TV Cultura não está a serviço de interesses partidários, afirma nova presidente

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TV Cultura não está a serviço de interesses partidários, afirma nova presidente


Na eleição, em maio, que levou a produtora Maria Angela de Jesus à presidência da Fundação Padre Anchieta, havia dúvidas sobre o posicionamento de conselheiros ligados ao governo paulista, após os atritos entre a TV Cultura e a gestão estadual. Haveria quórum para elegê-la? A resposta veio logo. Ela venceu com folga, teve 37 dos 47 votos possíveis.

O presidente anterior, José Roberto Maluf, tinha decidido não concorrer a um terceiro mandato; sua saída, apostava-se, seria um jeito de baixar a fervura da crise que se instalara.

A chegada de Jesus, então, é uma esperança de selar a paz de lado a lado. A executiva traz no currículo uma passagem de mais de 20 anos pela HBO, onde chefiou produções do estúdio no Brasil, e também por Netflix e Paramount.

Estava sossegada cuidando de projetos na Conspiração Filmes, apostando que a partir de agora ia se dedicar só ao trabalho criativo no audiovisual, longe de funções corporativas. Mas resolveu topar a oportunidade.

Há quase um mês no cargo, ela fala em restabelecer o diálogo com o governo estadual. Vê possíveis frentes para trazer receita para a TV Cultura no mercado privado, mas diz que a Fundação não pode prescindir de recursos públicos —e que precisa das verbas já previstas para o ano.

Nesta entrevista, a executiva relembra sua trajetória no mercado audiovisual, explica seus planos para a fundação e reafirma a independência editorial da emissora. Você lê um resumo da conversa abaixo.

A senhora é a primeira mulher e a primeira pessoa negra a presidir a Fundação. O que isso representa para a TV Cultura e o que indica sobre o seu mandato?

Não tinha caído a minha ficha para essa questão de ser a primeira mulher. Quando começaram a falar, vi o quanto isso é imenso. E ser a primeira mulher negra é mais um degrauzinho.

O que me preocupa hoje é garantir que eu não seja a única. Quero dar continuidade a esse legado, trazer mais mulheres e mais pessoas pretas. Não tem a ver com números, mas com abrir oportunidades de verdade. A TV Cultura sempre foi aberta e tem um histórico de ser muito plural e inclusiva.

A sra. já deve ter tido a chance de falar com os integrantes do governo que estavam em atrito com a gestão anterior. Em que pé está essa relação?

Sim, tive chance. Falei com os funcionários e também tivemos uma reunião muito boa com a secretária de Cultura, Economia e Indústria Criativas, Marília Marton. A Neca [Setubal, socióloga eleita para presidir o conselho curador] me dá muita força, então fomos juntas.

Saímos de lá felizes. Durante toda a sabatina, falei muito sobre isso: temos que restabelecer o diálogo.

Havia uma grande dúvida se sua eleição teria quorum, mas a sra foi eleita com uma maioria confortável. Foi preciso costurar esse apoio nos bastidores?

Eu não tenho essa vertente política, eu venho de um outro lugar. Quando fiz a sabatina [com o conselho curador], eu estava muito tranquila e fui muito bem recebida. Acho que o meu perfil profissional foi o que ficou na mesa.

Chegar à Cultura por sua trajetória no mercado e não pela política dá mais independência de gestão?

Não sei se me dá mais autonomia, mas me dá força na tomada de decisões. Claro que sabemos de todas as questões, mas não podemos esquecer que a TV Cultura nasce de um estatuto e lá está muito clara a autonomia da emissora.

Como emissora pública, voltada para a educação, informação e cultura, a TV Cultura pode ter a tranquilidade de buscar inovação, fazer conteúdos que não estão nas outras emissoras. Um exemplo são os infantis. Não há uma grade infantil nas demais emissoras abertas, e esse lugar da Cultura é extremamente importante.

Como atrair essas novas gerações?

Não podemos deixar de olhar para o que temos agora. Temos que buscar narrativas mais estruturadas, mais longas, para deixar essa criança pelo menos meia hora vendo TV e não passando o dedinho numa tela.

