Filha de Xangô, Teresa Cristina é justa. Em seu trabalho como intérprete, gosta de jogar luz em versos que talvez tenham passado despercebidos pelo público. Fez isso quando regravou Candeia, Paulinho da Viola, Cartola e, agora, em seu novo álbum, “Jessé – As Canções de Zeca Pagodinho”.
Produzido por Pretinho da Serrinha, o trabalho é uma homenagem ao lado compositor de Zeca, que, para ela, é preciso ser reverenciado.
“As pessoas falam muito do Zeca engraçado, boêmio. Mas tem uma seriedade na caneta que a gente precisa levar em consideração para a música brasileira. É um compositor muito sério. Mais sério do que o personagem”, diz a sambista.
A ideia surgiu na pandemia, enquanto fazia lives no Instagram resgatando as obras dos artistas. Por intermédio de Cissa Guimarães, ligou para os filhos de Zeca a fim de convidá-lo para uma transmissão sobre suas composições. Ele desconversou.
“Eu entendi que ele ficou relutante porque ele não gosta de falar dele mesmo. Pensei ‘bom, vou ter que falar de alguém que ele goste’. No dia do aniversário do Almir Guineto, liguei para o Zeca para ele participar. Prometi que não ia falar dele, só do Almir Guineto. Ele topou na hora. A live estava marcada para as 19h. Deu 18h15, ele me ligou e já começamos. Eu vi o amor dele falando do Guineto, do Beto Sem Braço. Percebi que alguém precisava falar do Zeca da mesma maneira que ele fala dos seus parceiros.”
Zeca Pagodinho lançou seu primeiro disco solo em 1986, pela RGE. Logo na estreia, vendeu mais de um milhão de cópias. Dado seu grande apelo comercial, ele abriu mão de gravar suas próprias canções para ajudar financeiramente outros compositores, amigos que conseguiam sobreviver com a receita vinda do direito autoral. No entanto, sempre teve apreço pelas próprias letras.
“Você sabe o que o Zeca tem dentro do cofre dele? Ele tem o primeiro disco do Monarco, aquele de capa amarela, um disco do Odair José e um caderno com as letras que faz. Porque o negócio dele sempre foi a letra. Ele é mestre em ouvir uma melodia e fazer a letra na hora. Coisa de partideiro. Ele tem uma ligação direta com o invisível.”
Teresa utilizou alguns filtros para chegar nas nove canções do disco. O primeiro, claro, foi sua ligação emocional com as canções, para “sair do cover” e dar seu próprio tom às interpretações. O segundo foi iluminar as letras menos conhecidas do bamba.
Além disso, tentou fugir do que chamou de “Zeca do Velho Testamento” —sambas que narram um período de dificuldades financeiras e que o próprio artista evita cantar hoje, pois “não seria justo com Deus”. Por fim, a abordagem de gênero. “Quando é somente uma dor de cotovelo, tudo bem. Mas quando a mulher vira pecadora, leviana, aí não faz mais sentido cantar”, diz a sambista.
Ela também gravou um medley com “Pedreira de Xangô” e “São José de Madureira” para lançar como single em breve. Sobre a primeira, Teresa ficou surpresa ao encontrar uma composição inédita do sambista para o seu orixá.
“Eu corri atrás dela durante cinco anos. Eu já estava quase desistindo, mas achei uma menina cantando no YouTube. Zeca sempre está falando de Ogum, quase nunca cita Xangô nas letras. E ainda é um calango, que é um ritmo que eu adoro. Encarei como um presente.”
Se as canções mostram a profundidade de Zeca, as escolhas de Teresa também revelam o atual momento da intérprete, que está cuidando da mãe, Dona Hilda, diagnosticada com Alzheimer.
“É como se eu fizesse com alguém o que eu gostaria que fizessem comigo. Não estou me comparando ao Zeca, mas eu sou arrimo de família. Eu não sou eu, eu sou muita gente —sou minha mãe, sou minha filha, sou meus irmãos. E, às vezes, de tanto cuidar dos outros, a gente pensa: quem vai cuidar de mim? Nesse álbum, eu quis retribuir ao cidadão Jessé, que faz muito por muita gente sem fazer nenhuma propaganda.”
A primeira faixa, “Pisa como Eu Pisei”, também ilustra oportunamente uma discussão atual sobre o consumo de roda de samba no país. Recentemente, a sambista fez um vídeo apontando certo desrespeito por parte de público e produtores de eventos que querem ditar o repertório dos artistas, insistem para só cantarem músicas alegres, “para cima”.
“Não é porque pagou que pode fazer isso. Tem que ter Cartola, tem que ter Mano Décio da Viola. O samba dolente tem que acontecer. Quanto mais dolente, mais bonito. Se não gostou, vai para uma boate.”
Apesar da informalidade da roda, que produz uma energia e convida o público a participar, o formato tem fundamentos que nem todo mundo conhece.
“É preciso de uma cartilha mínima de bom senso. Se você sabe o samba, pode colar na roda. Ajuda a cantar e a levar o samba para a galera lá de trás. Se não sabe o samba, sai de perto. E não atende o celular perto da roda. Se está esperando uma ligação, se está de olho em alguém, não atrapalha o músico.”
Para Teresa, as rodas acústicas, sem microfonação, têm caráter educador para esse novo público que chega. “Lugares como Samba da Serrinha, Poeira Pura, Terreiro de Mangueira são onde eu vou para aprender samba. Elas fazem o trabalho de formiguinha de tornar um samba conhecido. Hoje, a gente ouve um monte de samba famoso, que todo mundo canta, mas ele se tornou conhecido porque a roda existiu nele.”







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