Pesquisa em 31 países da OCDE revela diminuição do desempenho em matemática e leitura nos últimos dez anos, por exposição a informações demais
JC
Publicado em 27/01/2026 às 0:00
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Um estudo realizado de dez em dez anos em 31 países ricos, da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) aponta que a cultura digital vem dificultando a aptidão intelectual de indivíduos que já deixaram o ensino básico – e exibem incapacidade para resolver problemas simples do cotidiano, utilizando-se da matemática elementar e da leitura. O Survey of Adult Skills desatrela a educação eficiente do nível da economia, indicando que o importante são escolhas certas para a manutenção da capacidade de aprender – e aplicar o conhecimento – ao longo da vida, sobretudo, mas não apenas, na idade economicamente ativa.
A leitura da bula de remédios e a solução de contas bancárias simples estão entre as aptidões investigadas. Os resultados continuam satisfatórios em países como a Finlândia, a Noruega e o Japão, e sofreram queda no Chile, na Itália, em Portugal e nos Estados Unidos. No Japão e na Finlândia, há restrições ao aprendizado exclusivamente digital, com a preferência do ensino presencial em bancas escolares tradicionais. Mas isso não é o bastante diante dos desafios da cultura digital, onde os adultos, de modo geral, deixam para trás a formulação e a leitura de textos longos, reduzindo o alcance e a profundidade da assimilação das informações. A superficialidade das telas onde as informações deslizam ao toque dos dedos parece levar a consequências não apenas culturais, mas também econômicas, tanto para os indivíduos quanto para a coletividade – e não são consequências boas.
A pesquisa faz emergir um paradoxo contemporâneo: mais informações disponíveis não significam melhor compreensão delas, pelo contrário, se o mundo virtual é a fonte da apreensão. No caso da cultura digital, aliás, a melhor palavra é consumo de informações: uma vez consumido, o dado é descartado ou esquecido, passando-se para a próxima tela e seu conteúdo igualmente descartável. A população jovem pode ser a mais afetada pela digitalização do ensino e do modo de vida, mas todos estamos expostos aos efeitos corrosivos dos olhos pregados nas telas, em grande parte do dia.
Para Maria do Rosário Longo Mortatti, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em entrevista à revista Veja, “não se trata apenas de recuo nas habilidades avaliadas, nem exclusivamente de insuficiência da educação escolar, mas do reflexo de fenômenos mais amplos, ligados a demandas cotidianas cada vez mais c complexas”. O problema é inicialmente da educação, mas não se restringe a ela, pela devastação cultural associada à digitalização de tudo. No Brasil e em outras partes do mundo, a proibição do uso dos celulares em sala de aula se mostrou necessária para estancar o vertiginoso declínio no aprendizado, especialmente nos anos da pandemia de Covid e seguintes. E os primeiros indícios são de melhoria do desempenho escolar, após a implantações de restrições aos celulares nas escolas.
Do lado de fora, em casa, nas atividades profissionais e sociais, a atenção é requerida, do ponto de vista dos indivíduos, para não cairmos no abismo da desinformação formada por informações demais.





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