Especialistas explicam fenômeno digital, voltado a conquistar seguidores, e fazem alerta dos riscos para quem segue páginas de crimes ‘sem filtro’
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Na busca por viralizar, conquistar seguidores e aumentar o faturamento com anúncios, páginas nas redes sociais — especialmente no Instagram — têm exposto conteúdos de violência sem qualquer filtro ou cuidado com a dignidade das vítimas. Imagens de cadáveres, vídeos de crimes e descrições chocantes circulam livremente, afetando a saúde mental dos usuários e alimentando uma sensação crescente de insegurança e caos urbano.
Nesta reportagem, pesquisadores das áreas de segurança pública, tecnologia e saúde mental analisam os impactos desse fenômeno. Além de discutir o uso ético da informação, especialistas alertam sobre os prejuízos emocionais causados pela exposição contínua a esse tipo de conteúdo, especialmente entre os usuários que se informam principalmente pelas redes sociais.
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“MUNDO CÃO” DIGITAL
Na avaliação de Carlos Schuler, especialista em marketing e mestre em gestão estratégica, essas páginas, principalmente as focadas nos bairros, podem ser comparadas aos programas de TV com foco mais popular e com conteúdo voltado para os problemas nas comunidades e com muito espaço para a cobertura da violência.
“Nesses programas, o noticiário policial gera um número grande de audiência. E isso está refletido hoje na realidade do ambiente digital, onde as pessoas podem dar opinião na hora e podem se posicionar. O engajamento termina sendo gerado porque essas publicações estão próximas da realidade desses usuários”, diz Schuler, que também é professor do Centro Universitário Tiradentes (Unit-PE).
Segundo ele, os criadores dessas páginas não estão preocupados com ética ou responsabilidade social. O objetivo é gerar alcance, provocar reações e monetizar.
“Quem cria páginas de violência não está preocupado com a questão ética e moral. Quer gerar audiência, trazer o conflito, as divergências e, com isso, termina trazendo um resultado que às vezes nem espera. Já o usuário está em busca de consumir uma vida pior do que a dele, por isso consome aquele conteúdo e gera comentários”, detalha.
Ao mesmo tempo, conforme explica o especialista, a lógica das redes amplia esse ciclo. A cada interação com conteúdo violento, os algoritmos entregam mais do mesmo — ampliando a bolha de medo e insegurança.
“Cada vez que as pessoas vão consumindo mais aquela violência, automaticamente a inteligência artificial que está por trás vai enviar mais conteúdos e anúncios relacionados. Isso também traz um alerta aos pais para monitorarem o que os filhos podem ver na internet”, diz.
CRESCIMENTO DE PÁGINAS EM PERNAMBUCO
Pernambuco é um dos estados do País onde há crescimento desenfreado de páginas reportando violência, com imagens de cadáveres nem sempre embasadas e com fotos das vítimas — muitas vezes fornecidas pela própria polícia, mesmo com a proibição por lei.
Nomes das páginas nas redes sociais não serão citados nesta reportagem como forma de evitar aumento de engajamento. Mas um desses perfis, com 144 mil seguidores, afirma ter alcançado 30 milhões de visualizações no período de apenas um mês. Com imagens, vídeos e legendas com descrições chocantes, ela se descreve como uma página que vai deixar “você informado sobre os homicídios e fatalidades de Pernambuco”.
Em reunião recente na sede do Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco (TCE-PE) para discutir o papel dos municípios no combate à violência, o secretário estadual de Defesa Social, Alessandro Carvalho, demonstrou preocupação com a divulgação desenfreada de imagens de violência nas redes sociais, impactando diretamente na sensação de insegurança da população, apesar da redução dos principais crimes observada nos últimos meses.
“Hoje o mundo é rede social. Mudou para o bem e para o mal. Você tem os números em segurança, mas existem várias páginas de bairros que propagam uma imagem de uma pessoa sendo assaltada e quer passar que aquilo ali é regra. Existe a guerra real e existe a guerra da comunicação, que é muito importante também”, disse no encontro.
O número de mortes violentas intencionais caiu 12% no Estado entre janeiro e julho deste ano, em comparação com o mesmo período de 2024. Já os roubos apresentaram redução de 7,4%. Mesmo assim, os comentários nas redes sociais revelam um público tomado pelo medo e pela descrença nas estatísticas.
“MOBILIZAÇÃO DO MEDO”
Pesquisador em segurança pública, tecnologia e dados abertos e doutor em ciência política, Pablo Nunes reforça que o crescimento de páginas com publicações de vídeos e fotos de violência explícita em espaços públicos no País — como circuitos de assassinatos e de assaltos à luz do dia — tem o objetivo de capturar a atenção do usuário para que ele realize ações como curtir, compartilhar e comentar, ampliando o engajamento e a monetização.
