Há 34 carnavais, músico e sua orquestra seguem o Homem da Meia-Noite: ‘É algo que não se repete. Nunca deixo de derramar uma lágrima’
Emannuel Bento
Publicado em 05/02/2026 às 10:00
| Atualizado em 05/02/2026 às 11:53
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A saída do Homem da Meia-Noite, no Bonsucesso, é um dos momentos mais emblemáticos do Carnaval de Pernambuco. Maestro Carlos acompanha o clube há 34 anos com sua orquestra, mas, sempre que o calunga cruza a porta da sede, a sensação é de estreia.
“É algo que não se repete. Nunca deixo de derramar uma lágrima na saída dele. É muito emocionante. Não virou rotina para mim. A cada ano surge uma novidade, um sorriso diferente. É interessante”, conta ao JC, em entrevista na sede da agremiação.
Ele reforça a dimensão simbólica do cortejo. “Quem nunca viu o Homem saindo de perto não sabe o que está perdendo. Para mim, chega a ser impensável brincar o Carnaval e não ver essa saída.”
Sempre que fala com a imprensa, o maestro de 59 anos relembra um episódio da infância, quando viu o boneco ainda sem os trajes, dias antes da festa. “Eu nem tocava ainda. Perguntei ao meu pai: ‘você viu o que eu vi?’. No sábado mesmo, acabei dormindo e perdi a saída”, recorda, entre risos.
Há também uma memória menos comentada. Em certa ocasião, uma equipe de reportagem visitava a sede e ele precisou segurar o calunga para uma foto. “Naquela época, era mais pesado do que hoje.”
Trajetória
Carlos Rodrigues da Silva começou na música tocando percussão e corneta em uma banda marcial do Colégio Estadual de Olinda. Em seguida, ingressou no Conservatório Pernambucano de Música, onde se aperfeiçoou no trompete.
Na Fundação Casa das Crianças, então um relevante polo de formação musical da cidade, foi aluno e depois professor, substituindo Jaime Chaves após a aposentadoria.
“Montei uma bandinha para tocar repertório variado e começaram a surgir convites de vários blocos. Como eram adolescentes, a gente ainda não podia sair muito na rua. Depois passei a ensaiar nos clubes de troça, como o próprio Homem, o Cariri Olindense e o Vassourinhas de Olinda. Foi quando minha orquestra começou a ganhar destaque”, afirma.





O grupo nasceu como Orquestra Armação Musical e, mais tarde, passou a se chamar Orquestra Armação do Maestro Carlos. A relação com o Homem da Meia-Noite surgiu justamente nesse contexto de formação, com aulas de música para jovens da comunidade na sede do clube.
Hoje, além do Homem, a orquestra também desfila com agremiações tradicionais como Virgens de Bairro Novo, Menino da Tarde, O Majestoso e Pitombeira dos Quatro Cantos.
Durante os quatro dias de folia, o principal desafio é o fôlego. “Termina um bloco, já tem outro. O desgaste é grande. Mas o Carnaval significa muito para mim. No ano da pandemia, quando não teve festa, eu fiquei muito mal. Tudo o que conquistei foi por causa do Carnaval.”
Onde aprender frevo?


Hoje, Carlos lamenta a redução de espaços dedicados ao ensino do frevo em Olinda. Para ele, iniciativas como a do Grêmio Musical Henrique Dias resistem quase sozinhas.
“Poderia haver muito mais lugares para aprender. Antigamente, a comunidade tinha mais acesso à música. O próprio Vassourinhas já me convidou para voltar a ensinar lá”, diz.
O maestro também demonstra preocupação com o futuro do ritmo na cidade. Na sua avaliação, é preciso organizar melhor os desfiles para preservar o protagonismo do frevo na Cidade Alta.
“Existem certas agremiações, que nem sei se posso falar, que são as escolas de samba, que às vezes atrapalham na cidade. Elas teriam de ter um lugar específico para desfilar, não na Cidade Alta. A parte alta é do frevo, das pessoas que gostam do frevo, dos blocos que existem, suas fantasias e tudo mais. Temos dificuldade para nos locomover de um lugar para o outro.”
Ele conclui com a mesma convicção que o move há mais de três décadas. “Quando estou com minha orquestra, em qualquer evento, o pessoal reconhece. É uma orquestra que tem identidade, tem alma, e isso a gente leva para onde for.”
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