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De batina branca, crucifixo no peito e confetes pousados sobre os raros cabelos brancos, Dom Helder Câmara misturava-se aos foliões do Bloco da Saudade em 1989, diante da Igreja das Fronteiras, no bairro da Boa Vista. Um dos blocos líricos mais tradicionais de Pernambuco cantava seus frevos enquanto o arcebispo dava as mãos, sorria e se deixava embalar pelo ritmo.
Em determinado momento, ele ergue o rosto. Olha para o alto como quem busca algo além do barulho da festa. Os olhos se enchem de lágrimas. Não há constrangimento nem distância. Há emoção. A imagem, registrada em vídeo e revisitadas todos os anos quando o Carnaval se aproxima, continua surpreendendo.
Para muitos, a figura de um líder da Igreja Católica no meio da folia ainda parece improvável. Para Dom Helder, era coerência. Ele não via o Carnaval como desvio moral. Chamava a festa de alegria popular.
A defesa da alegria
Em 1º de fevereiro de 1975, durante sua crônica diária na Rádio Olinda AM, no programa “Um olhar sobre a cidade”, o arcebispo decidiu tratar da festa. Comentou letras carnavalescas que ecoavam nas ruas e saiu em defesa do que considerava uma das raras pausas de sonho na vida dura da maioria da população.
“Ninguém se espante ouvindo-me, neste programa, comentar Carnaval e, até hoje de manhã, ouvindo-me aludir a letras carnavalescas que o povo canta […] O Carnaval é a alegria popular. Direi mesmo uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida. Peca-se muito no Carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o carnaval. Brinque, meu povo querido! Minha gente queridíssima. É verdade que na quarta-feira a luta recomeça, mas ao menos se pôs um pouco de sonho na realidade dura da vida!”
A fala não foi improviso. Expressava uma visão de mundo. Dom Helder acreditava que Deus se manifestava na dignidade humana e que a fé não poderia se afastar da experiência concreta do povo. Essa compreensão ajuda a explicar por que, em 2026, o Galo da Madrugada escolheu o arcebispo como homenageado.
O Galo Folião Fraterno
Maior bloco de rua do mundo e símbolo máximo do Carnaval do Recife, o Galo deste ano adota como tema a fraternidade. Batizado de Galo Folião Fraterno, traz no peito um coração que representa a mensagem central da vida do arcebispo.
Na véspera da subida oficial da alegoria, um cortejo saiu do Convento de Santo Antônio até a Ponte Duarte Coelho, conduzindo o último adereço da escultura. Blocos líricos, artesãos e foliões acompanharam o trajeto.
Desde 2019 responsável pelo projeto artístico do Galo, o multiartista Leopoldo Nóbrega afirma que a homenagem é mais que simbólica.
“Através desse coração estamos trazendo o espírito de fraternidade de Dom Hélder. Esse ano, denominado de ‘Galo Folião Fraterno’, apresentamos esse espírito humanista e essa importância de que a gente possa ser mais solidário, dar as mãos, trazer à rua esse protagonismo e mensagem. Esse é um momento simbólico e que vai fazer parte integrante da estrutura do Galo.”
Construída por cerca de 15 artesãos e produtores culturais, a alegoria envolveu oficinas com pessoas em situação de rua e vulnerabilidade social. Redes de arrasto, conchas, lonas descartadas, tampinhas e sobras de cenografia foram transformadas em mosaico. Fragmentos que, unidos, formam um corpo coletivo. A estética dialoga com o pensamento do homenageado.
Dom da Paz
Chamado de Dom da Paz e Irmão dos Pobres, Helder Câmara foi um dos religiosos brasileiros mais conhecidos no exterior. Fundador da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil em 1952, articulador das pastorais sociais e criador de centenas de Comunidades Eclesiais de Base, ele ajudou a estruturar uma Igreja voltada para a realidade social.
Nomeado arcebispo de Olinda e Recife às vésperas do golpe militar de 1964, tornou-se voz crítica do regime. Denunciou violações de direitos humanos, falou contra a tortura em discursos no exterior e sofreu perseguição. Durante anos, a imprensa brasileira foi proibida de mencionar seu nome. Foi indicado quatro vezes ao Nobel da Paz.
A frase que atravessou fronteiras resume sua postura: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunist”.
Mas a mesma coragem que o colocava diante dos poderosos também o aproximava das ruas. Ele ajudou a criar iniciativas habitacionais para populações de baixa renda, incentivou a organização comunitária e defendia que a fé cristã exigia compromisso com justiça social. A fraternidade não era discurso abstrato. Era prática cotidiana.
Fé e rua
Nos dias que antecediam o Carnaval, blocos costumavam ir até a Igreja das Fronteiras pedir sua bênção. O frevo invadia o pátio. Ele não se recolhia. Recebia os músicos, acompanhava as canções, deixava-se envolver.
Guardião do Convento de Santo Antônio, Frei Edilson vê na homenagem do Galo o reconhecimento dessa dimensão.
“Uma bonita homenagem a quem viveu os ensinamentos de Jesus como Dom Helder. Ele encarnou o próprio Jesus e, como um bom franciscano, viveu os ensinamentos de São Francisco (…) E a gente celebra o Carnaval com todo o mundo e todas as classes sociais, como um verdadeiro carnaval democrático. Essa homenagem também é uma recordação que devemos lutar juntos para construirmos um mundo de paz e de justiça.”
Ao escolher Dom Helder como inspiração, o Galo da Madrugada não celebra apenas uma figura religiosa histórica. Celebra um homem que ousou defender a alegria do povo como direito, não como culpa. A quarta-feira chega, como ele lembrava. A luta recomeça.
Mas antes dela há o frevo, há o riso, há o encontro coletivo. E, neste ano, há também a memória de um arcebispo que não teve medo de acompanhar a multidão e que enxergava, naquela alegria, um sopro de esperança para quem quase nunca tinha tempo de sonhar.





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