Em seu desfile masculino na Semana de Moda de Paris em janeiro passado, a diretora criativa Rei Kawakubo, mente à frente da Comme des Garçons, apresentou a coleção Buraco Negro —na qual lançou um séquito de manipulações da alfaiataria em preto e branco.
Blazers cortados na altura do umbigo, peplum e torção de tecidos foram alguns dos elementos exibidos, em desafio ao figurino de trabalho habitual. Os modelos usavam máscaras, algo entre Hannibal Lecter e jogador de hóquei, e calçavam sapatos de couro preto com a frase “vista sua liberdade” pintada.
Já na apresentação de Marc Jacobs na semana passada, antes do início oficial da Semana de Moda de Nova York, a alfaiataria surgiu clássica à primeira vista. Os tailleurs e casacos foram enxutos em comparação à silhueta exagerada das coleções anteriores.
Mas logo notou-se que a linha das peças, no contorno do corpo, era de fato mais seca, não justa. Os cós das saias ganharam volume e distância da pele, como esculturas. Dava até para fazer de bolso e pôr as mãos dentro.
Anthony Vaccarello, no mais recente desfile masculino da Saint Laurent, vestiu os modelos com paletós justos sem camisa por baixo, pijamas listrados e camisas transparentes. A alfaiataria surgiu sensual, ainda que com recursos tradicionais como a sobriedade na paleta, ombros marcados e risca de giz.
A roupa de escritório, cunhada pelo termo em inglês “office wear”, que durante a pandemia adotou uma faceta mais confortável —graças, em parte, ao home office—, ganha interpretações mais plurais na passarela.
Desta combinação surgiram outros termos que invadiram as redes sociais com o tempo, “office core” ou “corpcore”, o segundo em alusão ao mundo corporativo. No fundo, ambos abrangem a sobriedade clássica do escritório. Agora, se a sisudez é torcida, ou seguida, vai do gosto de cada trabalhador.
“As experimentações são uma resposta a promessas sérias e caretas de sucesso, muitas vezes não cumpridas. É uma adaptação, mas que não perde um ideal de sofisticação”, afirma o stylist Marcio Banfi, que leciona no curso de moda da faculdade Santa Marcelina. “Com a alfaiataria, sempre há o desejo de parecer caro. Na C&A, as peças do tipo são as mais custosas.”
Ora inovadora, ora conservadora, a alfaiataria é reinterpretada a vapor em coleções masculinas e femininas. A Dior de Jonathan Anderson, por exemplo, deu um toque militar napoleônico aos blazers, para eles e para elas. “O militarismo têm aparecido muito, especialmente com o trench-coat, uma peça com tradição alfaiate feita para as trincheiras”, afirma o stylist.
Com frequência, as releituras seguem um outro referencial histórico, os anos 1980. A época do surgimento, ou ao menos fortalecimento, do conceito de “power suit” —terno poderoso—, que imputaria destreza corporativa a quem o vestisse.
Tendo como pano de fundo a ascensão da doutrina neoliberal e o prelúdio da queda da União Soviética, que só ocorreu em 1991, o recorte temporal abarca, um pouco antes, o livro “Dress for Success”. A obra de John T. Molloy, lançada em 1975, disserta sobre o efeito de blazers e gravatas nos negócios.
O estímulo à performance laboral, com apoio de uma roupa poderosa, continua —com devidas adaptações. Antes, transmitia seriedade e profissionalismo. Hoje, ainda carrega esses ideais, além de conforto, personalização e ironia.
“Vista sua liberdade”, disse Rei Kawakubo em janeiro. Como a moda historicamente mostra, o que é usado em um tempo é sintomático das modulações sociais. Os contextos, tanto agora quanto naquela década, são de incerteza para as grandes economias ocidentais.
Nos anos 1980, os Estados Unidos tiveram aumento do desemprego e flutuações por, entre outros motivos, não acompanharem a competição internacional. Por sua vez, o Reino Unido entrou em recessão em 1981. Hoje, Estados Unidos e Europa estão em guerra tarifária, com indícios de confrontos militares.
Já o Brasil, apesar de ter fechado 2025 com uma média de desemprego de 5,6%, a menor taxa da série histórica, encontra pouco otimismo entre a força de trabalho jovem.
De 2015 a 2025, o emprego sem carteira assinada cresceu quase quatro vezes mais do que o formal. Além disso, de cada dez formados nas universidades, apenas um consegue vaga com carteira assinada compatível ao nível de formação.
As passarelas e a moda de rua reagem com risada e reinvenção. Há também alegorias clássicas dos anos 1980, possivelmente um esforço para manter sob controle o que é incerto, assim como naquela época.
“Fala-se muito de alfaiataria, mas o terno completo, com gravata, é pouquíssimo usado mesmo no meio corporativo. O código de vestimenta se flexibilizou, principalmente depois da pandemia, com mais elementos esportivos”, diz Banfi, o stylist.
“Era rígida a ideia de ascender socialmente e usar um paletó estruturado, que dá força e faz lembrar um militar ou policial. Hoje, esta peça não deixou de ser uma farda, só está mais ligada ao conforto e à expressão individual”, afirma o estilista Mateus Cardoso.
“Gosto de jogar com o clássico, pegar uma calça esportiva e fazer um corte de alfaiataria. Ela ganha prega e passante para cinto, mas é usada com tênis e regata”, diz ele. Para Cardoso, o comprimento tradicional do punho pode ser alongado ou encurtado, assim como a linha do ombro pode ser realocada.
Quem faz coro à experimentação é o estilista João Maraschin. “Gosto de conservar os códigos da construção da roupa, mas equacioná-los com uma expressão diferenciada.”
O estilista testa a alfaiataria tradicional com tecidos pouco usuais, entre outras formas. Este é o caso de um jacquard —técnica de entrelaçamento de fios para criar um padrão— de algodão orgânico amarelado. “Dentro de um blazer posso usar materiais que criam diferentes volumes e estruturas. Isto é o que me interessa na alfaiataria, não reforçar o arquétipo de ‘força’ da mulher”, afirma.
Hoje, um terno não reflete necessariamente uma posição de sucesso. “Essa noção é muito elástica”, diz. “Talvez os jovens tenham um conflito na autoexpressão de sucesso e vão na contramão do controle da alfaiataria, cuja raiz está no molde e medição precisos do corpo”, acrescenta Maraschin, que cita o exemplo da alta adesão do oversized, folgado e desconstruído.
“Mudanças na passarela são mais rápidas do que as institucionais. Porém, considerando a velocidade contemporânea, percebo que elas se dão mais rápido com os jovens de agora do que antes.”



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