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Quando se discute se é possível amar a obra de um artista que você odeia, o costume é falar dos erros dos autores. Pablo Picasso, Woody Allen, J.K. Rowling e Roman Polanski são alguns exemplos de artistas que ofuscaram a grandeza de suas obras com essa discussão. Mas a crítica Claire Dederer propõe uma abordagem diferente.
Escrevendo seu livro “Monstros – O Dilema do Fã” (trad. Joca Reiners Terron, Amarcord, R$ 74,90, 384 págs.), ela percebeu que a resposta mais produtiva a essa discussão está em quem consome arte, não em quem a realiza.
“Consumir uma obra de arte é o encontro de duas biografias”, ela escreve no livro. “A biografia do artista, que pode atrapalhar a visualização da arte; e a biografia do espectador, que pode moldar a recepção da arte.”
Separar o autor da obra é tão difícil quanto separar o espectador dela —a subjetividade, em qualquer uma das frentes, é inevitável.
O ensaísta José Miguel Wisnik amplia essa noção na cultura brasileira pelo conceito de “gaia ciência brasileira”, em seu livro “Viagem do Recado” (Companhia das Letras, R$ 99,90, 368 págs.). A expressão, explica o ensaísta Francisco Bosco, foi emprestada de Nietzsche para pensar a arte do Brasil como resultado de uma criação misturada e coletiva, em que autores ecoam outros autores.
No fim, ninguém é dono exclusivo de sua obra. A pergunta, então, talvez não seja “podemos separar autor e obra?”, mas: “quem é esse autor que tentamos separar?”
Acabou de Chegar
“O Bom Mal” (trad. Livia Deorsola, Fósforo, R$ 79,90, 160 págs.) expõe a sutil habilidade da autora Samanta Schweblin “de criar mundos literários que se equilibram na iminência de uma tragédia”, escreve a crítica Sylvia Colombo. O novo livro da escritora argentina trata da finitude através de seis contos com personagens diversos, como mulheres introspectivas, crianças inquietas e animais estranhos.
“História de Jerusalém” (trad. Bruno Ferreira Castro e Fernando Scheibe, Nemo, R$ 129,80, 256 págs.) conta 4.000 anos de história da cidade sagrada em quadrinhos. O roteiro de Vincent Lemire e arte de Christophe Gaultier tem como narradora uma árvore milenar que presencia o nascimento das três grandes religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo). O maior mérito da obra, segundo o crítico Diogo Bercito, é a pesquisa histórica que a embasa.
“Orgia e Compadrio” (Cosac, R$ 132, 368 págs.) é um estudo da trajetória literária e afetiva de Tulio Carella, escritor que chocou o Brasil da década de 1960 com o conteúdo considerado pornográfico em seu livro “Orgia”. “O livro não foi bem compreendido”, afirma Alvaro Machado, autor do livro que sai agora pela Cosac. Ele explica à colunista Sylvia Colombo que a intenção de Carella era fazer um retrato daquele tempo conturbado, de ditaduras na Argentina e no Brasil.
E mais
Nova biografia sobre Robert Crumb mostra um cartunista de estilo inconfundível e temáticas tão contraditórias quanto a sociedade americana em que vive. Como conta o jornalista Diogo Bercito, o pesquisador Dan Nadel decidiu escrever o livro sobre Crumb após perceber que este registrou todas as grandes transformações sociais das últimas décadas em seus desenhos.
Rubens Francisco Lucchetti, morto no ano passado, aos 94 anos, era um escritor intelectualmente solitário que encontrou companhia no Facebook. Na rede social, Lucchetti vendia exemplares de suas obras e contava histórias curiosas de sua carreira, digna do título de mestre do terror. Após sua morte, o pesquisador Rafael Spaca uniu seus posts em um livro. “Ali, ele verbalizava coisas que não costumava dizer”, diz Spaca ao jornalista Ivan Finotti.
Por falta de verba, o governo Lula ainda não comprou os livros necessários para o ano letivo de 2026. A previsão era adquirir cerca de 240 milhões de exemplares, por um custo estimado em R$ 3,5 bilhões, mas o orçamento disponível é de apenas R$ 2,04 bilhões. Agora, como explica o repórter Bruno Lucca, o governo adota a estratégia de compra escalonada, dando preferência para livros de língua portuguesa e matemática antes de adquirir outros didáticos.
Fuvest
Pela primeira vez a Fuvest, vestibular que dá acesso à USP, adota uma lista de leituras obrigatórias composta 100% por autoras mulheres, muitas delas estreantes na seleção. Tanta novidade pode assustar os estudantes, mas traz novos debates para a sala de aula.
“Memórias de Martha”, de Júlia Lopes de Almeida, foi um dos primeiros livros a retratar a vida da população marginalizada dos cortiços do século 19. O ano era 1899 e a autora já publicava uma obra sobre a presença de mulheres nesse contexto, evidenciando as camadas mais profundas de exclusão por que passavam. Júlia, filha de portugueses, era parte da elite carioca da época, mas se colocou como “flanadora” da cidade, mesmo com esse termo se aplicando somente aos homens de então.
Além dos Livros
Jean-Claude Bernardet, um dos maiores críticos do cinema brasileiro, morreu no dia 12 com um livro ainda a ser publicado, conta o Painel das Letras. Seu póstumo “Viver o Medo”, escrito em parceria com a amiga Sabina Anzuategui, sairá pela Companhia das Letras em agosto. Descrito como uma “novela pornô-gourmet”, o livro carrega a mesma liberdade ostentada ao longo de toda a carreira de Bernardet.
A Leiturinha lidera o mercado de clubes de assinaturas de livros com obras para crianças, mas os verdadeiros responsáveis pelo crescimento do clube são os pais e mães interessados em formar pequenos leitores em casa. Com cerca de 280 mil assinantes, a Leiturinha prevê faturar R$ 200 milhões neste ano.
Às vésperas da Flip, a organização da festa de Paraty anuncia uma mesa extra na programação principal com um novo convidado, o escritor português Valter Hugo Mãe. É a segunda vez que o autor vai ao evento e, desta vez, apresentará sua nova obra, “Educação da Tristeza”, e discutirá a adaptação cinematográfica de seu romance “O Filho de Mil Homens”, que estreia na Netflix ainda neste ano. A Flip começa no próximo dia 30 e a mesa extra acontece às 13h30 do dia 1º de agosto.


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