Silvana Tavano foi ‘andar no deserto todo dia’ e de lá tirou seu livro que venceu Oceanos

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
Silvana Tavano foi ‘andar no deserto todo dia’ e de lá tirou seu livro que venceu Oceanos


Toda manhã, Silvana Tavano vai andar no deserto. Não literalmente, afinal ela mora na Vila Madalena, em São Paulo. Mas é como se fosse.

A autora ouviu essa frase de Amós Oz uma vez e sentiu que nada definia tão bem o processo por que precisava passar para começar a escrever. Seu deserto é a ginástica na academia, o mercado onde procura por ração de gatos. Ali, esvazia sua mente todas as manhãs. Ao voltar para casa, “abre a lojinha” da literatura.

“É o que sempre falo para meus alunos. Tem que abrir todo dia”, diz a escritora de 68 anos. “Nos bons dias, aparece muito cliente. Mas às vezes você não tem tempo de ficar no balcão, porque tem email, rede social, o mundo que puxa a gente para fora do nosso mundo.”

As ideias costumam bater ponto —e foram clientela tão fiel que seu livro mais recente, “Ressuscitar Mamutes”, foi o único finalista brasileiro de prosa no último prêmio Oceanos, o mais importante da literatura em língua portuguesa. Disputava contra o moçambicano Mia Couto, o angolano José Eduardo Agualusa e dois portugueses. Ganhou.

Tavano é a primeira perfilada na série especial Lugar de Escrita, que visita autores em seus locais de trabalho para discutir seus métodos, rotinas e processos criativos.

“Ressuscitar Mamutes”, publicado pela Autêntica Contemporânea, é um tipo de romance híbrido que desafia cada vez mais as velhas convenções literárias. Escrito em primeira pessoa, contém muitas histórias sobre a relação de Silvana com sua mãe, já morta.

Também foi despertado, de fato, pela cena que abre o livro —o marido Duda gritando que ela viesse ver um documentário que estava passando na tevê. O filme contava que cientistas defendiam trazer mamutes de volta à vida, após milênios de extinção, como uma solução promissora para combater os efeitos deletérios do aquecimento global.

O documentário até levanta argumentos, mas como diz Silvana, “é absurdo, deve ter umas soluções mais fáceis”. “Só que essa coisa de irem buscar no passado uma solução para o futuro me fez pensar. É o mesmo processo que fazemos na terapia.”

Estava aí uma chave fascinante para discutir o tempo, seu tema de predileção desde sempre. O livro mobiliza físicos como Carlo Rovelli, escritoras como Margaret Atwood, psicanalistas como Contardo Calligaris para pensar como o tempo, na verdade, está sempre prensado no agora.

Vem das “Confissões” de Santo Agostinho o trecho mais didático: “Esses três tempos existem de algum modo na alma, e em outro lugar não os vejo. O presente do passado é a memória, o presente do presente é a contemplação e o presente do futuro é a expectativa.”

Esse tempo concentrado, intenso, fissurava Silvana na pandemia. E, no meio disso tudo, surgiram as lembranças de sua mãe. “Ela me dava oportunidade de pôr em cena exatamente o que eu estava buscando, essa simultaneidade do tempo. Porque mãe é eterna, para todo mundo.”

Como fica evidente na leitura, inclusive nos trechos que mais levam às lágrimas, o livro recorre bastante à ficção —imaginando o que poderia vir a ser. E o que é real ou não na história faz pouca diferença. “O que importa é o que a linguagem faz a partir disso”, diz a autora.

É uma frase curiosa de alguém que fez sua carreira no jornalismo. Hoje escritora premiada, ela foi editora de saúde e beleza da revista Marie Claire de 1989 a 1995 e de 2000 a 2008. Já no final dessa época, começou a escrever livros para crianças para se distrair “do dia a dia de batom e câncer de mama”.

Escreveu cerca de 30 livros infantis e há três anos ganhou o Jabuti no gênero, com o ilustrador Daniel Kondo, por “Sonhozzz”. Diz que há “muito preconceito” contra quem quer escrever literatura adulta depois de fazer sucesso com crianças, mesmo que o contrário não aconteça.

Silvana enfim emplacou seu primeiro romance, “O Último Sábado de Julho Amanhece Quieto”, na Autêntica. Chegou à final do prêmio São Paulo de Literatura, e os mamutes vieram naturalmente depois.

Ela foi juntando as peças do livro no mesmo escritório onde conversa com repórter e fotógrafo, numa tarde pesada de chuva, contraste com sua presença leve e afável. Aquele é o espaço onde consegue encontrar seu “parênteses mental”, diz, escrevendo entre estantes e um MacBook.

Fora da janela, frutas para atrair pássaros. Distribuída à mesa, a literatura que a tem inspirado —Marília Garcia, Neige Sinno, Eric Kandel. Quer ver se engata uma releitura de “Anna Karenina”. Mas quando o repórter pede recomendações, quer destacar autoras jovens brasileiras, como Isabela Noronha e Julia Barandier.

Tavano conta que não faz muito tempo que aquele cômodo foi reformado para abrigar seu ambiente de trabalho. Ali antes dormia seu filho, Caio, hoje um homem de 31 anos que mora com a parceira em um bairro distante. Foi do quarto de onde saiu seu filho que lhe ocorreu escrever sobre a mãe. O tempo realmente está todo aqui agora.



Source link

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

Nunca perca uma notícia importante

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *