulação ganha espaço nas diretrizes
Outro ponto de destaque do novo guideline é a valorização da neuromodulação não invasiva, como a estimulação transcraniana por corrente contínua e a estimulação magnética transcraniana.
As técnicas passam a ser reconhecidas como estratégias eficazes, especialmente para pacientes com dor nociplástica – aquela em que não há lesão estrutural, mas disfunção no processamento da dor.
“As evidências mostram que a neuromodulação atua diretamente nos circuitos cerebrais que mantêm a dor crônica. Ela não substitui outras abordagens, mas potencializa os resultados quando integrada a exercícios, psicoterapia e educação em saúde”, destaca Luiz Severo.
O guideline também reconhece evidências para práticas como acupuntura e terapias integrativas, desde que utilizadas de forma complementar e baseadas em protocolos bem definidos.
Pessoas com fibromialgia precisam fazer psicoterapia?
A educação do paciente aparece como mais um eixo do cuidado. Programas educativos estruturados ajudam a melhorar a adesão ao tratamento, reduzir o sofrimento emocional e devolver autonomia à pessoa com fibromialgia.
No campo psicológico, permanecem como abordagens com melhor evidência científica a terapia cognitivo-comportamental (TCC) e a terapia de aceitação e compromisso (TAC), especialmente no manejo da dor crônica e do impacto emocional associado à doença.
“Quando o paciente entende o que está acontecendo com o corpo e o cérebro, ele deixa de lutar contra a dor e passa a manejá-la. Educação em saúde é tratamento”, resume Luiz Severo.
“Cuidar da fibromialgia é cuidar da pessoa inteira. Não existe solução rápida, mas existe tratamento eficaz quando há estratégia, constância e empatia”, acrescenta o médico.
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