A primeira mudança estrutural que fizemos foi juntar as áreas de produção e programação. Trouxe a Beth Carmona [para ser vice-presidente], que já tinha sido da TV Cultura e é uma diretora com um olhar impecável sobre o infantil.

O caminho então seria não imitar a linguagem das redes em busca desse público?

Estaríamos fazendo mais do mesmo. A ruptura agora é voltar para um olhar fora disso tudo. Agora estamos vendo produções lançadas uma vez por semana, em vez de tudo de uma vez. Isso é válido não só para os adultos, mas também para o público infantil. Há um esgotamento dessa linguagem muito rápida, que não dá um momento de descanso.

Nos últimos anos, a fatia de dinheiro público no orçamento total da Cultura vem encolhendo. Como a sra. pretende lidar com essa questão?

Precisamos desse apoio do governo, mas também de novas formas de rentabilidade. E isso passa pelo conteúdo. Vamos buscar parcerias. A TV Cultura não tem esse desenho de espaços puramente comerciais, mas vamos estabelecer parcerias para a produção de conteúdo. Queremos construir propriedades intelectuais fortes, que perdurem por anos.

Pode dar exemplos objetivos?

A que fizemos agora com o Sesi para o “Mundo da Lua”. Essa foi uma parceria muito boa, criamos um conteúdo com o Sesi nos apoiando diretamente, sendo coprodutor.

Também há um caminho na coprodução com empresas públicas, com TVs públicas estrangeiras… Temos visto esse movimento no mundo todo, de buscar coproduções como uma forma de sustentabilidade para emissoras públicas.

Estamos fazendo uma grande revisão da nossa grade de programação. Tenho conversado com as nossas equipes para estabelecer algumas faixas de horários. Já fazemos isso com o infantil durante o dia, mas queremos também nos conteúdos noturnos.

Havia uma impressão de que o governo estadual queria interferir na TV Cultura. Se o governador pedir amanhã que você convide alguém para o Roda Viva, por exemplo, o que você vai fazer?

Não enfrentamos isso. Volto para o estatuto da TV Cultura, é uma emissora criada com independência. Ela não deverá estar a serviço de agendas partidárias.

Nosso jornalismo é de análise, não compete com o diário, porque temos uma estrutura que nos permite trabalhar com esse tempo de realização.

Quando há uma linha editorial clara, fica mais fácil aceitar ou dizer não para uma pauta ou determinado nome. Estamos fazendo esse trabalho de definir com muita clareza qual é a linha editorial da emissora. Isso vai garantir a possibilidade de dizer que algo não vai de encontro à nossa linha. Com isso, as conversas fiquem mais diretas e transparentes.

A sra. vai tentar aumentar a fatia de recursos do governo na TV Cultura?

Hoje nosso orçamento é composto de 55% de recursos do governo e 45% de recursos privados. Nossa ideia é manter isso. Claro que, quando buscamos mais independência, queremos também formas de rentabilizar a empresa.

Mas a participação do governo é muito importante para uma TV pública. Não podemos ficar à mercê das parcerias comerciais, porque senão o funcionamento da emissora fica em risco.

Queremos fechar o ano com o que temos. Não sei se passa necessariamente por um aumento, o que temos que ter é uma garantia de que, se a situação estiver muito complicada, precisamos de um apoio. Esse é o diálogo que precisa ser retomado e travado.

Senão você não tem respiro, não consegue pensar numa grade, em melhorias de produção etc. Precisamos de uma resposta sobre o que vamos ter [em termos orçamentários] e o que não vamos já de saída. Mas, neste momento, trabalhamos para manter o que temos.


RAIO-X | MARIA ANGELA DE JESUS, 61

Nascida em Mogi Mirim (SP), é presidente executiva da Fundação Padre Anchieta. Jornalista de formação, atuou em veículos de imprensa antes de migrar para a HBO, onde chegou a vice-presidente de produções originais no Brasil, trabalhando nas primeiras séries feitas pelo estúdio no país, como “Mandrake” e “Filhos do Carnaval”. Ocupou ainda os cargos de diretora de originais da Netflix e chefe de produção de conteúdo da Paramount+ no Brasil. É uma das principais executivas do mercado audiovisual brasileiro.



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