“Imagens de violência e de crime acabam suscitando sentimentos muito básicos, muito fundamentais da experiência humana. A gente pode ter, inclusive, pessoas muito bem informadas sobre a geografia do crime, sobre as disputas entre grupos de tráfico e outras modalidades por meio do acompanhamento das notícias diárias. Há um fascínio por essas imagens que também se mistura com o medo”, destaca.
Nunes pontua que as páginas sobre bairros nas redes sociais têm papel relevante na divulgação de serviços públicos e direitos de cidadania. Mas o excesso de violência divulgado por algumas delas, como forma de engajamento, pode levar ao medo exacerbado.
“Há casos em que as páginas de bairro divulgam imagens de crimes ocorridos em outros lugares. Mas o usuário, acostumado com os conteúdos direcionados à localidade onde vive, não percebe que se tratam de cenas de violência de outro bairro ou município, por exemplo. Nesses casos, as páginas acabam se transformando em espaços de mobilização de medo, de uso da violência para engajar e para conseguir mais seguidores e mantê-los”, avalia.
Nas diretrizes, o Instagram declara que pode remover vídeos e imagens de violência explícita. Mas também afirma que “se as imagens forem compartilhadas em relação a eventos importantes e de interesse público, bem como para condenar ou conscientizar e educar, elas poderão ser permitidas”.
CONSEQUÊNCIAS PARA A SAÚDE MENTAL

Violência e as redes sociais – Thiago Lucas/ Design SJCC
Psiquiatra e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Luiz Antonio Santos explica que há uma natural variação nas reações dos usuários ao se depararem com imagens de violência nas redes sociais.
“Quando somos expostos a alguma situação traumática, real ou virtual, nosso cérebro vai ativar várias regiões, gerando cascatas emocionais, com reações de alerta, vigilância, atenção para lidar com aquela situação. A reação pode ser mais ou menos intensa, dependendo do histórico de quem vê. Às vezes a pessoa é exposta a uma imagem de violência e aquilo é um gatilho para alguma lembrança prévia. Por exemplo, a pessoa que foi abusada sexualmente e vê um filme ou imagem na internet com esse conteúdo vai ter uma repercussão bem maior”, ressalta.
A observação é compartilhada pela psicóloga Amithia Pereira, especialista em Terapia Cognitivo Comportamental e Transtorno de Personalidade, que reforça os riscos dessa exposição desenfreada.
“A mente humana tem uma tendência natural ao choque diante desse tipo de realidade. Em um primeiro momento, além de causar possíveis sensações ruins, a depender do que é visto pode gerar uma ruminação da cena através de sintomas de ansiedade e pânico. E até mesmo ser gatilho para desencadear outros sintomas mais complexos de outros transtornos mentais”, afirma.
“Também se torna uma problemática relevante para pessoas que já vivem em contextos em que a violência pode ser mais proeminente. A sensação de insegurança é absurda. E mesmo quem nunca sofreu violência direta começa, por consequência, a viver em vigilância e medo constante. Uma verdadeira criação de ‘delírio e paranoia coletiva'”, acrescenta.
Luiz Antonio Santos destaca outros sintomas de adoecimento mental que podem surgir a partir da frequência do acompanhamento de publicações com imagens de violência.
“A pessoa pode começar a apresentar sintomas de estresse agudo, ansiedade, insônia, hipervigilância, tremores, falta de apetite. E se esses sintomas persistirem por mais de um mês a gente caracteriza como um transtorno do estresse pós-traumático”, pontua o psiquiatra.
A recomendação, nestes casos, é procurar um especialista para avaliação e tratamento da saúde mental.
Amithia Pereira reflete sobre o excesso de tempo que as pessoas gastam no mundo virtual. Para ela, há efeitos positivos e negativos.
“Embora facilite o acesso rápido às informações, comunicação e interconexão entre as pessoas, também gera grande impacto na saúde mental negativamente. Principalmente quando se trata do consumo de conteúdos voltados à violência, como casos explícitos de cenas com mortes.”
ALERTA À PERDA DE EMPATIA
A psicóloga observa, porém, a dificuldade para muita gente de conseguir parar de consumir e buscar esse tipo de assunto nas redes sociais.
“Da mesma forma que o contato inicial com uma cena violenta pode gerar trauma, a insistência e acesso fácil a esse tipo de conteúdo ‘sem filtro’ pode garantir a banalização total do sofrimento alheio. A empatia é uma condição humana que pode aos poucos ser perdida a partir do momento em que nossa mente começa a entender aquele nicho de informações como algo comum e padrão”, finaliza.


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