Um arcebispo no frevo: Dom Helder, que defendia a alegria do povo, é homenageado pelo Galo da Madrugada

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Um arcebispo no frevo: Dom Helder, que defendia a alegria do povo, é homenageado pelo Galo da Madrugada


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De batina branca, crucifixo no peito e confetes pousados sobre os raros cabelos brancos, Dom Helder Câmara misturava-se aos foliões do Bloco da Saudade em 1989, diante da Igreja das Fronteiras, no bairro da Boa Vista. Um dos blocos líricos mais tradicionais de Pernambuco cantava seus frevos enquanto o arcebispo dava as mãos, sorria e se deixava embalar pelo ritmo.

Entre confetes e frevo, em 1989, Dom Helder se mistura aos foliões do Bloco da Saudade, um dos mais tradicionais blocos líricos de Pernambuco – Acervo/Instituto Dom Helder Câmara

Em determinado momento, ele ergue o rosto. Olha para o alto como quem busca algo além do barulho da festa. Os olhos se enchem de lágrimas. Não há constrangimento nem distância. Há emoção. A imagem, registrada em vídeo e revisitadas todos os anos quando o Carnaval se aproxima, continua surpreendendo.

Para muitos, a figura de um líder da Igreja Católica no meio da folia ainda parece improvável. Para Dom Helder, era coerência. Ele não via o Carnaval como desvio moral. Chamava a festa de alegria popular.

A defesa da alegria

Em 1º de fevereiro de 1975, durante sua crônica diária na Rádio Olinda AM, no programa “Um olhar sobre a cidade”, o arcebispo decidiu tratar da festa. Comentou letras carnavalescas que ecoavam nas ruas e saiu em defesa do que considerava uma das raras pausas de sonho na vida dura da maioria da população.

Reprodução
Em crônica publicada na Rádio Olinda AM, em 1975, Dom Helder surpreendeu ao defender o Carnaval como um momento legítimo de sonho para o povo – Reprodução

“Ninguém se espante ouvindo-me, neste programa, comentar Carnaval e, até hoje de manhã, ouvindo-me aludir a letras carnavalescas que o povo canta […] O Carnaval é a alegria popular. Direi mesmo uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida. Peca-se muito no Carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o carnaval. Brinque, meu povo querido! Minha gente queridíssima. É verdade que na quarta-feira a luta recomeça, mas ao menos se pôs um pouco de sonho na realidade dura da vida!”

A fala não foi improviso. Expressava uma visão de mundo. Dom Helder acreditava que Deus se manifestava na dignidade humana e que a fé não poderia se afastar da experiência concreta do povo. Essa compreensão ajuda a explicar por que, em 2026, o Galo da Madrugada escolheu o arcebispo como homenageado.

O Galo Folião Fraterno

Jailton Júnior/
A imagem de Dom Helder e o coração instalado no peito do Galo reforçam a mensagem de fraternidade que marca o Carnaval deste ano – Jailton Júnior/

Maior bloco de rua do mundo e símbolo máximo do Carnaval do Recife, o Galo deste ano adota como tema a fraternidade. Batizado de Galo Folião Fraterno, traz no peito um coração que representa a mensagem central da vida do arcebispo.

Na véspera da subida oficial da alegoria, um cortejo saiu do Convento de Santo Antônio até a Ponte Duarte Coelho, conduzindo o último adereço da escultura. Blocos líricos, artesãos e foliões acompanharam o trajeto.

Desde 2019 responsável pelo projeto artístico do Galo, o multiartista Leopoldo Nóbrega afirma que a homenagem é mais que simbólica.

“Através desse coração estamos trazendo o espírito de fraternidade de Dom Hélder. Esse ano, denominado de ‘Galo Folião Fraterno’, apresentamos esse espírito humanista e essa importância de que a gente possa ser mais solidário, dar as mãos, trazer à rua esse protagonismo e mensagem. Esse é um momento simbólico e que vai fazer parte integrante da estrutura do Galo.”

Construída por cerca de 15 artesãos e produtores culturais, a alegoria envolveu oficinas com pessoas em situação de rua e vulnerabilidade social. Redes de arrasto, conchas, lonas descartadas, tampinhas e sobras de cenografia foram transformadas em mosaico. Fragmentos que, unidos, formam um corpo coletivo. A estética dialoga com o pensamento do homenageado.

Dom da Paz

Acervo/Instituto Dom Helder Câmara
Dom Helder cercado por pombas brancas, imagem que reforça a alcunha de Dom da Paz, construída ao longo de sua atuação em defesa dos direitos humanos – Acervo/Instituto Dom Helder Câmara

Chamado de Dom da Paz e Irmão dos Pobres, Helder Câmara foi um dos religiosos brasileiros mais conhecidos no exterior. Fundador da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil em 1952, articulador das pastorais sociais e criador de centenas de Comunidades Eclesiais de Base, ele ajudou a estruturar uma Igreja voltada para a realidade social.

Nomeado arcebispo de Olinda e Recife às vésperas do golpe militar de 1964, tornou-se voz crítica do regime. Denunciou violações de direitos humanos, falou contra a tortura em discursos no exterior e sofreu perseguição. Durante anos, a imprensa brasileira foi proibida de mencionar seu nome. Foi indicado quatro vezes ao Nobel da Paz.

A frase que atravessou fronteiras resume sua postura: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunist”.

Mas a mesma coragem que o colocava diante dos poderosos também o aproximava das ruas. Ele ajudou a criar iniciativas habitacionais para populações de baixa renda, incentivou a organização comunitária e defendia que a fé cristã exigia compromisso com justiça social. A fraternidade não era discurso abstrato. Era prática cotidiana.

Fé e rua

Nos dias que antecediam o Carnaval, blocos costumavam ir até a Igreja das Fronteiras pedir sua bênção. O frevo invadia o pátio. Ele não se recolhia. Recebia os músicos, acompanhava as canções, deixava-se envolver.

Guardião do Convento de Santo Antônio, Frei Edilson vê na homenagem do Galo o reconhecimento dessa dimensão.

“Uma bonita homenagem a quem viveu os ensinamentos de Jesus como Dom Helder. Ele encarnou o próprio Jesus e, como um bom franciscano, viveu os ensinamentos de São Francisco (…) E a gente celebra o Carnaval com todo o mundo e todas as classes sociais, como um verdadeiro carnaval democrático. Essa homenagem também é uma recordação que devemos lutar juntos para construirmos um mundo de paz e de justiça.”

Ao escolher Dom Helder como inspiração, o Galo da Madrugada não celebra apenas uma figura religiosa histórica. Celebra um homem que ousou defender a alegria do povo como direito, não como culpa. A quarta-feira chega, como ele lembrava. A luta recomeça.

Mas antes dela há o frevo, há o riso, há o encontro coletivo. E, neste ano, há também a memória de um arcebispo que não teve medo de acompanhar a multidão e que enxergava, naquela alegria, um sopro de esperança para quem quase nunca tinha tempo de sonhar.



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